Decorria o último minuto do Campomaiorense-FC Porto da época 1995/96. Os alentejanos protestaram uma falta sobre o guarda-redes Álvaro; Cunha Antunes, o árbitro bracarense do embate, não assinalou e concedeu pontapé de canto favorável aos azuis e brancos. Jorge Couto executou-o para a grande área, a defesa alentejana aliviou mal, surgindo Edmilson a rematar para o golo. Os dados estavam lançados para aquela que ficaria conhecida como a Batalha de Campo Maior, composta por agressões mútuas e cujo resultado mais significativo foi o castigo aplicado a Vítor Baía.
Em vésperas do Campeonato da Europa (o jogo foi a 8 de março de 1996), e perante a moldura penal que o enquadrava (de três meses a um ano), pairou a eventualidade do guarda-redes da Geração de Ouro e uma das figuras mais preponderantes do seu tempo falhar a presença no grande palco – três dias bastaram para se esclarecer que a suspensão não teria outros efeitos sobre a Seleção para lá de obrigar o guarda-redes a dois meses de inatividade em vésperas da grande competição.
A Comissão Disciplinar do Organismo Autónomo foi rápida a decidir. Aplicando o artigo 49.º do Regulamento Disciplinar que prevê a diminuição especial da pena, “quando existam circunstâncias anteriores, contemporâneas ou posteriores à infração que diminuam por forma acentuada a ilicitude do facto ou a culpa do agente”, optou por dois meses, sustentando a decisão nos serviços relevantes prestados por Baía ao futebol português. O monstro das balizas nacionais ficava assim a salvo de qualquer impedimento: estaria no Europeu e ainda marcaria presença na final da Taça de Portugal, caso o FC Porto lá chegasse – o que acabou por não suceder, uma vez que os dragões sucumbiram perante o Sporting na meia-final, com empate nas Antas e derrota em Alvalade.
Morcela detonou
A confusão e a violência que se seguiram ao final do jogo tiveram muitos intervenientes, mas a história acabou por se reduzir a poucos protagonistas. Se Vítor Baía foi o epicentro do terramoto, Pedro Morcela abriu as hostilidades da batalha: o primeiro contacto físico observado nas imagens televisivas é a estalada do presidente adjunto dos alentejanos ao guarda-redes azul e branco. Seguiram-se, então, vários episódios que envolveram, acima de todos, Augusto Inácio, Emerson, Paulinho Santos e Manuel Santos (massagista do Campomaiorense). Foi um ato deste último que detonou os confrontos quando, junto ao seu banco, arremessou uma garrafa de água na direção de Secretário – durante o jogo, como explicou posteriormente Domingos Gomes, médico azul e branco, este já tinha atirado água para cima de Aloísio.
O papel de Inácio
Foi então que Vítor Baía e Emerson correram ao longo da linha lateral na direção do banco alentejano, onde a confusão se instalara. Morcela deu uma estalada a Baía, este respondeu com valente murro, tudo nas barbas do assistente de Cunha Antunes. Emerson, que vinha atrás, dirigiu-se ao dirigente raiano, valendo a intervenção de Nuno Afonso que impediu males maiores. Mais tarde, já a caminho dos balneários, mas com os ânimos ainda muito agitados, foi a vez de Augusto Inácio furar a escolta policial e agredir Morcela com um soco, ao que este respondeu com um pontapé.
O então adjunto de Bobby Robson deu a sua versão dos factos no dia seguinte: “O senhor Morcela dirigiu insultos a toda a gente. Parecia o Rambo de Campo Maior, a querer bater em todos, quebrando a acalmia que, aos poucos, se ia instalando.” Inácio reconheceu que se descontrolou, mas referiu que a sua intenção foi a de “tentar interromper as graves provocações” do dirigente campomaiorense, ao mesmo tempo que deitou mais uma acha para a fogueira: “As imagens televisivas não mostraram, por exemplo, o estalo que o jogador Sousa deu a Vítor Baía.”
