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O árbitro João Pinheiro destacou esta quinta-feira o clássico mais desafiante que teve de apitar na carreira. Durante uma entrevista à RTP, o juiz português relembrou o encontro entre FC Porto e Sporting, a contar para a 22.ª jornada da 1.ª Liga, em 2022, encontro esse que acabou com seis expulsões.
"Tive um FC Porto-Sporting que acabou com 6 expulsões no final, que foi provavelmente o jogo mais difícil que tive na minha carreira até hoje. Foi extremamente exigente. Foi para o campeonato, envolvido com alguma polémica. O antes, o durante e o após foi sempre muito exigente. Esse jogo está sempre na minha memória, porque foi um jogo com tantas incidências, que foi extremamente exigente", recordou João Pinheiro, que partilhou também a experiência de apitar jogos desta dimensão.
"Quando há um jogo grande, um clássico, a minha mulher já sabe que só podemos sair antes do jogo, depois já não podemos. Se o jogo correr bem ok, se houver um lance polémico, não há outra forma porque vou estar a colocar em risco a mim e à minha família. Não estou para isso. Eu vivo numa cidade [Famalicão] que adora futebol, mas as pessoas vão me conhecendo e vão me respeitando imenso e têm tido esse cuidado comigo. Há algum tempo que não tenho tido esses problemas, mas já tive situações complicadas. Mas no dia a seguir a estes jogos vou sempre aos mesmos sítios, as pessoas já me conhecem. A minha maior preocupação são os meus filhos. A minha estratégia é se o jogo tiver alguma coisa polémica, os dois/três dias seguintes resguardá-los um bocadinho, depois surge outro jogo e outro lance polémico", afirmou.
Apesar de não concordar com a abordagem, o juiz reconhece que para exercer a função, é preciso saber lidar com os insultos: "Tem que se viver com isso, porque se não vivermos, não temos grande solução. Nós entramos no campo e é raríssimo o estádio que não nos insulta, ainda não fizemos nada e já estamos a ser insultados. Acho que é um problema da sociedade. As pessoas vão para o campo, às vezes um bocadinho para aliviar do dia a dia. Eu digo isto naturalmente, mas com um bocadinho de tristeza, porque é chato. Às vezes quando estamos no aquecimento e estão 50 mil pessoas não percebemos metade do que nos dizem, mas quando estamos mais perto, conseguimos perceber e às vezes é bastante desagradável. É algo que é dito ao árbitro como se fosse banal. Há pessoas que não sabem estar de outra forma. Enquanto não se fizer nada contrário, faz parte."
Contudo, o internacional português mostra-se disponível e aberto a reconhecer os seus erros, revelando que gosta de rever os lances ao intervalo e após os jogos para apanhar possíveis falhas na arbitragem. "Gosto muito de ver os meus jogos ao intervalo, ver se fiz asneira ou não. Lido bem com isso e percebo se falhar um lance, tomar uma boa ou má decisão. Tenho sempre dois/três amigos, que são antigos árbitros, que veem os meus jogos e dão-me uma opinião sincera, porque é importante. A nível internacional, posso dizer que tenho membros do Conselho de Arbitragem que, ao intervalo e no fim do jogo, mandam os clipes dos jogos, das situações e sei onde estive bem e mal. Gosto de fazer esta gestão porque acho que é fundamental esta capacidade que temos de falar com os jogadores. Humaniza bastante a relação e acho que ajuda muito depois no desenvolvimento e na gestão do jogo. Acho que o árbitro também tem de ter a capacidade de assumir que errou ou que acertou e depois as pessoas aceitam ou não", admitiu.
Em relação à introdução do VAR, que não foi bem vista por todos os adeptos de futebol, João Pinheiro acredita ser uma mais-valia e que devia ter sido introduzida de outra forma: "Acho que é melhor com VAR. Nós tivemos uma fase complicada, em que deixamos muito para o VAR e estava a começar a desvirtuar qual era o papel do árbitro. Agora estamos muito melhor, somos os astros do jogo e o VAR funciona como uma espécie de paraquedas para se acontecer algum erro, ajudar. A questão do fora de jogo para mim era incrível como é que os assistentes tomavam decisões de centímetros e acho que o VAR veio ajudar. Acho que no início usou-se e abusou-se e agora, até a nível internacional, as coisas estão muito mais claras. O árbitro está em jogo para decidir como se não houvesse vídeo-árbitro. Se acontecer algum erro, ele está lá para ajudar.”
Com a larga experiência, deixou ainda claro que não acredita que a arbitragem afeta a decisão do título: "Acho difícil o campeão ser um clube que não merece. Chegamos ao fim e uns foram beneficiados, outros foram prejudicados e fica ela por ela. Não acredito que nós tenhamos impacto nisso, é uma questão das pessoas serem corretas e sinceras a ver as coisas. O importante é olharmos para as coisas de maneira coerente."