Norberto Mourão: «O primeiro sentimento foi alívio»

Desde que chegou, ainda não largou o bronze que conquistou nos Jogos Paralímpicos. Em Paris o objetivo será o mesmo

• Foto: Lusa

RECORD - Tenho de começar por perguntar onde é que está a medalha? Aposto que ainda não a largou desde que a conquistou...

NORBERTO MOURÃO – Penso que a tenho aqui... ah não, está na outra cadeira. Mas sim, tem estado na minha cadeira, porque, por acaso, no outro dia quando houve aquela receção que me fizeram aqui na aldeia, tinha-a comigo e levei-a. Tem andado sempre por perto, sim...

R - Pegando nessa receção, o que lhe passou pela cabeça primeiro no aeroporto e depois aí na aldeia [Quintela, em Vila Real]?

NM – É fantástico. No aeroporto já estávamos a contar, não sabíamos quem lá estaria, mas sabíamos que ia haver uma receção. Não contava, por exemplo, que os bombeiros de Camarate estivessem lá. Sabíamos que íamos ser bem recebidos, mas foi muito melhor do que estávamos a imaginar. Agora aqui na aldeia é que não estava mesmo à espera. Foi feito na casa da minha tia. O meu irmão acabou por vir de França, chegou no mesmo dia que eu e disse-me para ir lá por causa da nossa avó. Fui e vi muita gente, ao início pensava que era dia de missa, porque é perto da capela, mas depois vi os carros da comunicação social aqui da zona e percebi que não era a missa, mas sim uma receção e fiquei fascinado. Até porque vieram pessoas das mais altas instâncias daqui. Veio o presidente da Câmara, da Junta, o vereador do desporto... foi fantástico.

R - O que é que sentiu quando percebeu que era medalhado paralímpico?

NM – Inicialmente foi alívio. Arranquei forte como é costume, senti que o atleta da Espanha estava para trás e todos os que estavam do meu lado direito também, mas no final acabei por dar o estoiro e quando olhei para a esquerda vi vários atletas e não fazia mesmo ideia do resultado, pensei mesmo que tinha ficado de fora das medalhas. Quando vi que o meu nome estava em terceiro acabei por levantar o braço e fazer a festa, não tanto pela conquista mas mais pelo alívio de ter conseguido. Sabia que estava sempre bem classificado, mas fiquei sem ideia do resultado.

R - O que foi mais cansativo? A prova em si ou os dias seguintes? Porque esta é mais uma de muitas entrevistas que tem dado...

NM – A prova acabou por ser muito mais desgastante. Agora o tempo não é muito, é descansar e ir dar umas entrevistas, o que é muito positivo. Mas na prova acabei completamente vazio, não havia mesmo mais nada para dar, por isso aquele desgaste todo, a viagem para o Japão, a estadia... Já estávamos todos fartos de lá estar, queríamos voltar para casa. Por muito que estivéssemos a gostar de lá estar, a nossa casa é a nossa casa. Lá não havia liberdade, tínhamos de ir do hotel para o local da prova, não podíamos estar com o resto do pessoal, não podíamos ir ver as outras provas. Estávamos ali fechados, tudo aquilo foi desgastante. Agora esta parte das entrevistas é boa, é a parte do reconhecimento e é excelente dar a conhecer aquilo que fazemos.

R - É curioso que falhou os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro por milésimos e agora conseguiu o bronze por centésimos em relação ao quarto classificado...

NM – Sabia que ia ser muito difícil. O facto de em 2016 ter falhado no caiaque, sabia que se agora tentasse novamente no caiaque, a probabilidade de não conseguir era muito alta. Como abriu a possibilidade da canoa, onde a competição é justa, estou a competir de igual para igual – com a exceção do atleta brasileiro que usa as pernas, tanto que se viu no pódio dois atletas amputados e um atleta em pé, mas pronto, isso são outras guerras. Sabia que o nível ia estar muito forte, porque somos muito iguais. Ter falhado em 2016 acabou por dar-me mais força e a entrada na canoa mais confiança. Partimos para Tóquio confiantes, sempre com um pé atrás, mesmo eu que não tenho, porque sabia que podia facilmente uma medalha e viu-se que foi por muito pouco, mas também foi por muito pouco que não fiquei com a prata.

R - Depois dessa falha em 2016, qual foi a sua mentalidade?

NM – O que aconteceu já tinha acontecido noutras provas. Por exemplo, na primeira prova internacional que fiz, fui direto à final e nos últimos metros virei, em 2013 tive um problema no leme numa prova em que estava para ir às medalhas... Todas essas questões foram-me fortalecendo e em 2016 foi mais uma. Cheguei a 2019 e, perante a alteração do tipo de embarcação, já tinha aquela bagagem de ultrapassar dificuldades. Por isso, a partir daí foi só aproveitar. Sabendo que, se falhar, é levantar a cabeça e continuar, porque já falhei antes. Por isso temos é de aproveitar.

R - Este foi um ciclo olímpico estranho e também complicado. Quais as principais dificuldades com que se deparou?

NM – Sim, foi muito complicado. Em 2018, quando ainda fiz caiaque e canoa. Em 2017 tive os piores resultados, mas 2018 foi um ano de experiências e em 2019 começaram a aparecer os resultados e a vaga para Tóquio. Depois em 2020 com a pandemia, foi bastante complicado. Fiquei satisfeito com o adiamento dos Jogos porque a situação era mesmo muito complicada, uma vez que estaríamos a treinar sem saber o que íamos fazer. Eu estive três meses sem treinar na água, por exemplo. A única competição que houve em 2020, acabei por participar, mas não sabia como ia lá chegar. Foi um ciclo de altos e baixos, com muita incerteza, esperemos que daqui para a frente seja tudo mais simples.

R - E agora que acabaram os Jogos, seguem-se os Mundiais. Sei que há aí um ‘negócio’ entre o Norberto e o Ivo Quendera [treinador] sobre as expectativas, mas... vamos outra vez para as medalhas ou o desgaste já é muito?

NM – Eu não faço a mínima ideia como é que vou lá chegar. É claro que o objetivo passa por integrar a final e, tendo em conta os resultados, tenho capacidade para isso. Mas esta semana não vou treinar na água, nem sequer tenho barco para isso. Um está no Japão, o outro está a ir para a Dinamarca. Só vou treinar na água um dia antes da prova e isso não é nada bom. Mas acabo por conseguir descansar e chegar lá cheio de vontade. A única competição que fiz assim nestas condições foi em 2019, quando tive o Mundial, parei duas semanas e tive o ‘test event’ em Tóquio, venci e pode ser que seja um bom augúrio.

Por Pedro Filipe Pinto
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