Júlio Ferreira: «Taekwondo sempre fez parte de mim»

Entrevista ao n.º 9 do ranking mundial de taekwondo em -80 kg

RECORD - Alguma vez lhe passou pela cabeça colocar o taekwondo de lado e concentrar-se apenas nos estudos?

JÚLIO FERREIRA – Não, porque quando cheguei à universidade já o taekwondo tinha um papel muito importante na minha vida. Não só já era uma rotina como sempre consegui conciliar bem os estudos com o desporto. Nunca foi um obstáculo, porque o taekwondo sempre fez parte de mim.

R - Motiva ainda mais por estar a fazer o que gosta e lhe darem condições para isso?

JF – Claro! Lá no ginásio havia malta que andava na Universidade do Minho, que é conhecida por ajudar os estudantes atletas, um trabalho muito bom que a universidade faz. Muitos atletas conseguiam conciliar e atingir excelentes resultados, quer no desporto, quer nos estudos. Quando soube que havia a oportunidade de ir para o curso que queria, nem pensei duas vezes.

R - Consegue libertar-se dos problemas dos estudos em combate e vice-versa?

JF – Sim, temos de ter essa capacidade e saber gerir as situações. Para conseguirmos fazer as coisas bem, temos de desligar de tudo e concentrar-nos apenas no que estamos a fazer. Não podemos levar os problemas de uma coisa para a outra.

R - E em termos de descanso, quantas horas costuma dormir?

JF – Entre seis e sete horas, mas depende muito por causa dos trabalhos da escola. A noite serve muitas vezes para os estudos e as manhãs para os treinos. Há que saber conciliar.

R - Qual o melhor combate da sua carreira?

JF – É uma pergunta difícil, porque já tive combates excelentes que ganhei, mas em que a dificuldade não era tão elevada comparando com outros que perdi, mas em que também estive muito bem. Mas arrisco-me a dizer que o combate em que estive melhor foi nos Jogos Europeus de Baku, em 2015. Combati com o nº 2 da altura e consegui controlá-lo melhor do que ninguém nessa competição. Acabei por perder, mas foi o combate em que senti que estava a fazer as coisas realmente bem. Ou seja, o melhor combate da minha carreira... perdi-o.

R - Falando agora do combate em si, para quem não conhece. Quais as características que o diferenciam?

JF – Compito na categoria de -80 kg e hoje em dia existem muitos atletas de categorias superiores, muito altos, que perdem peso para competirem na categoria abaixo. Ou seja, há muitos atletas com grande alcance, comprimento e alavanca de perna que conseguem ter um bom jogo defensivo por causa disso. O meu jogo reflete-se no verdadeiro contra dessas características. Baseia-se muito na mobilidade, nas fintas, na criatividade para obrigar o adversário a errar, resistência e gestão de distância. Tento muito jogar com a postura do adversário, movimentar-me muito, provocar o erro e colocar o ponto. Contra os adversários que caracterizei, o jogo direto não resulta e temos de ter uma maior criatividade para marcar pontos.

R - O que é o mais complicado num combate de taekwondo?

JF – Existe tanta complicação que é difícil apontar a maior. Todos os atletas são diferentes e, como estamos num nível altíssimo, antes do combate os nossos adversários já sabem o que vamos fazer, por isso temos deter a capacidade de surpreender.

R - Quais os adversários mais complicados?

JF – Existem atletas que são mais duros, mais físicos, há combates que são quase de guerreiros, normalmente com adversários mais emotivos. Esses são mais fáceis de manietar, porque caem mais facilmente em fintas e em provocações que fazemos ao longo do combate. Por outro lado, os atletas mais fortes taticamente são os que me deixam mais marcas, porque a força nós conseguimos bloquear. Neste nível não há super-homens, mas os que nos conseguem intimidar pela postura, pela pressão e com a indução em erro, são os mais difíceis.

R - Sente-se capaz de competir até que idade?

JF – Até não conseguir mais.

Por Pedro Filipe Pinto
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