Inês Alemão Teixeira: «Não somos meninos coitadinhos»

É uma das mais talentosas cavaleiras de paradressage em Portugal. Aos 26 anos, a atleta da Academia João Cardiga quer continuar a ser presença assídua em Mundiais e Europeus

• Foto: Fernando Ferreira

RECORD - Que idade tinhas quando entraste aqui pela primeira vez?

INÊS ALEMÃO TEIXEIRA - Aqui nesta escola foi com 24 anos. Mas comecei a equitação por lazer aos oito. Depois foi-me proposta a oportunidade de fazer equitação a nível mais competitivo e aí é que acabei por me mudar, tendo começado a fazer as provas de paradressage. Agora já não consigo largar isto [risos]. Já gostava de cavalos e também gosto muito da competição. Mudei-me para aqui porque há as oportunidades que eu sempre procurei, ou seja, a oportunidade de participar em grandes concursos, provas internacionais e chegarmos aos nossos sonhos.

R - Quando é que começaste a levar isto mais para a competição?

IAM - O clique surgiu com uma oportunidade que me puseram e já lá vão 11 anos de competição. Já competia antes de chegar aqui, mas os grandes palcos – internacionais, europeus e mundiais – foi tudo aqui com a Lurdes e o João Cardiga, e tem sido uma experiência espetacular.

R - Quantas horas passas aqui por semana?

IAM - Muitas! [risos] Treino quatro vezes por semana, em períodos normais e tento vir todos os dias quando estamos perto das competições. Depois ainda tenho sessões de fisioterapia, de psicologia desportiva fora daqui, mas enquadradas dentro da competição. São vários processos para que nos tornemos atletas melhores. Eu também trabalho. O meu período pós-laboral é passado aqui para que possamos atingir os objetivos.

R - Falaste agora da psicologia. De que forma é que te ajuda nos momentos importantes?

IAM - O psicólogo tem feito um grande trabalho. Enquanto atleta fico bastante nervosa, principalmente nas grandes provas. Vejo que as minhas grandes referências vão competir contra mim. Ver que estou num campeonato em que eles estão a competir já é um grande feito. O trabalho do psicólogo é tentar manter-me calma e conseguir que eu entre em pista concentrada no que estou a fazer, sem deixar que toda a envolvente me deixe ansiosa e baralhada.

R - Como é que ficaste com essa limitação?

IAM - Nasci prematura por ser gémea. E devido à falta de oxigenação do cérebro tive uma paralisia cerebral. Daí é que advém a limitação. Foi descoberta mais tarde através de coisas que a minha irmã conseguia fazer e eu não.

R - Há dias vi uma entrevista da tua colega Rita Lagartinho, que anda de cadeira de rodas, que diz que quer ser vista como uma atleta e não como uma menina que salta da cadeira para o cavalo. Não tens a mesma limitação, mas partilhas desta forma de pensar?

IAM - Eu quero ser olhada como uma atleta. Nós não queremos ser vistos como a pessoa com deficiência. Queremos ser vistos como uma pessoa que é atleta e que tem o mesmo ou até mais trabalho do que um atleta dito normal. Somos atletas como os outros. Não queremos ser vistos como uma pessoa com deficiência motora, mas pelas metas que alcançámos, por conseguirmos chegar aos Jogos Equestres no ano passado, de termos conseguido a qualificação para o Europeu deste ano. Não somos os meninos coitadinhos com deficiência, somos atletas que lutam como todos os outros.

R - Essa limitação trouxe-te alguns problemas de equilíbrio. Já mandaste aqui umas valentes quedas?

IAM - Mando várias! Às vezes o meu cavalo está assim [quieto] e eu acabo debaixo dele e ele fica do género: ‘O que é que estás a fazer aí em baixo?’. Não se mexe, fica à espera que eu me levante. Dou umas grandes quedas. Tenho aqui uma prova no braço. Caí na semana passada. Quando venho mais acelerada o equilíbrio falha.

R - Que marcas tens no teu corpo?

IAM - Tenho muitas nódoas negras ao nível das pernas, mas não tenho nenhuma sequela maior. Tive quedas feias, mas nada de grave. Como dizem as pessoas da área: se caíres, volta a subir.

R - Que diferenças notaste no teu corpo ao longo dos anos?

IAM - Tenho mais força. São cavalos e exigem esforço. Há um trabalho físico que tem sido feito também na fisioterapia para desbloquear músculos que são importantes para melhorar a nossa postura. Há muitos obstáculos que tive de ultrapassar. Ganhei mais equilíbrio e ganhei mais destreza. Ao nível das pernas não se nota tanto, mas ao nível dos braços ganhei devido aos movimentos.

«O treinador é chato e bruto mas é o melhor»

R - Gostavas de dar aulas de equitação?

IAM – Acho que não tenho o perfil necessário.

R - Qual é o perfil necessário?

IAM – O meu treinador está ali a olhar para mim [risos]. Se quisermos ser competitivos convém sermos uma pessoa assim, se quisermos fazer isto por lazer podemos fazer as coisas com mais calma.

R - Vamos fingir que não está ali atrás a ouvir. Como é que ele é?

IAM – É chato e bruto, mas é o melhor treinador. Se não fosse ele nunca tinha ido ao Europeu e ao Mundial.

«Os meus pais deram-me uma dose de realidade»

R - A escola alguma vez ficou para trás?

IAM – Quando aqui cheguei já estava a terminar a faculdade. Nunca descorei a escola. Antes de ser independente para poder fazer isso, havia os pais a dizer para não descorar a escola para fazer aquilo de que gosto. Sempre consegui conciliar as duas coisas. Os meus pais sempre me ajudaram, mas tentaram também dar-me sempre uma dose de realidade.

Por Rafael Godinho
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