Má tradução rasteira livro «Febre no Estádio»

Erros de geografia, ortografia e desconhecimento da linguagem futebolística e da cultura inglesa marcam esta edição da Teorema. Mas continua a valer a pena ler ”Fever Pitch”, o relato autobiográfico de um fanático inglês

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NOVE anos depois de publicado, “Fever Pitch” (Febre no Estádio) chega finalmente a Portugal. Livro autobiográfico, relata a vida de um adepto do futebol (aliás, um adepto do Arsenal) e como o jogo se entranhou na sua vida, a ponto de determinar todos os restantes acontecimentos. Ou seja, é uma obra que reflecte o que se passa na cabeça de um fanático da bola, um espelho para todos aqueles que adoram o futebol até à loucura e uma espécie de “manual” para quem queira perceber os estranhos comportamentos de pessoas, por norma “racionais”, antes, durante e depois de uma partida.

A editora Teorema teve assim nas mãos uma oportunidade única de conquistar leitores, num país onde a literatura sobre o desporto-rei é praticamente inexistente – isto, apesar de os jornais desportivos serem aqueles que mais vendem. Mas, lamentavelmente, menosprezou-a. A tradução é assombrosamente má, demonstrando uma total ignorância sobre o assunto em questão, sobre o seu jargão (exemplo na pág. 9, a primeira do livro: “Vejo Limpar correr em Gillespie...”), sobre as competições, sobre a cultura inglesa.

Mas, por incrível que pareça, isso nem é o pior. O desleixo chega ao ponto de referir a presença de índios nas escolas inglesas em plenos anos 60 (pág. 30) – e não é preciso perceber de futebol para chegar à conclusão que “indians” significa “indianos”, naturais da Índia... –, ou de assinalar um confronto com os “campeões australianos” num jogo do “Campeonato Europeu” (pág. 300) – estranha noção de geografia. E isto para já não falar nos erros de ortografia, que revelam a inexistência de revisão (“Concelho do Luton”, referindo-se ao conselho de administração do clube, pág. 235).

Será que vale então a pena perder tempo a ler “Febre no Estádio”? Vale (de preferência na versão em inglês...). Nick Hornby percorre a história da modalidade desde 14 de Setembro de 1968 (dia em que viu o primeiro jogo em Highbury, um fraco Arsenal-Stoke City e se apaixonou pelo futebol “como viria, mais tarde, a apaixonar-se pelas mulheres: de súbito, inexplicavelmente, sem o menor sentido crítico”) até 1992 (pouco depois de o Benfica ir ganhar a Highbury, por 3-1...).

Jogos lendários, finais em Wembley, grandes jogadores (Eusébio é referido) e estádios (o da Luz é apontado como exemplo), rituais, hooliganismo, tragédias (Heysel, Hillsborough...), rivalidades, racismo, tatcherismo, Relatório Taylor (o qual obrigou à melhoria dos recintos), televisão, o golo de Michael Thomas em Liverpool (que colocou fim a um jejum de 18 anos...); está lá tudo, em simbiose (im)perfeita com a vida do autor, que encontrou nas bancadas do estádio dos “gunners” uma forma de preencher os seus buracos existenciais.

Entre a autocrítica e o humor, Hornby escreveu o livro perfeito para quem troca tudo por uma tarde (ou noite) no futebol. Pena é que tenha sido verdadeiramente “rasteirado” na edição portuguesa.

O autor

Nick Hornby nasceu em Londres, corria o ano de 1957. Adepto incondicional do Arsenal e licenciado pela Universidade de Cambridge, foi professor de inglês e jornalista antes de enveredar pela escrita.

“Fever Pitch” (”Febre no Estádio – Diário de um Fanático”) é a sua primeira obra e a mais pessoal, tendo estado um ano na lista dos livros mais vendidos, e foi posteriormente adaptada ao cinema.

Seguiu-se “High Fidelity” (”Alta Fidelidade”), também com passagem ao grande ecrã, e “About a Boy” (”Era uma Vez um Rapaz”), todas editadas em Portugal pela Teorema, que prevê publicar em breve o livro de contos intitulado “Speaking with the Angel” (”Conversas com o Anjo”).

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