Manuel Mendes: «Tive a felicidade de treinar com Dulce Félix»
Entrevista ao atleta paralímpico
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RECORD - Como é que nasceu o gosto pelo atletismo e pela maratona?
MANUEL MENDES - Eu comecei a praticar numa fase mais adiantada, com cerca de 27 anos. Comecei a correr com um tio da minha esposa e fui ganhando essa vontade cada vez maior de tentar superar-me. Porque quando se começa, fazendo por exemplo cinco quilómetros, uma pessoa fica logo satisfeita. Anteriormente não fazia nada e começamos cada vez mais a impor novos desafios e metas. Vamos lutando e sentimos o corpo melhor. O corpo começa a adquirir mais quilómetros, mais léguas, o que é positivo. Treinava e fazia corridas de uma forma tranquila e, depois, com 40 e poucos anos, encarei de uma forma mais séria.
R - Tinha alguma referência no atletismo quando começou no alto rendimento?
MM - Sem dúvida. Recordo-me de levantar quando era mais novo para ver os nossos maratonistas, tais como Carlos Lopes, Rosa Mota ou Fernanda Ribeiro a competirem. A ganhar medalhas. Depois, quando comecei a treinar mais a sério, tive a felicidade de ser treinado por Ricardo Ribas, um atleta olímpico de grande valor. Além disso, também pude felizmente treinar com uma atleta de excelência, como é a Dulce Félix. Mas também é extremamente importante o grupo que tens para treinar. Tive a felicidade de, numa fase inicial, treinar com os melhores. E com os melhores só não aprende quem realmente não quiser ou estiver muito desatento.
R - E houve algum conselho importante que tenha recebido de Dulce Félix e que guarde até hoje?
MM - Sim, sem dúvida. Existem conselhos que ficam para sempre. Desde logo, é um facto que antes levava a modalidade de uma forma desinteressada e sem levar as coisas a sério. Um dia, num treino de 30 quilómetros, estava a treinar com Dulce Félix, tinha calor, estávamos a fazer séries e, num dos intervalos das séries, ela foi buscar água e deu-me, de forma a que eu me refrescasse. Estava um dia muito difícil e, na minha ignorância, nem abastecimento de água tinha. A partir daí, percebi que quando se está num alto nível e numa competição a sério, todos os pormenores contam. Todas a situações têm de ser acauteladas quando se compete numa modalidade de alto rendimento. Temos de juntar as pontas todas para um bom resultado.
R - Na sua carreira, soma várias participações em maratonas e competições de alto nível. Houve alguma história ou acontecimento caricato que recorde ou que o tenha marcado especialmente nestes anos todos?
MM – Bem, já passei por muita coisa na carreira, é complicado definir uma história ou situação em concreto... Mas, sem dúvida, aquilo que mais me marcou foi a medalha de bronze que conquistei nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Quer dizer, quase do nada, consegui estar apurado para os Jogos Paralímpicos e a verdade é que aconteceu tudo de uma forma muito rápido. Basicamente, num ano e meio, as coisas sucederam desta forma e, sem planear, garanti o apuramento para estar presente numa competição tão importante. E, ainda para mais, consegui chegar ao pódio nos Jogos. É daquelas coisas que, na altura, nem tinha noção daquilo que tinha alcançado. É um momento que fica marcado para a vida toda.
R - Aos 50 anos, é dos atletas mais experientes em competição. Qual o segredo para manter essa longevidade no alto rendimento?
MM– Aqui há uns anos praticava desporto de uma forma amadora e passar para o alto rendimento ajudou-me a ganhar outras valências. Quando se faz desporto mais amador, não se vai ao osso, como se costuma dizer. A partir do momento em que entrei na alta competição, passei a ter maiores cuidados a nível de descanso, alimentação e isso ajudou muito. O facto de não ter tido lesões é importante. Por vezes, temos de dizer não aos amigos e não ir beber um copo. Ir para a cama descansar. Ter uma alimentação correta. Há vários casos de atletas em idade avançada e que chegam cada vez mais longe.
R - Levou uma chupeta do seu filho para Tóquio devido às saudades. Tem programado levar-lhe alguma recordação do Japão?
MM –A família é uma parte importante para todas as pessoas e, se assim não for, algo está mal. É fundamental para que haja estabilidade para um atleta. É um bom ponto de partida para ter a cabeça tranquila, estar sossegado e estável. Felizmente tenho essa família que me apoia. Tenho um filho de 2 anos, sendo a primeira vez que estou tanto tempo longe dele. Penso todos os dias neles, mas a distância é por uma boa causa. A lembrança que mais gostaria de lhe levar, toda a gente certamente saberá o que é. Mas nunca se pode prometer uma coisa dessas. Seria um sonho pode dar-lhe esse presente.