José Fontelas Gomes, presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, fez esta quinta-feira na TVI24 um balanço positivo da arbitragem portuguesa na época que cessou, admitindo porém que é necessária mais tranquilidade no que diz respeito ao VAR. O dirigente abordou ainda outros assuntos, como o facto de os árbitros assumirem ou não os erros após os jogos.

Saldo de 2017/18

"O saldo que tenho de fazer da época passada é positivo. Houve muitas coisas a melhorar, tanto no campo como na ferramenta VAR. Não temos dúvidas disso, mas foi um saldo positivo para uma época de teste. Foi o ano zero, uma época preparada em que houve muito pouco tempo na introdução desta ferramenta. Foram muitas horas de treino intensas para que começássemos o projecto a tempo do campeonato. Mas foi positiva a utilização desta ferramenta e basta ver o que foram as 76 intervenções de VAR que foram decisões em que os árbitros do campo não estiveram tão bem e foram revertidas."

Diferença de estatuto nos árbitros?

"Não se reflectiu até porque o sistema de avaliação fez com que isso não fosse a prática. Os nossos dois principais nomes na arbitragem, Artur Soares Dias e Jorge Sousa, não foram VAR tantas vezes quanto isso. Artur por uma razão de estar muito tempo fora em vários seminários e preparação para o Mundial. Utilizámos mais os outros árbitros. O que tivemos como experiência e é dito pelo grupo é que os mais velhos não mandavam nos mais novos. Dentro do grupo foi evidente que assim não era. O que procuraram foi sempre procurar a decisão mais correta para ser aplicada em cada jogo. Nem em todos os jogos conseguimos tomar as melhores decisões ou acertar todas, mas continuará a ser assim enquanto houver futebol. Em Itália ou na Alemanha também foi assim."

Assumir erros é o próximo passo?

"Nunca falámos porque nunca foi objecto dessa análise. Também fizemos algumas más decisões. Vamos dando informação conforme o ruído que se vai fazendo. A FIFA lançou áudios, mas nós fomos os primeiros e fomos criticados por isso. Na FIFA não vi isso. Conforme o projecto vai correndo, vamos lançando mais ou menos informação. O que queremos ser e fazer é ser o mais transparente possível. Com a informação que vamos dando que não seja prejudicial ao nosso grupo. Queremos ser o mais transparente possível neste projecto e na nossa gestão na arbitragem.  Assumir erros não pode ser ainda um passo. Fizemos essa experiência com a divulgação de áudios e não foi a melhor estratégia. Querendo ser transparentes na comunicação entre os árbitros, virou-se essa informação interna que quisemos partilhar contra aquilo que é o nosso grupo. Não vamos caminhar nesse sentido."

Carreira de VAR

"O objetivo é um misto como a FIFA fez no Mundial. Desde o início deste projecto dissemos que iria haver uma carreira especializada de VAR. Fruto do que foi o projecto e de a FIFA ter dado o cunha de que o VAR passava a ser oficial, decidimos nesta época ter quatro elementos só a ser VAR. A maioria dos jogos será deles. Alguns também vão ter árbitros de campo para não perderem a prática e continuarem a manusear a ferramenta para o futuro. A tendência é que cada vez mais haver árbitros especializados em VAR a ter esta função. "

Antigos árbitros como VAR

"Já está em vigor. O quadro criado já é com alguns árbitros que estavam no campo e deixaram de estar. Para trás? Isso não vai acontecer. Bruno Paixão era árbitro, teve experiência de ferramenta e o futuro será assim. Só quem teve experiência de ferramenta poderá ser especialista de VAR."

Avaliação dos árbitros

"Continuamos a avaliar os árbitros como avaliávamos desde que entrámos. O árbitro é avaliado por observador no campo, recebe o seu relatório, pode contestar durante a semana. Além do relatório do observador, o próprio árbitro pode reclamar a nota. É importante as pessoas perceberem que apesar de não haver classificação pública, os árbitros continuam a ser avaliados. Há toda uma avaliação. O que foi feito até para protecção e por um querer dos árbitros é que preferimos fundamentar as nossa decisões e mantivemos o nosso sistema de avaliação, mas os árbitros queriam ter uma calmia naquilo que era a sua semana. Quando os árbitros recebiam a nota do observador, o que pensavam era no seu número. O que quisemos fazer para acalmar a semana foi não ter a nota numérica, mas uma qualitativa, que por trás tem nota quantitativa que internamente sabemos. Um suficiente está dentro de uma escala de 8,0 a 8,4 e podem contestá-la. Isto foi para dar tranquilidade aos nossos árbitros. Eles assinaram uma declaração em como não queriam que a classificação fosse pública no final da época. Evita alguma pressão, mas há descidas e promoções, claro."

Recursos

"Não há um poder discricional. Todas as avaliações foram tidas em conta e no final da época, os elementos que iam ser despromovidos foram chamados, foram apresentadas as notas, as avaliações. Dois recorreram. Um árbitro e um assistente e desceram nove. Na época passada, com nota, houve sete reclamações. Isto depende de como queremos ver as coisas. Para nós, CA, é uma prova de confiança que têm no CA. É um conforto para os árbitros."

Ameaça de greve

"A arbitragem é um sector que está sempre na crista da onda, sempre sob fogo. Há momentos numa época em que já não se aceita tudo. O que menos querem é parar um campeonato e jamais vão querer isso. É uma ferramenta que a podem utilizar quando as coisas não correm tão bem e não estão no melhor caminho. Muitas das vezes nem é para defesa deles, é para defesa do futebol. Ruído à volta do futebol, utilizando a arbitragem, não é o melhor."

Ruído do VAR

"O VAR ajudou a ter algum ruído. Apesar de ajudar numa ou outra área que é de tomar decisões corretas, ajudou a que houvesse algum ruído à volta. Nós todos, incluindo eu, andámos a falar de mais do VAR. Não interessa a culpa de quem, mas precisamos de ter alguma tranquilidade nesse sentido."

Regresso das classificações públicas

"Estamos à procura do melhor modelo de avaliação. Ainda não está decidido. Há sempre essa possibilidade. Os árbitros têm conhecimento da classificação, dos seus números."

Autor: Pedro Gonçalo Pinto