Comentadores: Palavrosos, enfadonhos e nada corajosos

O crescimento do número de jogos transmitidos via TV fez aumentar o, até aí restrito, grupo de comentadores de futebol. A verdade é que raros concitam o respeito e a admiração do público e da critica televisiva. Ou até dos seus pares na função

COM a abertura da nova época do telefutebol um pouco por todos os canais, volta a falar-se neles na justa medida do (des)agrado que concitam as suas apreciações.

São os comentadores de futebol, quase sempre ex-jogadores famosos nos seus tempos e treinadores no desemprego. Só nesta época, a Sport TV foi buscar três novos elementos: Eurico Gomes, Toni e Fernando Gomes - deixando, em contrapartida, “cair” um dos seus “reforços” de há um ano, Oceano. Fora outros casos anteriores, como Carlos Manuel ou Manuel José, entretanto voltados ao activo da profissão.

Fala-se mesmo em disputa cerrada entre televisões ou, mesmo, em processos de (re)negociação contratual... complexa.

A verdade, porém, é que a apreciação de quase todos eles, por quem os ouve ou escreve sobre televisão, nem é a melhor. O mais conhecido dos críticos portugueses, Mário Castrim, considera-os mesmo “desnecessários”, “enfadonhos” e, muitas vezes, “razão para mudar de canal”:

"O pecado maior deles são as conversas que têm durante a transmissão, que nada têm que ver com o jogo. Como não conhecem o meio específico em que trabalham, desviam a atenção das pessoas. Muitos dos meus leitores dizem-me que têm de baixar o som do televisor para poderem seguir o jogo. Eles só distraem, não acrescentam nada."

E se a SIC prefere o modelo avulso do comentador-convidado - às vezes, até, socorrendo-se de colunáveis identificados com as duas equipas, um tanto à moda dos chamados “paineleiros” de emblema ­-, já a RTP é a estação com o grupo de comentadores mais permanente. Há anos que “fixou” três colaboradores nessa área: José Eduardo, António Fidalgo (que acumula com a TSF) e Norton de Matos. Além de ter contado, até agora à sua “requisição” para a selecção da África do Sul, com Carlos Queiroz para os comentários dos jogos de Portugal.

E como se olham eles próprios para a sua função?

José Eduardo, antigo presidente do Sindicato dos Jogadores, e que foi defesa-direito do Sporting, considera que pedra-de-toque no bom ou mau comentador é “isenção e independência”.

E, quanto a isso, declara de imediato as suas reservas: “Tenho sérias dúvidas quanto à imparcialidade da generalidade dos comentadores em Portugal."

Já Manuel Oliveira, antigo treinador e comentador da Rádio Renascença, enumera outros requisitos “indispensáveis” para o comentário do futebol: “Não chega gostar de futebol, é preciso conhecimentos não só teóricos mas também de experiência prática.” Ou por outra, é incompatível com a função o puro diletantismo de bancada. “E exige-se também frontalidade e coragem”, acrescenta o mais antigo dos comentadores de futebol, entre nós.

“Implica também algum risco, porque arrisca-se a provocar muitas inimizades. E, para o comentário ser bajulador, como é a maioria em Portugal, não vale a pena. O que se ouve na televisão, então, é uma desgraça. Uns, até têm bagagem técnico-prática, mas falta-lhes coragem para a crítica aberta, quando necessária. Outros, até podem tê-la, mas não dispõem dos mínimos conhecimentos em matéria de futebol. Dão palpites. E, claro, os únicos prejudicados são sempre os telespectadores que não aprendem nada com eles."

DIFERENÇAS DE REGISTO

Mas qual é a função específica do comentador e como se articula ela com a do locutor-narrador (no caso da televisão) ou do relator (no caso da rádio)? Miguel Gaspar, crítico de televisão do “Diário de Notícias” e apreciador de futebol, define-o assim:

“O comentador é o elemento que, pelos seus conhecimentos e/ou experiência profissional, dá o enquadramento das jogadas, salientando um pormenor técnico, analisando as substituições, prevendo-as inclusivamente, com explanações do ponto de vista da táctica de cada uma das equipas. Em contrapartida, o narrador [locutor e/ou jornalista, por regra] descreve o jogo, exigindo-se-lhe vivacidade e capacidade para seguir a jogada e não se deixar atrasar em relação ao andamento do jogo."

Só que, aqui, também entre os críticos, as apreciações não fazem a unanimidade: Mário Castrim insiste que “televisão não é rádio”. E argumenta: “Se nós estamos a ver o mesmo que o locutor, para que precisamos que ele repita o que os nossos olhos estão a ver, também?”

Pelo contrário, Miguel Gaspar prefere o “estilo mais vivo”, mais “actuante”.

Quanto aos comentadores, gostos também não se discutem... ”Pessoalmente, gosto mais dos comentadores que me dão a visão de quem já esteve dentro do jogo”, responde Miguel Gaspar. “É o caso do Mozer, da TVI. É uma pessoa que sabe pegar na sua experiência de jogador e comunicá-la bem, o que não é uma coisa óbvia. Gosto também do Norton de Matos, que faz normalmente apelo ao prazer do jogo.”

Já para Mário Castrim, apenas Carlos Queiroz se aproxima daquilo que deve ser um comentador. "Ele é o único que evita a tendência que os comentadores e os locutores têm de pôr-se à conversa durante o jogo, embora, muitas vezes, não resista também àquela lengalenga mole..."

EM FUTEBOLÊS NOS (DES)ENTENDEMOS

O abuso na linguagem estereotipada é outra marca “distintiva” do comentador ou do relator de futebol. Não que o futebol possa viver sem... o futebolês e toda a sua imagética. “Bola à flor da relva”, “no enfiamento da jogada”, ”tapete verde” ou “em busca do prejuízo” são algumas contribuições, antigas ou mais recentes, para o enriquecimento da língua portuguesa e que ficaram para sempre.

O problema é quando a criatividade pontapeia a gramática, o bom senso e o bom gosto. Até pelo efeito de imitação de uma gíria redundante e empobrecedora do próprio discurso à volta do futebol. “Posse de bola”, “ganhar a posse de bola”, “mais tempo de posse de bola” é um dos modismos mais entranhados no meio.

Já parece que nem há mais outras expressões bem mais simples, apropriadas e... melodiosas. “Ganhar a bola”, “controlar”, “dominar”, como que se varreram do léxico do comentarês... “Mais-valia” (no sentido de “fazer a diferença”) também anda muito no “in” da gíria. Assim como “postura” (dizia-se das galinhas...) e “posicionamento”.

E a mania do “recepcionar” ou “direccionar” [a bola], em vez dos comezinhos “receber” ou “dirigir”? Como também já não há “actuação”, “exibição” ou mesmo “desempenho” - mas apenas, e só, “prestação” (que, em bom português, não significa a mesma coisa, de resto)...

Outro tique muito na moda é, por tudo e por nada, a apropriação do vocábulo “assistência”. O que era, antes, “assistência” passou (só) a ser... “moldura humana”. E o que, no futebolês mais antigo, continha até várias cambiantes (“centrar” ou “passar”, por exemplo, sempre os tiveram, até na forma mais ou menos colorida da descrição...) ficou reduzido à sua mais ínfima espécie. Resultado: Drulovic já foi transformado no melhor “assistente” do futebol português!...

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