Paulo Fidalgo: «O futuro vai ser risonho»

Aos 44 anos, o treinador do Madeira SAD, que exerce também o papel de adjunto na Seleção Nacional, aborda a evolução do andebol português e o que tem levado aos bons resultados

• Foto: Hélder Santos

Record  – A prestação positiva da seleção portuguesa no último Europeu excedeu as suas expectativas ou pensava na possibilidade de um desempenho tão bom?

Paulo Fidalgo – Antes de mais, tendo em conta os últimos três anos de trabalho das estruturas do andebol, nomeadamente a estrutura federativa, passando pelos clubes e pelos atletas, estes anos foram de enorme evolução. Eu diria que o andebol cresceu num todo e, obviamente, isso refletiu-se na seleção principal. Aí há que dar mérito ao selecionador Paulo Pereira e à sua equipa técnica, pois rentabilizaram muito bem o Euro. De facto, o resultado no Euro foi extraordinário. Por termos ido passados 14 anos a uma fase final e, de repente, conseguimos passar ao Main Round e até chegámos à disputa pelos 5º e 6º lugares. Há aqui o facto de surpresa, mas é englobado no crescimento sustentado que está a ter o andebol português.

R – O Paulo abordou o trabalho dos últimos dois anos. O planeamento surgiu desde aí ou já é algo que vem da última década?

PF – É claro que falo dos últimos dois/três anos como a altura da eclosão internacional do andebol português. Na última década fomos crescendo de uma forma gradual. Isso não foi tão visível nos patamares internacionais. Foi um crescimento paulatino, só que eu acho que a verdadeira eclosão sucedeu nos últimos dois anos. Tal deveu-se a uma série de fatores. Internacionalmente, o andebol português tornou-se muito forte.

R – É adjunto na Seleção, enquanto também é o treinador principal do Madeira SAD. Que principais diferenças encontra entre o contexto de liga portuguesa e da Seleção em provas mundiais?

PF – Existem padrões que são idênticos, mas também outros que são diferenciados. Primeiro, continuo a insistir que o andebol cresceu no seu todo. Existem três clubes que, sobretudo pela questão financeira, têm um domínio desportivo das provas nacionais, mas depois existe uma classe média que também cresceu e dá luta. Neste momento, temos um dos campeonatos mais equilibrados a nível competitivo na Europa.

R – Coloca em que patamar?

PF – Diria que estamos num top 5 ou top 6. Temos França e Alemanha como realidades à parte, mas depois temos a liga dinamarquesa, espanhola e acho que Portugal consegue ter importância. A exigência das provas nacionais também é elevada.

R – E o que foi mais difícil de gerir neste Europeu?

PF – É claro que para todo o grupo de trabalho a presença no Europeu foi um momento único. Eu falava muitas vezes com o Paulo Pereira e dizia que Portugal tem de estar mais vezes nesses momentos, porque a exigência é muita elevada. Temos competição em dia sim dia não, ou então temos a preparação do jogo e, portanto, é uma prova extremamente exigente do ponto de vista de logística e exigência. É preciso ter rotina neste tipo de competição e eu creio que o futuro vai ser risonho e isso vai tornar mais forte o atleta português.

R – A sua ligação ao andebol já vem de há vários anos. Como começou tudo?

PF – Se calhar, faço parte de uma fatia grande de jovens dos anos 80 que queria ser futebolista. Tentei a minha sorte no V. Guimarães, mas não tinha muito talento nos pés e, por influência dos amigos, entrei no andebol, no Desportivo Francisco de Holanda, em Guimarães. A partir daí, o meu crescimento no andebol foi muito rápido: fui internacional em todos os escalões, a minha carreira não foi longa devido a uma lesão no joelho, mas tive uma ascensão rápida a nível de treinador. E com muito orgulho fiz parte da equipa técnica de Paulo Pereira.

R – Considera que público português está mais interessado em ver andebol?

