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R – Quando é que teve a certeza que ia fazer carreira como futebolista profissional?
EF – Quando vim da China tive a certeza que era aquilo que queria. Mesmo tendo depois jogado mais alguns anos em Portugal, tive a certeza que era o meu futuro. Não foi uma obsessão, mas fui trabalhando para conquistar coisas e mantive-me na Seleção Nacional, onde estou há 14 anos e sou a capitão de equipa.
R – Já tem ideia de quando vai deixar de jogar?
EF – Vou jogar enquanto me sentir em condições. Já começo a ver aquela luzinha ao fundo do túnel. Quero sair em grande e, por isso, vou até onde a minha forma física me permitir. Sinto-me bem para a idade que tenho, mas já tenho muitos jogos nas pernas. Tenho em mente jogar mais 2 ou 3 anos, mas depende de muitas coisas, entre as quais continuar a não ter lesões. A Carla Couto em 37 anos e continua a jogar.
R – Sempre jogou futebol?
EF – Eu nasci a jogar futebol. Jogava sempre num campo perto de casa da minha avó. Depois joguei futebol de 5 e futebol de salão, num torneio que era o inter-freguesias. A sério só comecei aos 17 anos. Uns tios levaram-me ao Boavista, um clube que me marcou muito. A partir daí foi sempre a somar. Na altura em que comecei não conhecia ninguém e tinha de jogar com os rapazes. Era a maria-rapaz. Até ao Boavista foi difícil chegar. Hoje são outros tempos. Há equipas por todo o lado e muitas raparigas interessadas em jogar.
R – Duvidaram do seu valor no Boavista?
EF – Apareci lá um dia para treinar, mas como era um treino físico, disseram-me para voltar no dia seguinte. Acabei por participar nesse treino e voltei no dia a seguir, que era treino de conjunto. Joguei na equipa B, contra as titulares, perdemos 4-2 e marquei os dois golos. Assinei logo.
R – Já pensou no que vai fazer quando deixar de jogar?
EF – Só penso no meu futuro próximo, mas essa é outra luz que começo a ver lá ao fundo. Gostava de ficar ligada ao futebol. Tenho o curso de treinadora de 1.º nível, mas tenciono fazer em breve o 2.º e o 3.º. Mas o que gostava mesmo era de ser empresária de jogadores, agente FIFA. Além disso, gostava de acabar o 12.º ano. Não me arrependo de ter desistido na altura em que tive de optar, mas vou sempre a tempo. Gostava que o futuro passasse pelo futebol.
R – Como tem visto o trabalho da Seleção Nacional anos? Nota-se uma evolução?
EF – Sim, tem evoluído bastante desde que a Mónica Jorge lá chegou, e com as jogadoras que estão fora do país. Já conseguimos alguns feitos, pela qualidade e pela competitividade que temos nos campeonatos onde jogamos. Esta época, por exemplo, não perdemos nenhum jogo. Fizemos 12 pontos na qualificação para o Mundial, e não fomos mais longe porque tínhamos lá seleções como a Finlândia ou a Itália. Já se joga bem, as pessoas já vêem os jogos e já tentar saber quando é que jogamos.
R – A que se deve este evidente atraso no futebol feminino português em relação a outros países da Europa? Já para não comparar com o futebol masculino...
EF – Deve-se a uma série de situações. Anos de paragem, falta de apoios e patrocínios. E não falo apenas na Seleção. A Federação até tem apoiado, mas quando os clubes não têm apoios, fica complicado. Consegue-se muito com o esforço e o sacrifício das jogadoras e de quem gosta da modalidade. Por isso é que há muita gente a querer ir para fora.
R – O facto dos principais clubes do país não apostaram no futebol feminino ajuda a explicar esta falta de visibilidade e este atraso?
EF – Claro que tudo seria diferente com o FC Porto, o Benfica ou o Sporting. A comunicação social daria muito maior atenção, a visibilidade seria melhor e a modalidade teria muito a ganhar. É um dos grandes fatores que levam a que não haja desenvolvimento.