Futebol já não ordena

O povo ainda é quem mais ordena, mas, em cada rosto, nunca houve igualdade, no que respeita ao futebol. Grândola, a vila morena de Zeca Afonso, viveu a sua revolução no desporto-rei a 14 de Junho de 1989, altura em que se fundiram os dois clubes rivais, o Sport Clube Grandolense, fundado a 8 de Dezembro de 1922, e o Clube Desportivo e Artístico Grandolense (28 de Outubro 1958), juntamente com o Clube de Ténis, embora este só tivesse secção de hóquei em patins. A Câmara Municipal assim o quis, a velha rivalidade foi oprimida.

Com o desaparecimento do Sport e do Desportivo, o futebol grandolense entrou na era da fraternidade sob a forma do Clube Recreativo Grandolense, e essa calma aparente foi afastando do estádio, aos poucos, as gentes da cidade, habituadas a ver nas cores dos clubes extintos um incentivo para a discussão saudável. Afinal, trata-se de um povo que, mesmo sendo sereno por natureza, manteve uma relação de ódio figadal com o regime fascista pré-25 de Abril e esteve constantemente debaixo do olho da PIDE como poucos outros.

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"Dois anos após a fusão, o Recreativo subiu à III Divisão nacional. Nessa altura, os antigos adeptos do Sport e do Desportivo identificaram-se com o sucesso da nova equipa e apoiaram-na. Depois, seguiu-se um passivo de 25 mil contos e uma caminhada no deserto até à queda na II Divisão Distrital, onde nos encontramos agora. As pessoas já não acompanharam o clube, esqueceram-no. Passámos de 950 sócios para os 450 actuais e destes só 20 ou 30 vão ao estádio", afirma o presidente da Comissão Administrativa, António Gomes, 47 anos, que se prepara para passar o testemunho, após oito anos a trabalhar na recuperação financeira.

O futebol já não ordena numa pequena terra incapaz de formar uma equipa completa de nativos. É preciso recrutar jovens de Setúbal ou Santiago do Cacém e convencê-los a jogarem a troco de subsídios de 125 a 250 euros. Encontrar figuras locais que tenham vingado no futebol nacional ao mais alto nível é complicado, mas os nomes de Ezequiel Baptista e Dinis Vital, ambos internacionais uma vez na Selecção A, destacam-se. António Gomes, que foi presidente-treinador durante três anos, lembra que já teve Aparício e Sobrinho na equipa e agradece à Câmara Municipal e ao comércio local o apoio dispensado na luta para diminuir o passivo a zero.

Flaviano é o massagista do Recreativo. O pequeno espaço onde trabalha foi transformado em museu. Os jogadores podem aliviar as dores musculares e ao mesmo tempo observar rostos, histórias e equipamentos do passado. Lá estão o primeiro carro do Desportivo, um Dodge com portas de madeira, um mural com cartões de federados (podem encontrar-se pais, filhos e netos), um recorte de jornal com a histórica vitória (4-2) do Desportivo sobre as reservas do Sporting, a 12 de Abril de 1964, e a equipa de 1974, segurando os cravos da revolução. Os tempos mudam, mesmo na pacata e fraterna Grândola alentejana.

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A rivalidade extinta

Em 1989 as camisolas vermelho e branca do Sport e azul e branca do Desportivo desapareceram para nascer o azul-grená do Recreativo. Para trás ficaram 31 anos de acérrima rivalidade, quer no pelado quer na política, já que o Sport, apesar do vermelho, era conhecido pelos dirigentes endinheirados e capitalistas. Pelo contrário, o Desportivo viu muitos dos seus líderes passarem tempo nos calabouços da PIDE, dadas as suas conotações com o clandestino Partido Comunista.

Manuel Gameiro, 78 anos, sócio nº 64, faz parte do futebol grandolense há 60, tendo jogado uma época no Sport e 14 no Desportivo. Manteve-se sempre ligado aos clubes da terra, como contínuo, engraxador de botas, porteiro, cobrador de cotas, lavador de roupa e tudo o mais que fosse necessário.

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Lembra-se bem do 25 de Abril de 1974. "Nas ruas, cantava-se a "Grândola, Vila Morena", proibida até então. A PIDE fugiu logo." Para o seu Desportivo, veio em boa hora a revolução, já que, desde 1968, estava nas "mãos de direita" da "A Alentejana", sociedade de compra e venda de propriedades, cujos dirigentes passavam letras uns aos outros para ficarem credores da colectividade. Com as amnistias no pós-25 de Abril, as dívidas foram perdoadas e o património voltou às mãos do clube.

"Foram tempos de forte associativismo. Os jogadores tinham de pagar 25 escudos por jogo, para um bolo comum, e ninguém podia ganhar dinheiro. Mas durou pouco essa ideia".

Hóquei em patins partiu do Ténis

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O Clube Ténis é o terceiro englobado na fusão de 1989. De ténis pouco teve, mas ganhou relevância local com o hóquei em patins, introduzido Carlos Alberto e José Flávio, praticantes da modalidade chegados de Moçambique no pós-25 de Abril. Sport e Desportivo queriam a secção de hóquei, mas como não quiseram chatear ninguém, Carlos e José começaram a ensinar miúdos no CT, em 1982, e em 1984 já estavam federados. A equipa sénior existe há três anos.

Zeca era amigo da "música velha"

Zeca Afonso gostava de visitar Grândola. Apreciava as gentes, com quem discutia política clandestina. Era frequentador assíduo da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, dita "Música Velha", onde actuou em 1964 e supostamente se inspirou para compor "Grândola Vila Morena".

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Muitas pessoas ainda se recordam de o ver a consultar a biblioteca da Sociedade e a devorar os livros sobre música. O Sport Clube Grandolense formou mais tarde a sua própria banda filarmónica, que ficou conhecida por "Música Nova", por oposição à mais antiga.

GRÂNDOLA VILA MORENA

Grândola, vila morena

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Terra da fraternidade

O povo é quem mais ordena

Dentro de ti, ó cidade

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O povo é quem mais ordena

Terra da fraternidade

Grândola, vila morena

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Em cada esquina um amigo

Em cada rosto igualdade

Grândola, vila morena

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Terra da fraternidade

Grândola, vila morena

Em cada rosto igualdade

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O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira

Que já não sabia a idade

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Jurei ter por companheira

Grândola a tua vontade

Jurei ter por companheira

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À sombra duma azinheira

Que já não sabia a idade

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