Yolanda Hopkins: «Até a minha mãe fez a tatuagem»

Entrevista à surfista portuguesa

• Foto: Reuters

RECORD - As bancadas estavam vazias, mas mesmo assim o que lhe passou pela cabeça ao entrar na cerimónia de abertura?

YOLANDA HOPKINS – Estava com o grupo, mesmo atrás do Nélson Évora e da Telma Monteiro, e quando estávamos a entrar, estavam muitos japoneses à volta e, do nada, aparecemos nós no ecrã gigante. Eu pensei: ‘Todo o Mundo está a ver isto!’ Fomos em fila, encostámos ali num lado e eu depois é que caí em mim. ‘A sério? Eu cheguei mesmo aqui! Atingi o que queria!’ A emoção começou a cair toda em cima de mim, ainda bem que estava de máscara, ninguém reparou. Foi uma emoção mesmo muito grande. Assim que parei e olhei à volta… ‘O que é este Mundo? O que se passa?’ As pessoas que estiveram noutros Jogos disseram-me que com o estádio cheio é uma emoção completamente diferente, mas se senti aquilo com o estádio vazio, nem seio que vai acontecer quando estiver cheio...

R - Logo vê daqui a três anos...

YH – Sinceramente, não sei se me aguento... [risos]

R - E o momento mais marcante?

YH – Quando começaram a correr para acender a chama foi incrível, mas depois de tudo isto, quando estava todo o estádio em silêncio, eles puseram aqueles drones no ar e passaram dos anéis olímpicos para o globo, isso, parecendo que não, foi muito marcante, acho que até foi o que me marcou mais. Depois também houve aquela performance em que eles recriaram os pictogramas das modalidades, foi incrível.

R - Conheceu algum atleta que nunca pensou conhecer?

YH – Eu sinto que o meu lugar é no Championship Tour, por isso sabia que ia conhecer todos aqueles surfistas quando chegasse lá, mas acabou por ser mais cedo. Tornei-me bastante amiga da Sally [Fitzgibbons] e da Stephanie [Gilmore] e nunca pensei que isso acontecesse já, já. Foi bom estar nesse ambiente e senti-me em casa. O pessoal foi muito fixe e receberam-me muito bem.

R - Notei que já tem a tatuagem aí no antebraço. Foi a primeira coisa que fez quando chegou a Portugal?

YH – Depois de El Salvador, cheguei, conduzi para o Algarve para ver a minha família, voltei e fui logo fazer. O resto da minha equipa também fez e, uma semana depois. Até a minha mãe fez a tatuagem...

R - Imagino que guarde muitas histórias de Tóquio, mas eu peço para nos contar a mais caricata ou engraçada.

YH– Há algumas que não posso contar, é sempre assim. Olha, estávamos a entrar para a área de competição e houve este grupo de voluntários japoneses que estavam com as t-shirts dos olímpicos e ficaram malucos quando me viram a mim e à Teresa [Bonvalot] com as roupas dos olímpicos. Todos queriam fotografias, assinaturas, estavam loucos connosco e com o surf. Na maneira como nós vibrávamos há uns anos, foi o que eles viveram. Pura emoção a ver surf. Levou a que ficassem malucos. Lembro-me de ir ao Japão em 2019, estava a chover torrencialmente e eles estavam ali a ver os heats. No dia a seguir estava um calor desgraçado e eles continuavam lá, não se mexiam. É mesmo amor, foi o que sentimos.

R - Qual o seu sítio para surfar?

YH – O sítio onde vivo é bem único. Não é bem a minha casa, mas gostava de ter uma aqui. O meu favorito é ali entre a praia do Malhão e os Aivados. E fora de Portugal é a Austrália.

R - Em termos da competição, acredito que chegar aos quartos-de-final seja bastante positivo, mas deve ter sido frustrante ficar de fora daquela forma...

YH – Muito, sim. Não precisava de uma grande pontuação, mas estive lá quase 15 minutos com prioridade, podia apanhar a onda que quisesse e não veio nada. O mar não contribuiu, estive ali à toa a ver se encontrava qualquer coisa, mas nada... A rapariga que me venceu foi contra a americana e ela só fez duas ondas de um ponto, por isso, se eu tivesse vencido aquele heat tinha chegado, pelo menos, à medalha de prata. Tinha quase a certeza disso!

R - Conseguiu manter a cabeça fria durante aquela espera?

YH – Se me aparecesse uma onda no final, estava pronta, não queria saber o que estava a acontecer. Ia dar tudo sem demasiada pressão, porque não tinha nada a perder.

R - Mas saiu dos Jogos com um diploma de 5.º lugar...

YH – Ainda não recebi o diploma. Está para vir e vou imprimi-lo. Mas está na minha cabeça e saber isso é incrível. Já tenho um sítio específico no meu mural para o meter. Conseguir um quinto lugar nos primeiros Jogos Olímpicos do surf..., aliás, estar nos primeiros Jogos do surf, é espetacular. Atingir o quinto lugar é outro nível. Já estou muito feliz, mas podia estar mais.

R - Para acabar, dois dilemas. O primeiro é: ganhava a medalha de ouro em Paris’24, mas tinha de terminar a carreira nesse dia. Aceitava?

YH – Não, ficava com a prata e continuava para ganhar o ouro em 2028.

R - Boa resposta, o segundo: Ganhava tudo até ao final da carreira, mas todas as suas refeição tinham de ser aquele frango seco com arroz branco insosso...

YH – Pá, existe sempre pimenta preta e mostarda para misturar, por isso acho que acabar por começar a gostar disso.

Por Pedro Filipe Pinto
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