PF – Tendo em conta a prestação que tivemos e os bons resultados, as pessoas dão maior mérito.

R – Notou isso também por parte de intervenientes de outras seleções no Europeu?

PF - Neste momento, Portugal é muito respeitado. O trabalho que fizeram FC Porto, Sporting, Benfica e até o Madeira SAD na Taça Challenge leva à elevação da nossa imagem na Europa. 

R – Num palco com tantas estrelas como o Europeu, guardou alguma história especial?

PF – Nós passámos praticamente um mês juntos e durante esse período de tempo acabam por existir muitas histórias. De facto, nós funcionámos como uma família, pois adaptámo-nos muito bem uns aos outros e conseguimos criar rotinas, bem como uma forma de estar muito própria. Mas recordo-me de um momento específico que tivemos no banco de suplentes.

R – ...

PF – Estávamos a perder contra a Eslovénia, a partida não nos estava a correr muito bem e lembro-me, a poucos minutos do fim, de uma situação com o nosso selecionador Paulo Pereira. Praticamente íamos perder o jogo e lembro-me de confessar ao Paulo que estava triste pela derrota e ele disse ‘Calma, que a matemática vai estar do nosso lado e temos de estar fortes com a Hungria para conseguimos lutar pelo 5º e 6º lugares’. Era uma matemática complicada, pois dependia de muitos resultados. Tínhamos esse sonho e depois à noite, de forma mais calma, vimos os resultados e eram todos a nosso favor. E tal levou a que no dia seguinte pudéssemos lutar pelos 5º e 6º postos. Todo aquele enredo marcou-me e foi muito positivo para nós.

R – Pegando nessas mesmas experiências, de que forma é que era difícil gerir o lado emocional de jogadores tão jovens como eram os casos de André Gomes, Miguel Martins, Luís Frade, Branquinho... numa competição de alto nível?

PF – Havia uma ambição muito grande por parte de toda a estrutura. A equipa acabou por ter várias exibições competentes e equilibradas e isso ficou bem patente depois no desempenho de todos os jogadores. Acima de tudo, foi crucial a forma como a nossa seleção foi passando os vários dias. Nós éramos, sem dúvida, uma família e trabalhávamos assim. Todos os jogadores estavam empenhados e mentalizados e não precisaram assim tanto de conselhos nessa perspetiva. Recorde-se que temos uma Seleção com atletas que denotam experiência internacional pelos clubes... 

R – Houve algum objeto que tenha guardado do último Campeonato da Europa?

PF – Por acaso trouxe algo muito simples. Além de dezenas de fotografias que me irão recordar de todos os momentos, trouxe um boneco igual à mascote do torneio. Também isso foi mais direcionado para a minha filha, mas igualmente para ficar em casa com uma marca desse momento. Nomeadamente porque a mascote está vestida ‘à Suécia’ e isso lembra-me a vitória por 35-25, sobre a Suécia, o que foi histórico no andebol nacional. 

R – Nesta altura da sua carreira, que objetivos tem definidos a curto e médio prazo?

PF – Tenho os objetivos definidos basicamente dessa forma e passam por ajudar o Paulo Pereira e o restante staff técnico. Quero muito que Portugal possa aparecer o mais forte possível no torneio pré-olímpico, para alimentarmos este sonho dos Jogos que parecia impossível. E estar bem no playoff de acesso ao Mundial. 

Por Filipe Balreira
Deixe o seu comentário

Últimas Notícias

Notícias
SUBSCREVA A NEWSLETTER RECORD GERAL
e receba as notícias em primeira mão

Ultimas de Fazemos campeões

Teodoro Cândido: «Na cadeira esqueço tudo»

Aos 66 anos, Teodoro não se cansa. Descobriu o desporto adaptado no sofá durante “a vida de reformado”. Depois disso nunca mais parou: andebol, basquetebol, ténis de mesa, vela... e não quer ficar por aqui

Notícias

Copyright © 2019. Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media S.A. Consulte a Política de Privacidade Cofina.