Tóquio será a terra de todos os sonhos

Norberto Mourão vai lutar pelas medalhas. Floriano Jesus ainda treina para estar nos Jogos Paralímpicos

• Foto: Bruno Teixeira Pires

Um sonho… quase real. Nunca antes a paracanoagem portuguesa tinha tido tantos motivos para acreditar no futuro da modalidade. O ano de 2019 foi, sem qualquer dúvida, o melhor de sempre e são os resultados que atestam esta realidade. Senão vejamos: Norberto Mourão, depois de muitos anos a tentar o sucesso em caiaque, mudou de tipo de embarcação e em canoa conseguiu sagrar-se vice-campeão do Mundo, o que lhe valeu um lugar nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, em 2020.

Mas Mourão pode não viajar sozinho. Floriano Jesus ainda não garantiu o ‘bilhete mágico’, mas a possibilidade de também representar Portugal em Tóquio é grande, faltando ‘apenas’ confirmar o favoritismo na regata alemã, em maio do próximo ano. Dois exemplos de força de vontade, que no Centro de Alto Rendimento de Montemor-o-Velho lutam por alcançar muito mais do que alguma vez tinham sequer sonhado. Em comum têm o facto de terem sofrido graves acidentes de mota, mas também o olhar preso no futuro, com a consciência de que o passado lhes trouxe a força necessária para vencer.

Ivo Quendera é o selecionador nacional e um dos que melhor conhece o trabalho feito por estes dois atletas. "O ano de 2019 foi muito forte. Eu disse aos atletas que tínhamos de ir buscar vagas olímpicas, esse era o nosso objetivo, ainda que soubesse que não seria fácil", constata o treinador, minutos antes de Norberto e Floriano saírem das cadeiras de rodas e mudarem para as embarcações, onde se sentem como peixes na água.

Há muito que Norberto Mourão parece ter aceitado, sem mágoas, a sua nova condição, depois do trágico acidente de 2009. Por isso, nenhum obstáculo parece suficientemente grande perante o foco total no sucesso. "Temos ainda 9 meses pela frente, até aos Jogos Paralímpicos. O meu único pensamento é treinar muito para chegar a Tóquio na melhor forma possível e conseguir um lugar na final e depois logo se vê o que pode acontecer. Não posso prometer nada a não ser o trabalho e o empenho durante a época para chegar lá no melhor nível possível", defende o atleta, natural de Vila Real, mas que mora em Lisboa e por isso todas as semanas se desloca para Montemor-o-Velho, onde cumpre um rigoroso plano de treinos, juntamente com alguém que já considera da família: Floriano.

"Treinamos aqui de segunda a sábado, duas vezes por dia. Já fazemos parte da família um do outro. Treinamos, convivemos e desabafamos mágoas. Vamos puxando um pelo outro e é dessa forma que os resultados aparecem", sublinhou Floriano, certo de que também será em conjunto que vão viver a aventura Paralímpica, em Tóquio. "Estou na luta por uma vaga. Fiquei em 7º na Hungria, prova em que os 6 primeiros tinham acesso aos Jogos Paralímpicos. Agora, na Alemanha, há ainda mais 4 lugares. Pelas contas, um deles será para mim. É a última prova", salienta, com a certeza de que o sucesso desta ‘operação’ será também a concretização de um grande sonho. "Qualquer atleta, com deficiência ou não, tem o objetivo de estar nuns Jogos Olímpicos. É um sonho, mas neste momento também é uma meta que eu tenho", frisou.

Sacrifícios que valem a pena

A vida ensinou-lhes que é preciso lutar para dar valor às conquistas, sejam elas pequenas ou gigantes, como as que neste momento se perspetivam. Por isso, nenhum deles se esconde nos problemas que vão surgindo pelo caminho, como o facto de terem de estar longe da família ou de acumular trabalho por não poderem viver exclusivamente da paracanoagem.

"Sou medidor orçamentista, numa empresa de construção e serralharia. O meu ritual é treinar às 7h30, entrar no trabalho às 9 horas, sair às 18h00 e treinar até as 20h00, seis dias por semana. O ideal seria abdicar da profissão e dedicar-me a 100 por cento à paracanoagem. Infelizmente em Portugal isso não é possível", salienta Floriano, que ainda assim consegue organizar-se por viver em Montemor-o-Velho, o que já não acontece com Norberto Mourão. "Venho 2ª feira para Montemor e vou para Lisboa sábado, depois do treino da manhã. Só estou com a família ao fim de semana. Essa é a parte complicada", admite.

Por Ricardo Chambel
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