Imagens SIC
As imagens de que Augusto Inácio falava foram transmitidas pela SIC, relativas a um jogo transmitido em direto pela RTP. A estação de Carnaxide conseguiu o exclusivo com o recurso a uma produtora espanhola que, segundo Jorge Schnitzer, à época responsável pelo desporto do canal, o vendeu “a peso de ouro”. Em plena época de “Os donos da bola”, a SIC publicitou em larga escala um programa, no qual juntaria João Nabeiro, presidente do Campomaiorense; Pedro Morcela, presidente adjunto; Manuel Santos, massagista alentejano; Pinto da Costa e Augusto Inácio. Se os representantes portistas declinaram, desde logo, o convite, os alentejanos começaram por aceder à proposta, mas acabaram por recusá-la também. Limitaram-se a gravar depoimentos sobre o sucedido, inviabilizando o projeto de juntar toda a gente em estúdio.
Decisão rápida
Entre os acontecimentos e a decisão disciplinar aplicada a Vítor Baía – ele e Morcela foram os únicos a ser expulsos pelo árbitro – mediaram sete dias apenas. No primeiro treino dos azuis e brancos a seguir aos confrontos, Vítor Baía apareceu com a pálpebra do olho esquerdo inchada, sinal de que não saiu incólume da refrega. De resto, a mediatização do caso manteve-o na ordem do dia. Três dias depois já quase toda a gente envolvida tinha prestado depoimentos, à exceção de Baía e de Cunha Antunes, o árbitro criticado pelo erro no jogo e pela passividade com que abordou os confrontos que se lhe seguiram.
A primeira medida da CD do OA, após reunião na terça-feira seguinte ao encontro, foi a de suspender preventivamente o jogador, ao abrigo do Artigo 201.º do Regulamento Disciplinar. A 15 de março foi tornada pública a pena a aplicar: dois meses de suspensão, com regresso marcado para a última jornada do campeonato, com o Belenenses. Houve então quem questionasse (tal como o fez Gaspar Ramos, dirigente benfiquista) a perfeição do tempo de afastamento. É que os dois meses permitiram ao monstro das balizas nacionais voltar aos relvados para jogar a última ronda do campeonato e estar presente na final da Taça de Portugal, para a qual o FCPorto não se apurou.
DA SUSPENSÃO AO REGRESSO
8 de março Agride Pedro Morcela e é expulso, no fim do jogo com o Campomaiorense (25.ª jornada), pelo árbitro Cunha Antunes
15 de março A Comissão Disciplinar do Organismo Autónomo aplica-lhe a pena de dois meses de suspensão
22 de março É convocado por António Oliveira para o jogo com a Grécia, preparando o Euro’96
27 de março Joga na vitória de Portugal sobre os gregos (1-0), no Restelo
12 de maio Regressa à baliza portista na vitória sobre o Belenenses (1-0), referente à 34.ª e última jornada do campeonato
REAÇÕES À SUSPENSÃO
Pinto da Costa
Esperava que as atenuantes viessem a ter maior peso na decisão final. São coisas que acontecem, mas a carreira do Vítor Baía tem sido exemplar. Se a pena foi esta é porque entenderam que se enquadrava nos regulamentos. Não discuto isso. Só lamento que um atleta do seu calibre tenha sido punido com dois meses.
Bobby Robson
O castigo é muito mau para Vítor Baía. É oficial, por isso devemos aceitar a decisão. Foi a Liga que a tomou. O futuro dele continua a ser fantástico. Claro que esta suspensão não o ajuda com vista ao Campeonato da Europa, porque precisa de jogar. Gostava de resolver o problema, mas está para lá das minhas capacidades.
Pedro Santana Lopes
Revoltei-me contra a campanha a favor de Vítor Baía, porque nunca tal se tinha verificado. Não fico contente com a sentença aplicada, porque admiro o jogador. Apenas quis alertar os responsáveis para não terem dois pesos e duas medidas. Quanto ao castigo, foi cumprido o regulamento, e era isso que se pedia.
Gaspar Ramos
Não conheço a fundamentação da decisão, mas porque não dois meses e meio em vez de dois? Em que artigo se baseiam para a aplicação desta pena? Quais as atenuantes? Há, no entanto, uma certa coincidência entre o termo da pena e o final do campeonato, o que permite ao Vítor Baía jogar a final da Taça se o FC Porto para ela se qualificar.
Pedro Morcela
Quando fomos ouvidos pela comissão disciplinar, eu e o Vítor Baía soubemos respeitar-nos, independentemente do que aconteceu. Quanto à suspensão de dois meses que lhe foi aplicada, lamento-a muito, pois sempre foi um jogador por quem tive consideração.