Marco Chagas: «A Maria Martins vai fazer história em Tóquio»

Um encontro de gerações

• Foto: Pedro Ferreira

MARCO CHAGAS – Muito provavelmente estarás nos Jogos Olímpicos de Tóquio, sempre foi um objetivo...

MARIA MARTINS – Acho que os Jogos Olímpicos são o sonho de qualquer desportista. É um sonho que tenho em mente, mas, para ser sincera, estes de Tóquio não estavam previstos na minha mente. Se me tivessem perguntado no ano passado se eu tinha Tóquio em mente, eu diria que não, de todo. Não, porque tenho 20 anos, porque comecei na pista há cerca de dois anos, a fazer competições internacionais há dois anos. Estou apenas no meu segundo ano de elite, como é que poderia pensar nisso? Mas aqui estou eu, a pontuar e já com um pé em Tóquio, o que para mim é incrível, ainda não caí bem em mim. Tenho o sonho na minha mão e vou fazer tudo para o agarrar.

MC – Vais fazer história em Tóquio e terás muitos mais Jogos pela frente.

MM – No seu tempo, o ciclismo de pista tinha algum peso a nível nacional?

MC – Tinha pouco. Havia aqueles festivais de pista quando comecei a correr e ainda participei em alguns, mas eram coisas muito pontuais. Nos anos 70 havia muita tradição, mas depois perdeu-se um pouco. Fui cinco vezes campeão nacional de estrada e é algo de que me orgulho muito, principalmente por ter a nossa bandeira ao peito, mas houve um ano que também consegui ser campeão nacional de perseguição. Corria aqui e fui à final com um companheiro de equipa que era o Alfredo Gouveia e tive o privilégio de ganhar. Mas não, não tinha peso nenhum. Tivemos grandes ‘pistards’ nos tempos que me antecederam, mas que tiveram de ir para a estrada porque não tinham oportunidade de fazer carreira na pista. Que remédio tinham eles, tinham de sofrer nas etapas mais duras para conseguirem lutar por vitórias nas chegadas ao sprint.

MC – Achas que tens condições para seres profissional até decidires parar?

MM – Espero que sim, porque isso também é um objetivo que tenho e gostava que o ciclismo me desse essas condições para me tornar profissional e viver do ciclismo. Neste momento, o ciclismo feminino ainda tem muito a melhorar, principalmente a nível dos salários, mas já se vê alguma progressão e pode ser que dê para isso, pelo menos espero que sim. Gostava de viver do ciclismo, não até aos trinta e tal, mas sim uma parte da minha vida dedicada completamente ao ciclismo.

R - O Marco já falou de algumas mulheres que são referências para o ciclismo feminino português. Com o que tem feito, já se sente também uma referência para algumas meninas?

MM – Não penso muito nisso, mas posso ser, sim, para algumas jovens que são mais novas do que eu e que estão à procura de inspiração; nesse sentido, sim, posso servir de referência. Nós vemos referências em pessoas que nos inspiram e se eu conseguir ser isso para alguém também é muito bom.

MM – Por que é que decidiu terminar a carreira aos 33 anos?

MC – Porque é preciso pensar no tempo. Como tu tens noção, nós levantamo-nos de manhã e sabemos o que temos de fazer e eu sabia, só que há um momento em que sentes que já não te apetece. A partir daí é difícil encontrar motivação para os treinos. Sempre fui de ideias muito fixas, cheguei ao final da época de 1989 e disse que me iria retirar no final da próxima temporada. Escolhi uma equipa que foi a ideal, em Cantanhede, fiz uma época tranquila e terminei a Volta a Portugal em quinto lugar. Como costumo dizer, assisti de camarote à luta entre o Joaquim Gomes e o Fernando Carvalho, que acabou por ganhar. Saí na boa, tranquilo, as pessoas tentaram convencer-me a ficar, mas eu já tinha decidido. Lá está, se eu tivesse outro acompanhamento, se fosse noutro tempo, se fosse hoje, se calhar teria continuado. Nunca me arrependi. Acabou ali. O que eu tinha sofrido já era suficiente também.

MM – Cresceu a ter quem como ídolo?

MC – O meu primeiro ídolo foi o meu tio Ramiro Martins, porque cresci a sentir o cheiro das bicicletas dele e de toda a competição. Só que isso rapidamente passou, porque o meu tio na idade que devia ter começado… deixou, com 21 ou 22 anos. Mas tinha um potencial enorme, porque foi campeão nacional e foi aos Jogos Olímpicos de 1960 com apenas 18 anos, ou seja, tinha de ser especial. Mas a partir do momento em que começo a acompanhar o ciclismo, nos finais dos anos 60, quem é aparece?

MM – Joaquim Agostinho.

MC – Ora pois. Claro que ele foi o meu grande herói, o meu grande ídolo, como é o de tanta gente até aos dias de hoje. Eu tive o privilégio de ter sido companheiro de equipa dele durante um ano lá fora, correndo em França, de partilhar muito tempo. Eu conheci-o antes, mas falar com só o "olá" e o "está bom, senhor Agostinho?". Sempre com muito respeito, eu era miúdo e nos nossos encontros éramos pontuais, porque apesar de sermos os dois do Sporting, ele fazia vida e carreira em França e vinha cá fazer umas provas; por isso, nós, quando o víamos, claro que o tratávamos com enorme respeito. Mas era uma pessoa fantástica, o meu grande herói. E sê-lo-á sempre.

MC – Quais as grandes dificuldades que sentiste ao início e que ainda sentes?

MM – O ciclismo é dos desportos mais duros e o Marco sabe melhor do que eu. A preparação do ciclista e todo o treino que tem de fazer, os sacrifícios que temos de fazer para brilharmos naquilo que mais gostamos de fazer é das coisas mais duras. Continua a ser. É levantar quando estamos nos momentos mais difíceis. Das coisas mais duras no desporto é ver a luz depois da escuridão.

MM – Então a vitória mais complicada foi a última...

MC – Sim, não só pelo atraso que tinha, mas também por uma história com o presidente do Sporting da altura que aconteceu no dia do contrarrelógio. Sou sportinguista e aquele presidente deixa saudades – falo do presidente João Rocha. O contrarrelógio foi em Viana do Castelo, perto da praia da Amorosa, e quem é que aparece quando eu estou a ir para a rampa? O senhor João Rocha! E disse-me com aquela forma muito tranquila que ele tinha de falar: "Pá!, está a ver, os sportinguistas estão todos a olhar para si. Força!" Aquilo em vez de me motivar, pôs-me foi a perninha a tremer. Eu que até arrancava bem, nesse dia estava difícil de controlar a perna. Mas com o tempo e com o esforço esqueci o homem e a responsabilidade e acabei por ganhar.

As pessoas já a reconhecem na rua e vêm falar consigo?

MM – Algumas vezes, mas curiosamente há pouco tempo, depois do bronze no Europeu, fui ao banco tratar de uns assuntos e logo quando entrei reparei que um senhor me olhou de forma estranha, desviou o olhar e voltou a fazê-lo. Depois acabou por ser esse senhor que me atendeu. Lá ganhou coragem e perguntou-me se eu era a Maria Martins e disse-me: "Muitos parabéns, ainda nos vais dar muitas alegrias!" Aí percebi que as pessoas já olham para a Maria Martins de outra forma e já há cada vez mais pessoas a virem falar comigo e dar-me força. Para quem é desportista, isso é muito bom.

Record agradece à Câmara Municipal de Alpiarça a cedência da pista de ciclismo para a realização desta reportagem

Por Pedro Filipe Pinto
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