Duarte Gomes: «Saí por uma quebra de confiança institucional profundíssima»

Duarte Gomes em conferência

Duarte Gomes abordou de forma mais aprofundada a sua saída do cargo de diretor técnico nacional de arbitragem, formalizada no dia 26 de junho. Em declarações ao podcast Hora Bolas, da autoria de Gonçalo Ventura, na RTP e Antena 1, o antigo árbitro assumiu que deixou o projeto mais cedo do que era suposto, mas garante ter sido uma decisão tomada em consciência. 

"Um ano é manifestamente pouco tempo, sobretudo quando o projeto era idealizado para 12 anos. As contas foram sempre feitas a 12 anos e o primeiro era quase o ano zero. O momento de mudança vai acontecer em breve, pelo menos espero que sim, porque a arbitragem continua bem entregue, pelo menos em termos técnicos. Neste caso concreto estou a falar de João Ferreira, uma pessoa competentíssima e com muitos anos de arbitragem", começou por dizer, explicando depois o que o levou a sair, sem nunca citar o nome de Luciano Gonçalves, com quem terá tido graves divergências. 

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"Saí por uma quebra de confiança institucional profundíssima. Eu não sou polícia de investigação, eu não tenho essa presunção, eu não tenho mecanismos nem competências para fazer esse tipo de diligências. Eu sei aquilo que me moveu. Eu ouvi um conjunto de situações que com comprovação factual e probatória, eu fiz um conjunto de diligências no sentido de ficar tranquilo e esclarecido em relação às coisas que aconteceram, que eu considerei de grande gravidade institucional, sem qualificar institucional. Depois desse conjunto de diligências, não só não recuperei a tranquilidade, como aprofundei as minhas dúvidas e receios. E perante isso, tomei a decisão de sair com provas, com elementos probatórios que para mim foram mais do que suficientes, de ilegalidades, de condutas com as quais eu não me revejo e se são ilegais, podem ser que a justiça que tem essa competência assim o prove", apontou Duarte Gomes, completando: "Tem a ver com aquilo que nós qualificamos como grave. Para mim foi grave sobre um ponto de vista que é absolutamente estrutural, que é a dos princípios. E, portanto, eu respondo pelos meus princípios, como cada um responderá pelos seus. Aceito perfeitamente que os limites de consciência de cada pessoa estejam fixados, onde cada pessoa entenda fixá-los. Os meus são os meus e sobre eles sei eu. E, portanto, sempre fui uma pessoa razoável, atenção, conciliadora, consensual e política. Não gosto de extremismos, não gosto de falta de moderação e também não gosto de atitudes quichotianas, portanto, demasiado românticas e demasiado baseadas em valores. E, portanto, vivemos num mundo em que não há santos, em que as coisas têm flexibilidade, cedência, jogos políticos e depois há um ponto em que se ultrapassa tudo isso e se entra numa esfera que colide com aquela que é a nossa. E nós temos duas formas de estar nesse momento. Olhamos para o lado, fazemos de conta que não vimos porque não fizemos nada ou recusamos ser cúmplices de situações que não concordamos. Eu escolhi a segunda e durmo muitíssimo bem com isso."

O antigo árbitro internacional confirmou que foi "ouvido na justiça desportiva" e deu a entender que também foi ouvido pela Polícia Judiciária, daí ter optado por não abrir muito o jogo sobre o processo que está a decorrer. "Há momentos na vida em que não é de todo incapacidade em ser frontal, é respeitar os tempos próprios das instituições. E este é o momento de respeitar o silêncio, porque é um processo que está em curso e em que se pede alguma reserva. O que aconteceu foi que há um ponto em que não nos revemos com um conjunto de práticas, ideias, projetos e formas de estar. Quando esgotamos ao máximo a tentativa de reverter a situação, então temos um caminho, o caminho da saída, e foi tomado em consciência", assumiu Duarte Gomes, admitindo que nos próximos tempos uma tempestade se possa abater sobre a arbitragem em Portugal. 

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"Se vier uma tempestade e se era uma tempestade inevitável que vai evitar muitas confusões para o futuro, que venha já. Agora, que seja justa, que não faça juízos em hasta pública de pessoas que são inocentes de algumas de algumas situações, que não faça processos de difamação sobre pessoas que também têm família e nome para defender. A minha saída em termos institucionais foi baseada em quebra de confiança, em intranquilidade e em falta de respostas face às preocupações institucionais que me foram levantadas. É tão simples quanto isto", acrescentou, dando como exemplo uma outra tempestade, que no seu entender, ajudou a clarificar as coisas no futebol português. 

"Sabe qual foi a melhor coisa que aconteceu no futebol português até hoje? O Apito Dourado. O Apito Dourado ter desmascarado, ainda que a prova não fosse feita ou não fosse aceite, como mais tarde viríamos a perceber, que não foi aceite, desmascarou pessoas, condutas, comportamentos. Nós todos ouvimos e vimos. Quem quiser recordar que que que vá ao YouTube e faça uma pesquisa com os nomes que quiser, até de pessoas que mais tarde vieram a ser dirigentes de grandes instituições. E é só pôr o nome, a escuta e ouve-se tudo. Deixe-me usar esta expressão feia, um esgoto a céu aberto, mas permitiu filtrar o trigo do joio. E, portanto, naquele momento, nós percebemos quem é que tinha um conjunto de condutas no mínimo muito pouco éticas e muitas vezes ilícitas", completou Duarte Gomes. 

Duarte Gomes: «Saí por uma quebra de confiança institucional profundíssima»
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Por José Miguel Machado
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