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Foi a jogar futebol na rua, que um olheiro do Benfica o 'descobriu' e o convidou a fazer uns treinos na formação encarnada. "Tinha sete ou oito anos" , aceitou e depois passou nove épocas de águia ao peito com "treinadores que hoje estão no futebol muito bem cotados". Um percurso que começou nos pupilos do Exército, mas teve a honra de estar na inauguração do Benfica Campus, onde treinou ainda durante três anos. A passagem pelo centro de formação dos encarnados termina por decisão da mãe.
"Na altura, na transição para júnior, o Benfica começou a treinar de manhã. E eu ia todos os dias de barco, demorava sempre 45 minutos a chegar ao Benfica Campos. E o Benfica pediu para eu ir morar para a academia, para o Seixal, e ingressar na escola que eles tinham lá na margem sul. E a minha mãe disse que era completamente impossível, que eu estava na escola em Lisboa e que era impossível treinar de manhã e sair da escola. Ela sempre decidiu que até aos 18 anos eu teria de fazer a escolaridade obrigatória e depois era o meu caminho", conta o agora empresário, que na altura teve de dar um novo rumo à carreira: "Na altura o Benfica disse que, sendo assim, se não consegues treinar nos juniores, só temos uma maneira. Eu tinha contrato na altura, vamos emprestar-te. E fui um ano emprestado na altura para o Estrela Amadora. O Benfica não queria, eu também não queria, mas a decisão era da minha mãe, eu era menor de idade e a minha mãe decidiu que eu tinha que terminar a escolaridade obrigatória e não era na Arrentela, que era a escola que o Benfica utilizava".
Um passo que ainda hoje deixa Diogo Coelho a pensar: Que carreira poderia ter tido, se não deixasse os encarnados. "Custou-me a entender, ninguém sabe se a minha carreira podia ter sido diferente, para pior ou para melhor, nunca se sabe. Mas na altura custou, mas aceitei. Tive uma conversa com o Benfica, disseram-me que eu ia ser emprestado. Tive um ano emprestado e depois o meu contrato acabou e não se renovou o contrato", lamenta.
E admite que a transição não foi fácil. Passou de um clube onde "tinha tudo" e passou para "uma realidade totalmente diferente", um fator que lhe levou a perder um pouco o foco. Mas nem tudo foi mau. "Acabou por ter algumas coisas positivas, porque nesse ano, no Estrela, joguei bastante. E foi a minha primeira convocatória à seleção nacional, foi quando eu estava no Estrela Amadora. Fui à seleção Sub-19", recorda o antigo lateral, que também foi chamado à Seleção Sub-21, por Rui Jorge, mas nunca se chegou a estrear.
Depois do emblema da Reboleira, seguiram-se vários emblemas do futebol português, nomeadamente, o Sp. Braga, mas Diogo Coelho nunca conseguiu chegar a estrear-se no primeiro escalão. Algo que, admite, lamenta e que o levou a perceber que o melhor seria focar-se em projetos que lhe pudessem dar algum conforto financeiro.
"Tenho alguma frustração, pois estive em contextos como o Sp. Braga, onde treinava na equipa A e cheguei a ser convocado, mas acabei por não jogar. Também no União da Madeira, que subimos à 1ª Liga, e eu até acabei por fazer a pré-época lá, mas depois não tive a oportunidade também para jogar a 1ª Liga. Tive alguma frustração. Estava há 6 anos seguidos na 2ª Liga e fartei-me. Não tinha a oportunidade, fartei-me, e surgiu a oportunidade de ir para uma 1ª Liga no estrangeiro e aceitei. Era o que eu queria, jogar uma 1ª Liga e aceitei ir para o estrangeiro, para a Islândia", relata, dando conta que não foi um processo tranquilo: "A seleção da Islândia tinha acabado de sair daquele grande Europeu (2016, chega aos quartos-de-final) e toda a gente metia os olhos para a Islândia e eu pensava o que é que eu vou fazer para a Islândia. Mas o contrato era muito bom e eu ia ser o primeiro português a jogar na primeira liga de lá. Então falei com a família na altura e com o meu agente, também, e acabei por aceitar. E não me arrependo completamente de nada. Adorei estar lá".
Nessa altura, admite, já lhe interessava mais a vertente financeira da carreira. Passou ainda pela Arménia, numa época que apelida de "caótica", até que se muda para a Lituânia, onde teve a oportunidade de se estrear nas provas europeias. "Fui para a Lituânia para jogar a Liga Conferência, no Suduva. Na altura era um treinador português, o Miguel Moreira, que estava lá. Ele já me conhecia de Portugal, dos meus tempos de Portugal e fez-me o convite se eu queria jogar a Liga Conferência. Também era um salário muito bom e eu não pensei duas vezes. Foi outra vez a parte financeira, mas também voltou a parte desportiva, que era jogar as competições europeias", apontou.
Um percurso com muitos desafios, onde partilhou balneários com muitos jogadores e alguns deles grandes craques. Sobretudo, logo na formação do Benfica, onde treinou muitas vezes com Bernardo Silva. E sobre o agora jogador do Real Madrid lamenta que a altura tenha sido um entrave para que se pudesse afirmar mais cedo de águia ao peito.
"Na formação, já era diferenciado, mas há um problema. Em Portugal ligam muito para a altura dos jogadores. E se não és um jogador alto, na formação eles metem um bocado de lado. Mas o Bernardo Silva notava-se que tinha uma qualidade incrível. O problema sempre foi a altura, ser franzino, daí não jogar tanto na formação e não ser uma aposta no Benfica", apontou, dando conta que também a ele próprio lhe chegaram a dizer que por ser baixo, poderia ter muitas dificuldades em vingar.
Diogo Coelho, que era agenciado pela Gestifute, teve a estreia no futebol profissional ao serviço do Ribeirão e foi aí que privou com Éderson, guardião que passou pelo Benfica, Manchester City e agora atua nos turcos do Fenerbahçe. Aliás, naquela época, em 2011/12, partilharam a mesma casa. Mas, sobre este tema, Diogo Coelho prefere não se abrir muito. "Ele era um animal, um guarda-redes incrível. Foi o primeiro ano que eu joguei com ele. Eu tinha 19 anos, ele era mais novo e eu disse logo, 'este miúdo vai chegar lá acima'. Ele tinha qualidades incríveis que eu não tinha visto em nenhum guarda-redes. Foi por isso que ele saiu do Ribeirão e foi logo para o Rio Ave. Ele tinha tudo", destaca, antes de falar de como era viver com ele: "Ele era jovem, então tinha muita maluquice. Muita maluquice naquele corpo. Depois assentou, mas na altura era uma maluquice tremenda".
Além destes, jogou com Ivan Cavaleiro, Tiago Silva, no Sp. Braga treinou com Rúben Micael, Alan, Custódio e nas seleções jovens com Sérgio Oliveira, William Carvalho, Rafa, entre outros. Cada um seguiu o seu caminho. O de Diogo Coelho, fora dos relvados, está agora a ser trilhado no mundo do agenciamento, a ajudar quem ainda está dentro de campo.
Por Valter Marques