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DOZE câmaras ligadas por dois quilómetros de cabo, um carro de exteriores e uma grua foram os meios utilizados pela equipa Media-Luso, a filial portuguesa da Media-Pro espanhola, na realização do FC Porto-E. Amadora, jogo transmitido domingo, na Sport TV, às 18 horas. A derrota do Sporting frente ao Benfica, na véspera, reacendera a luta pelo primeiro lugar no campeonato e motivara os cerca de vinte mil adeptos portistas que se deslocaram ao Estádio das Antas. O encontro despertou também especial interesse entre os adeptos do futebol, em especial do Sporting, já que uma derrota portista poderia ainda permitir a festa leonina.
Factores acrescidos também para a importância da transmissão televisiva como faz questão de salientar o director técnico da Media-Luso, Luís Silva: "A derrota do Sporting motivou os adeptos portistas. O estádio esteve mais composto, o que contribui também para o espectáculo televisivo." A operação começou a ser preparada às 9 horas da manhã com a instalação dos meios técnicos. Trinta pessoas concretizaram o plano do realizador, Juan Figueroa, o único espanhol na equipa. "Trabalho com uma equipa extraordinária. A empresa é portuguesa e quero deixar isso bem sublinhado. O único espanhol, sou eu", afirma o realizador em “portanhol”.
A manhã foi totalmente dedicada à instalação das câmaras, uma operação rápida devido à coesão da equipa, como faz questão de referir Luís Silva: "A nossa preocupação, desde que esta empresa abriu, foi formar um grupo fixo que nos desse alguma segurança. E conseguimos." A estreia foi em 98/99, com o rio Ave-Benfica.
Mafalda Campos é a responsável pela "angariação" da equipa Media-Luso. A escolha é feita de acordo com os critérios de Juan Figueroa tendo por base as características de cada jogo. "Trabalhamos juntos há quase dois anos, por isso já sei o que Figueroa espera de cada elemento. " O maior obstáculo, à semelhança do que acontece com outros operadores de televisão, são as condições dos estádios portugueses. "Antes de construírem os novos estádios, os operadores de televisão deveriam ser ouvidos. As pessoas têm de perceber que quanto maior é o espectáculo televisivo, maior é o número de adeptos nos estádios, ao contrário do que se diz por aí", observa o realizador.
A seguir ao almoço, e enquanto os operadores de câmara e Juan Figueroa testavam os meios técnicos, os adeptos portistas de cachecol e bandeira na mão chegavam às Antas. Fora do estádio ouvia-se: "Vamos ganhar o bitri." A euforia contrastava com a calma de dois funcionários do clube que, de vassoura e ancinho na mão, varriam, minuciosamente, o relvado. Perto das 16.30 horas, o estádio abriu as portas. A equipa da Media-Luso reúne-se para acertar os últimos pormenores e Mafalda Campos aproveita para distribuir as acreditações e os coletes laranjas aos operadores de câmara.
Neste jogo a empresa gastou perto de 500 contos em alimentação, alojamento e deslocação para os elementos da equipa que, na sua maioria, são todos da zona Norte. A Media-Luso está sediada no Porto, o que já obrigou o realizador espanhol a trocar o Algarve pela Cidade Invicta: "Como grande parte do nosso trabalho é na zona Norte resolvi mudar de casa. A viagem era muito cansativa", explica Juan Figueroa.
Eram perto das 17.30 horas quando Rui Orlando e Bernardino Barros, respectivamente narrador e comentador do jogo para a Sport TV, chegaram ao estádio. Vinte minutos depois, o canal codificado iniciou o directo. No carro de exteriores, a equipa estava pronta. À direita de Juan Figueroa encontrava-se a cabina de som, atrás a régie de vídeos e à esquerda a cabina de imagem. Faltavam trinta segundos e o realizador anda teve tempo para perguntar a Rui Orlando qual o resultado do Farense (clube com quem simpatiza).
Quase no início do jogo, um operador, de secador na mão, limpava o vidro da câmara, molhada pela chuva. Antes da transmissão ainda há tempo para umas piadas para relembrar a derrota do Sporting: "A estátua do Eusébio vai ser substituída por uma esfinge!" Ou: "É a maldição de faraó." Os sportinguistas respondem: “O FC Porto vai perder e ainda vamos fazer a festa!”
UM ESPANHOL APORTUGUESADO
Começa o jogo e o realizador grita: "Estamos jogando, senhores. Vamos lá!" De seguida ouve-se: "Desculpem, ainda não estava preparado!" Um operador de câmara atrasado...
Às 18.02 horas, o realizador queria repetir o ataque do FC Porto em três ângulos diferentes. Em voz bem alta, Juan Figueroa debitava as câmaras ou pelo número ou pelo nome do operador. De repente, alguém interrompe para dizer: "Olha, o guarda-redes é do Sporting!"
Dentro do campo a bola pára pelas sucessivas faltas dos jogadores. O realizador tenta camuflar estas paragens com imagens dos adeptos e dos lances mais perigosos das duas equipas e aproveita para chamar a atenção de alguns elementos que estavam menos empenhados. "É preciso dizer sempre a mesma coisa todos os jogos?”, perguntava, ao mesmo tempo que tirava o casaco. E as palavras do realizador significam que os operadores têm de captar o mais possível do jogo em directo, mostrando reacções dos jogadores, dos treinadores, do público.
A bola volta ao relvado e a jogada de Capucho merece uma chamada de atenção do realizador. "Capucho, impressionante!" O entusiasmo de Figueroa é quebrado por Jardel que, à boca da baliza, falha um golo: "Este gajo falhou este golo?! Dios Mio!"
Os portistas marcam e o realizador grita: "Tenho de repetir o golo!", enquanto cá fora se grita “Porto, Porto, Porto”.
Até ao final foi sempre assim. Juan Figueroa irrequieto a pedir as câmaras, ora sentado, ora de pé. Quando um ou outro pormenor não lhe agradava, Juan Figueroa manifestava o seu descontentamento através da linguagem, à boa maneira portuguesa. O árbitro apita para o final e o realizador também finaliza: "Muito bom trabalho. Temos campeonato!"
PERCURSO DE JUAN FIGUEROA
Para Juan Figueroa as transmissões televisivas em Portugal são iguais às que se fazem a nível europeu: "Na minha opinião não há diferenças com o que se faz cá e lá fora. A RTP e a SIC também fazem boas transmissões televisivas, principalmente, depois de nós aparecermos." Além das condições dos estádios em Espanha, “que são melhores que as dos portugueses”, o realizador espanhol refere o fosso existente entre os clubes da frente e as chamadas pequenas equipas: "Estas são as duas grandes diferenças do futebol português para o espanhol.” E depois há a sensibilidade dos dirigentes: “Têm que perceber o fenómeno que é o futebol espectáculo. Se eu mostrar a cara do Capucho, as miúdas querem vir ao estádio."
Em Espanha, Juan Figueroa trabalhava no Canal Plus. A TVI foi a primeira estação de televisão portuguesa onde trabalhou em Portugal, nomeadamente, na realização do já extinto concurso "Queridos Inimigos". Ainda fez alguns trabalhos para a SIC e depois surgiu o projecto da Media-Luso. O facto de estar casado com uma portuguesa ajudou à "troca" de residência. O realizador recorda alguns trabalhos que tem feito em Portugal. Um dos que mais o marcou foi o logótipo humano para a promoção da candidatura ao Euro-2004.
Agora o Estádio Nacional volta a ser o palco da próxima grande transmissão do realizador: dia 21, com a final da Taça de Portugal, entre Sporting e FC Porto.
ODETE MARTINS