Teodoro Cândido: «Não estou à espera de nada. Vou à luta!»

Quatro anos depois de começar a competir ainda há muito para experimentar

• Foto: Direitos Reservados

R – Como é que avalia o desporto adaptado em Portugal?

TD – Faz-se pouco. No ténis de mesa, o campeonato nacional é composto por umas 14 provas. Sete no sul e sete no norte. Eu para ir daqui [Lisboa] a Viseu são uns 130 euros e sem ajudas. O material é todo à nossa conta. Uma cadeira de rodas para praticar basquetebol, das piores que existem, custa à volta de 4 mil euros. Isso faz com que as associações aguentem os materiais durante muito tempo. A cadeira que eu uso no basquetebol já deve ter uns 25 anos. Está presa por arames. Não é fácil. 

R – Em que é que se tem aventurado ultimamente?

TD – Tenho feito handbike, que é uma bicicleta puxada pelas mãos, algo que nunca tinha feito. Andei a treinar aqui uns tempos, no Estádio do Inatel, em Lisboa, através da Fundação Salvador, uma associação que me tem ajudado muito e que também me iniciou na vela. Há coisa de 15 dias fui à Maratona de Cascais e ganhei. Este fim de semana fui à Corrida da Árvore e também consegui ganhar. Ainda só não andei a cavalo, mas qualquer dia também lá vou [risos].

R – Que modalidade ainda lhe falta experimentar?

TD - Gostava de experimentar o hipismo, mas isso é um bocado caro. Não é para toda a gente. É uma modalidade de elite. Gosto de praticar desporto, mas não tenho condições para andar a pagar aulas e coisas do género. No ano passado fui a uma demonstração de ténis. E estava lá um tipo da Federação Portuguesa de Ténis que gostou muito do meu braço. Tenho força. Ele gostou muito de me ver jogar e começou a incentivar-me para ir. ‘Teodoro, você vá porque tem um bom braço’. Disse que não tinha cadeira mas ele disse logo que arranjava. Ao pé de mim havia um sujeito que dava aulas de ténis e eu disse que gostava de experimentar porque acho que tenho um certo jeito, ao que ele respondeu: ‘Sim amigo, são 20 euros cada aula’. Ficou logo o assunto arrumado. Nem sequer pensei mais nisso.

R – Tem grande parte da semana ocupada pelo desporto?

TD – As modalidades que eu pratico ocupam-me muito tempo. Tenho basquetebol à terça e quinta-feira. Tenho vela de competição ao sábado. À segunda, quarta e quinta levo os miúdos deficientes a passear no Naval de Cascais. Há muitos miúdos a praticar vela e eu também os ajudo quando posso. De manhã levo os meus netos ao colégio e à tarde vou buscá-los. Já não tenho muito tempo para o resto.

R – Vai passar o ‘bichinho’ do desporto aos seus netos?

TD – São duas raparigas e um rapaz. A mais velha vai começar no ténis de mesa na quinta-feira. Os mais novos andam na ginástica. Gostava que praticassem hóquei patins. É uma modalidade que eu sempre gostei muito, mas que nunca tive oportunidade de praticar porque nunca tive uns patins e quando era miúdo a vida era mais difícil.

R – Há algum familiar ou amigo a incentivá-lo para praticar desporto?

TD – Não. Isto já cá está dentro de mim, não houve ninguém que me incentivasse. É o que eu costumo dizer a alguns atletas. Há malta que fica no sofá à espera que os vão buscar a casa. A mim ninguém me foi buscar a casa. Eu saí do sofá e meti-me no treino. Também tenho carro e alguma facilidade em deslocar-me. Há muitos deficientes que não têm essa facilidade e eu compreendo isso. Mas não estou à espera de nada. Vou à luta! Eu nunca tinha feito corridas.

R – Começou a praticar já tarde. Sente que não tem muito tempo para aproveitar o desporto?

TD – É um bocado triste, não há dúvida. 

Por Rafael Godinho
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