Referendo na Catalunha com cargas policiais, acusações e até provocações futebolísticas

Catalães votam pela independência da região

• Foto: Reuters

As primeiras horas do dia do referendo independentista na Catalunha foram marcadas por cargas policiais em algumas secções de voto, acusações entre Madrid e Barcelona, vários apelos à democracia e à participação pacífica, e até por provocações futebolísticas.

Ainda antes de as urnas abrirem, às 09:00 locais (08:00 em Lisboa), já centenas de eleitores, na sua esmagadora maioria pró-independência, começaram a formar filas em frente de colégios eleitorais, ocupados desde sexta-feira para evitar o seu fecho pela polícia.

"Estou aqui para evitar que a polícia feche o colégio eleitoral e para exercer o meu direito de voto", contou à Lusa Pau Suris enquanto esperava na fila, cada vez mais compacta, em frente à escola Rainha Violant, no Bairro de Gràcia, em Barcelona, onde tinha chegado três horas antes da abertura das mesas.

Desde sexta-feira que várias escolas - hoje centros de votação - estavam ocupadas por pais, alunos, professores e residentes na Catalunha, para garantir que os locais não eram fechados pelas autoridades.

Ainda assim, os Mossos d'Esquadra (polícia catalã) fecharam dezenas de colégios eleitorais em toda a Catalunha, embora em alguns locais se tenham limitado a registar a concentração popular e saído sob aplausos da população.

Face à inação da polícia regional em alguns locais, foram chamadas a Guardia Civil e a polícia nacional de Espanha, que então protagonizaram momentos de tensão ao tentar impedir o referendo, tendo mesmo ocupado o pavilhão desportivo da escola em Girona onde deveria votar o líder da 'Generalitat', Carles Puigdemont, que acabaria por votar noutro centro de votação.

Além destas situações, houve ainda confrontos noutros locais, nomeadamente na sala de exposições de Sant Carles de la Ràpita (Terragona) e na Escola Rius i Taule (Barcelona), segundo relatos de repórteres das agências noticiosas internacionais.

O Sistema de Emergências Médicas (SEM) do governo catalão indicou que atendeu já 38 feridos na sequência da ação da Polícia Nacional e da Guardia Civil para impedir o referendo, a maioria por tonturas, ansiedade ou contusões.

Estas ocorrências deram azo a trocas de acusações entre o Governo espanhol, que está contra a realização do referendo que considera ilegal por ter sido suspenso pelo Tribunal Constitucional, e o governo catalão, que tem apelado ao voto de forma "pacífica e democrática" mas lamenta o uso "injustificado, irracional e irresponsável da violência" pelo Estado espanhol.

Para o presidente do governo catalão, Carles Puigdemont, "a imagem exterior do Estado espanhol continuou a piorar e hoje atingiu um nível de vergonha que o acompanhará para sempre".

Ainda assim, o porta-voz da presidência e do governo da Catalunha adiantou que 73% das mesas de voto estavam a funcionar, mas apelou à paciência dos eleitores até porque há registo de "ataques e bloqueios informáticos constantes" ao sistema de registo dos votos, que estão no entanto a ser resolvidos.

Do lado de Madrid, o delegado do Governo nacional na Catalunha, Enric Millo, criticou a inação da polícia catalã no sentido de impedir o referendo independentista, alegando que Madrid "viu-se obrigada a fazer o que não queria" e usar autoridades nacionais para impedir as votações.

Millo afirmou que a polícia regional "pôs em risco, de maneira irresponsável, o prestígio" das autoridades catalãs" e recordou que "os 'Mossos' tinham uma ordem policial para impedir a celebração do referendo ilegal e por isso deveriam evitar que se abrissem os denominados centros eleitorais", lamentando que não tenha sido assim e que, na maioria dos casos, "se tenham sobreposto as questões políticas às profissionais".

Esta disputa chegou também ao futebol, com a direção do Barcelona a anunciar uma reunião para decidir se há condições de segurança para a realização do jogo com o Las Palmas, da liga espanhola de futebol, convocado para esta tarde, tendo em conta que o clube catalão não tem responsabilidade na segurança do estádio em dias de jogos, que está delegada aos Mossos d'Esquadra.

Depois disto, o Las Palmas fez saber que vai usar hoje uma pequena bandeira espanhola nos equipamentos no encontro frente ao Barcelona, assumindo assim uma posição clara no dia do referendo pela independência da Catalunha.

Os opositores à independência, que os estudos de opinião indicam serem maioritários, não participaram na campanha eleitoral nem irão votar, para não darem credibilidade a uma consulta que o Estado espanhol considera ser ilegal.

O Tribunal Constitucional espanhol suspendeu no início de setembro, como medida cautelar, todas as leis regionais aprovadas pelo Parlamento e pelo Governo da Catalunha que davam cobertura legal ao referendo de autodeterminação convocado para hoje.

Os partidos separatistas têm uma maioria de deputados no parlamento regional da Catalunha desde setembro de 2015, o que lhes deu a força necessária, em 2016, para declararem que iriam organizar este ano um referendo sobre a independência, mesmo sem o acordo de Madrid.

Por Lusa
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