Rui Fernandes: «Vimos o nosso sonho a ir por água abaixo»

Selecionador nacional de canoagem do K4 fala a Record sobre o regresso a Portugal, depois da passagem pelo Brasil,

• Foto: Direitos Reservados

Record – O Rui regressou a Portugal após os Jogos do Rio de Janeiro, com Tóquio no horizonte. Como tem sido este regresso?

Rui Fernandes – Cheguei depois dos Jogos do Rio, mas já em 2018. Em 2017 ainda estava ao serviço da canoagem brasileira. Fiquei algum tempo a aguardar pela entrada na equipa nacional, não entrei logo. Começar a meio nunca é bom, porque gostamos de fazer o ciclo completo. Mas sou um treinador ambicioso, que gosta de desafios destes, por isso agarrei este desafio para chegar a Tóquio na melhor forma possível. Foi uma tarefa difícil, mas já está.

R – Encontrou uma Seleção muito diferente daquela que deixou?

RF – Já tinha trabalhado com o Emanuel e com o João Ribeiro, já conhecia esses, mas os mais novos não. Tirando esses, a restante equipa era nova para mim. Por isso, sim.

R – Foi preciso fazer algum tipo de reestruturação?

RF – Devia ser feita, mas ainda não foi. Apenas houve uma renovação, no que diz respeito a uma equipa de K4 que até então tinha sido com atletas como o Pimenta, o Emanuel Silva e o João Ribeiro, para a qual entraram atletas mais novos, por isso houve renovação.

R – O presidente da Federação já ‘pediu’ duas medalhas. Não conseguir será uma desilusão?

RF – De maneira alguma, mas depois do crescimento e da evolução que teve este barco temos de ter essa ambição. Não sou um treinador com medo de aceitar esses desafios e trabalho mesmo com esse objetivo. Vamos para uma competição na qual o nível é todo muito próximo, mas é possível chegar lá. No entanto, nunca será uma desilusão, porque este barco há um ano e meio estaria fora dessas finais. O apuramento olímpico já foi uma grande vitória, mas o que temos vindo a fazer permite-nos pensar que é possível. O K4 vai com grande ambição de chegar às medalhas.

R – O que o levou a aceitar o projeto brasileiro?

RF – Ser o país sede dos Jogos Olímpicos e ser um projeto aliciante. Como estava como adjunto, vi ali uma oportunidade para crescer como treinador sem grande pressão.

R – Houve um grande choque quando chegou lá?

RF – O desporto brasileiro, antes das olimpíadas, até teve condições de trabalho, houve ali muito dinheiro investido para que todas as modalidades tivessem condições de preparação. Em relação às diferenças para Portugal… são grandes. Nós temos três ou quatro vezes mais equipas de canoagem, eles têm pelo menos um terço dos atletas portugueses, portanto é mais difícil encontrar o talento. Só isto mostra bem a diferença.

R – Quais são as melhores memórias que trouxe?

RF –Tendo em mente as dificuldades que referi, pegar numa equipa que não tinha atletas de relevo e qualificar uma equipa de cinco atletas para os Jogos Olímpicos foi uma grande vitória.

R – No entanto, houve um episódio menos positivo que apressou o regresso a Portugal...

RF – Sim, infelizmente. Foi um assalto de que eu, a minha esposa e a minha filha fomos alvo. Estávamos a sair de uma estação bancária, tinha acabado de levantar dinheiro e fui perseguido por dois assaltantes de mota, fomos abordados, apontaram armas à minha cabeça e à minha mulher, que estava grávida, e o meu filho António acabou mesmo por nascer nesse dia. Foi um episódio muito marcante, muito mau. Vi a minha vida a andar para trás, a vida do miúdo, mas acabou por nascer bem… está forte, está com saúde e isso é o que mais importa. Estou a falar disto e estou nervoso, porque andei meses e meses a ser acompanhado, porque nem conseguia andar. Mexeu comigo, mas já estou bem, fico é agitado quando falo disto. *

R – O que lhe dá mais prazer nesta profissão?

RF – A adrenalina e aquela coisa de ver o rendimento dos atletas em competição. Viver aquela tensão. É isso que me faz viver.

R – Foi duro ver Montemor-o-Velho completamente alagado?

RF – Foi uma enorme tristeza. Fiz parte do crescimento daquele centro de treino. Ainda sou do tempo em que apenas tínhamos o canal para treinar, por isso foi uma alegria quando apareceu aquele projeto. Ver aquilo daquela forma, praticamente tudo destruído... vimos o nosso sonho a ir por água abaixo. Mas, aos poucos, vai tudo voltar ao normal. 

Por Pedro Filipe Pinto
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