Rui Cartaxana - Desaparece um grande jornalista
Rui Cartaxana, que ontem faleceu, aos 79 anos, nasceu em Moçambique, mais precisamente em Lourenço Marques, hoje Maputo, a 8 de setembro de 1929. Com 5 anos, veio para Alcácer do Sal, terra natal da família, onde se instalou em casa de uma avó. Lá viveu e estudou até aos 20, altura em que regressou a Moçambique para fazer a tropa, anos antes do início da guerra colonial.
COMPANHEIRO DE MATATEU. Colocado em Báruè, onde esteve dois anos, chegou a tenente e casou-se com a filha do capitão da companhia. Entre o curso de oficiais milicianos e a recruta que passou a dar aos soldados aceitou a sugestão do pai e foi trabalhar para a administração de Manjacaze, vila moçambicana situada nos arredores de Lourenço Marques. O administrador da povoação decidiu então formar uma equipa de futebol e convidou Rui Cartaxana, cujos dotes de defesa-central eram já conhecidos. O passo seguinte foi seduzir uma estrela a despontar: Sebastião Lucas da Fonseca, que o mundo conheceria eternamente com o nome de Matateu, aceitou a proposta e saiu do 1.º de Maio, também pelo emprego que lhe foi concedido nos escritórios do município.
"DIÁRIO DE MOÇAMBIQUE". Aos 26 anos, Cartaxana foi para a cidade da Beira, onde começou por trabalhar numa empresa de moagem. Nessa altura, o "Diário de Moçambique" abriu um concurso ao qual se candidatou com um conto. Ganhou e foi convidado a trabalhar num dos mais prestigiados jornais do território. Durante sete anos assinou reportagens aclamadas e que revelavam coragem no modo de afrontar os poderes instalados. Em plena época de censura, Rui Cartaxana denunciou injustiças, criticou prepotências e nunca se deixou subjugar pelo poder repressivo do Estado Novo. Foi sempre um jornalista sem medo.
"NOTÍCIAS". Com a morte do bispo da Beira, cuja força moral intimidava os próprios censores, o "Diário de Moçambique" ficou mais vulnerável. Pouco depois, o Rui recebeu um convite do "Notícias", de Lourenço Marques, que era propriedade do antigo Banco Nacional Ultramarino, um dos mais ricos da época. Foi ganhar mais, defendeu o jornal durante sete anos, mas sempre consciente de que o "Notícias", como produto de um patrão poderoso, gerava um clima de censura interna que não lhe agradava.
REVISTA "TEMPO". Foi então que, integrado num grupo de jornalistas descontentes, avançou para um projeto editorial ambicioso, para o qual requereu a ajuda financeira de quem estava desalinhado com o poder. Dessa gente ilustre, o maior destaque vai para Almeida Santos, fundador do Partido Socialista, que esteve diretamente ligado à revista "Tempo", publicação que seria considerada a sua mais importante criação jornalística. A "Tempo" tornou-se uma voz incómoda, que punha o dedo nas diversas feridas, tornando-se referência absoluta de um posicionamento político contrário ao regime em vigor.
ADEUS MOÇAMBIQUE. Simpatizante da autodeterminação e da independência do território, Rui Cartaxana não resistiu ao agudizar da luta armada. Contava que, no fim de 1973, num passeio com a mulher e quatro filhos menores, um acontecimento marcou o futuro: no regresso a Lourenço Marques deparou com o ataque a uma coluna militar; um oficial disse-lhe para desaparecer quanto antes, ao que respondeu acelerando o mais que pôde até estar a salvo. Não teve alternativa: cedeu à pressão familiar e concordou que, em clima de permanente confronto, Moçambique não dava segurança para criar os filhos em paz. Mesmo não totalmente convencido, regressou a Portugal.
"SÉCULO" E "DIÁRIO POPULAR". Já em Lisboa, com a família junta, viveu o 25 de abril de 1974. Filiou-se então no Partido Socialista, do qual se manteve militante até aos últimos dias, vivendo com intensidade a queda do regime fascista e a transição para a democracia e a liberdade - seria chefe de redação do "Acção Socialista", órgão oficial do partido. Antes, iniciara a atividade em "O Século", que encerraria em 1978. Foi então para o também extinto "Diário Popular", no qual havia de chegar a subchefe de redação, tendo trabalhado também em "A Luta".
DIRETOR DE RECORD. A 1 de novembro de 1984 foi apresentado como diretor-adjunto de Record. O processo que o conduziu ao nosso jornal partiu da decisão do "Diário Popular", acionista maioritário da sociedade, em colocar um elemento da sua confiança na estrutura diretiva comandada por José Monteiro Poças, um dos fundadores da publicação. A coabitação não foi pacífica e, a 27 de março de 1986, Poças resignou, assumindo Cartaxana o lugar interinamente. A 15 de agosto de 1986 tornou-se diretor de Record.
PROFISSIONALIZAÇÃO. Nos 12 anos seguintes, Rui Cartaxana teve ação preponderante no crescimento do jornal, personificando decisões que levariam Record, pela 1.ª vez em 1997, à liderança da imprensa desportiva portuguesa. A primeira foi a profissionalização dos quadros. Numa altura em que a esmagadora maioria dos jornalistas tinha outra atividade, Rui Cartaxana incentivou a fidelização à causa com a assinatura de contratos de exclusividade. Foi um passo decisivo para fortalecer o jornal como grande potência do mercado e abordar os desafios que se avizinhavam.
REPRIVATIZAÇÃO E DIÁRIO. Outro dos processos que liderou foi o fim da ligação de Record ao "Diário Popular", entre as décadas de 80 e 90, quando o sócio maioritário, que dependia diretamente do Estado, aceitou vender a quota que detinha. Depois de avanços e recuos, o jornal acabou por ser reprivatizado, o que permitiu maior autonomia decisória. Tendo Joe Berardo como patrão, respondeu diretamente à administração de Diogo da Silva e, coadjuvado em termos editoriais pelo chefe de redação João Marcelino, encontrou o cenário ideal para dar um cunho pessoal à liderança: apostou em jovens saídos da faculdade, acentuou a independência da linha editorial (sustentada num estilo contundente e por vezes truculento) e ainda dirigiu a caminhada que havia de conduzir à passagem a diário, em março de 1995.
COR E ONLINE. Na segunda metade da década de 90, continuou a comandar Record em todos os desafios colocados pelo mercado e pela evolução tecnológica. Foi sob a sua direção que o jornal deu o indispensável passo para a cor e se estruturou para responder às exigências do online. A 31 de dezembro de 1998, deixou o cargo de diretor mantendo, porém, ligação ao jornal e à empresa. Passou então a colunista de Record, do "Correio da Manhã" e da revista "Sábado". A 17 de janeiro de 2004 assumiu o cargo de Provedor de Leitores do nosso jornal, substituindo Ruy Seabra.
Rui Cartaxana foi distinguido com vários troféus, entre os quais, por duas vezes, o Grande Prémio Urbano Carrasco. Em 1985, recebeu o Prémio Gazeta, de Reportagem, atribuído pelo Clube de Jornalistas e considerada a mais importante distinção do género em Portugal.