Jogo de brutos praticado por todos

Modalidade ainda colhe os frutos da presença no Mundial’2007. Praticantes aumentaram e o desejo é voltar à elite

• Foto: David Martins

24 de março de 2007. Em Montevideu, os ‘Lobos’ perdem com o Uruguai por 18-12, mas beneficiam da vitória na 1ª mão no Estádio Universitário por 12-5 para fazerem história: a inédita presença num Campeonato do Mundo. Em França, a Seleção não conseguiu qualquer vitória, mas o feito mudou para sempre a modalidade em Portugal.

"O Mundial de 2007 teve inquestionavelmente um impacto positivo no râguebi nacional", conta Miguel Portela, ‘lobo’ em 2007 e atual diretor da formação do Direito. "As imagens que foram transmitidas ao longo do Mundial cativaram muita gente para o râguebi. Os anos seguintes foram anos em houve um enorme crescimento no que respeita à adesão de jovens jogadores. Nesse sentido, no que respeita ao impacto imediato, o Mundial de 2007 foi muito positivo", analisa o antigo jogador, que treina também a equipa de sub-18 do Direito.

E o Campeonato do Mundo foi realmente impactante em Portugal. Se na época 2006/07 havia 2.726 atletas federados no país, na temporada seguinte o número subiu exponencialmente para os 4.723 praticantes [ver infografia]. "Atualmente não chegamos aos 7 mil", lamenta Amado da Silva, presidente da Federação Portuguesa de Rugby. "Esperamos agora recuperar e atingir a meta dos 10 mil praticantes até ao final da legislatura", diz o responsável máximo, recém-eleito para o quadriénio 2019-2023, lembrando ainda que o râguebi não é um desporto para as elites. "O que o distingue não são as classes sociais mas sim as comportamentais."

Outro objetivo do dirigente passa pelo desenvolvimento do râguebi feminino, campeonato que tem sido dominado pelo Sporting. "Queremos certamente fazer crescer. Temos atualmente 13 equipas."

Os números da evolução

Formação "é caso de sucesso"

Ligado aos escalões de formação, Miguel Portela traça um cenário positivo do trabalho que tem vindo a ser feito nos escalões jovens. "O râguebi juvenil é um caso de sucesso, quer nos grandes clubes, quer nos de menor dimensão. É visível nos vários convívios que se realizam em Portugal. Vê-se uma enorme adesão, os torneios têm imenso nível, a qualidade do râguebi é espetacular e a qualidade organizativa é muito acima da média. Digo-lhe isto porque vou lá fora e não vejo mais quantidade nem mais qualidade. O râguebi em Portugal está no bom caminho e de certa maneira a aproveitar os frutos de 2007", diz o antigo jogador, 65 vezes internacional pela Seleção de XV e nove vezes campeão nacional pelo Direito.

Problemas? Infraestruturas

Amado da Silva aponta a falta de infraestruturas como um dos principais obstáculos à evolução da modalidade. "No Porto há muitas dificuldades para os miúdos se treinarem. Há três ou quatro clubes no Porto e não há espaços para treinar. Coimbra! Uma cidade tradicional no râguebi. Tem o estádio em Taveiro, mas não é a mesma coisa ir treinar todos os dias para lá. No Algarve não há condições. O pouco que há é para o futebol."

Mas não é apenas a falta de condições que dificulta o desenvolvimento da modalidade. Segundo Amado da Silva, a ideia de que o râguebi é um desporto praticado por brutos não abona a favor dos escalões de formação, já que os pais preferem ver os seus filhos num desporto com menos contacto físico. "É um desporto duro, mas não é violento. Os pais tem muitas vezes receio porque veem aquele jogo tão agressivo, esquecendo que isso implica uma preparação física adequada", sublinha o dirigente.

Miguel Portela: "Acreditar na ideia Mundial’2023"

Os excelentes resultados recentemente alcançados pela equipa de sub-20 (tricampeões da Europa) fazem Miguel Portela acreditar que Portugal possa estar presente no Mundial de 2023, em França, precisamente o país onde os ‘Lobos’ fizeram história em 2007. "Era giro começar a promover e acreditar na ideia Mundial’2023. O râguebi nacional precisava de um novo sucesso como foi o de 2007", sublinha o advogado.

Apesar de os resultados a nível de seniores não terem sido os melhor nos anos que se seguiram ao Mundial, Miguel Portela lembra os erros cometidos e acredita que a nova geração pode dar alegrias. "O maior erro que fizemos a seguir ao Mundial foi semiprofissionalizar o râguebi português. Passámos de ser a melhor seleção amadora do Mundo para uma das piores seleções profissionais do Mundo. Agora, e por questões diversas, está-se novamente a inverter. Estamos a voltar às bases. Temos imensos jovens com talento e com as características que nos levaram ao Mundial de 2007. Se a Seleção até aqui viveu um período menos positivo, temos tudo para confiar e acreditar que em breve os bons resultados voltarão a fazer parte da nossa história", destaca o atual diretor dos escalões de formação do Direito.

FACTOS E NÚMEROS

Fundação. Criada em 1957, a Federação Portuguesa de Rugby conta com 60 equipas, sendo que 13 são femininas. O Agronomia é o atual campeão nacional

História. A Seleção conta uma presença num Campeonato do Mundo. Foi em 2007, na França. Na estreia, os ‘Lobos’ perderam frente à Escócia por 58-10. O atual treinador é o francês Patrice Lagisquet

recordista. O antigo jogador Vasco Uva soma 101 jogos pela Seleção, o que faz dele o jogador com mais internacionalizações no país. Representou os ‘Lobos’ de 2003 a 2016

sevens. Portugal conta oito títulos europeus na categoria de sevens (2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2008, 2010 e 2011)

bolsas. Desde 2013, foram 33 os atletas de râguebi a receberem Bolsas de Educação Jogos Santa Casa, num valor total de quase 100 mil euros. Há seis anos que a instituição patrocina a Federação Portuguesa de Rugby

Por Rafael Godinho
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