João Pinheiro e o Mundial: «Sonho superou as minhas expectativas»

Árbitro diz que Messi lhe deu tanto trabalho como outros e ambiciona Europeu'2028

Seguir Autor:

João Pinheiro durante o Argentina-Suíça, do Mundial'2026
João Pinheiro durante o Argentina-Suíça, do Mundial'2026 • Foto: AP
Adicione como fonte preferencial no Google

Da Supertaça Europeia ao Mundial: a época de João Pinheiro foi intensa e deixou memórias inesquecíveis. Depois de apitar três jogos nos Estados Unidos (Suíça-Bósnia, Canadá-África do Sul e Argentina-Suíça), o juiz de Braga continua a sonhar alto e já aponta para o Europeu'2028.

"Sinceramente, o sonho superou as minhas expetativas. Esperava uma competição exigente, algo extraordinário, mas o Campeonato do Mundo é algo que nos deixa sem palavras. Só mesmo vivendo a competição percebemos a magnitude do mesmo. Percebi que o sonho se estava a realizar no primeiro jogo, o Bósnia-Suíça, que foi o mais difícil que tive na competição. Aquela entrada em campo custou um bocadinho, o apito inicial também, mas a partir do momento que o jogo começou consegui desfrutar", recordou João Pinheiro, de 38 anos, em entrevista concedida esta segunda-feira ao 'Canal 11', assinalando o que mais o surpreendeu. "O espírito corporativista que tivemos ao longo do Mundial, entre 52 árbitros de diferentes países e diferentes culturas. Estivemos lá todos juntos um mês e meio, conseguimos conviver, aprendemos uns com os outros e com espírito de equipa muito grande, apesar de ser uma competição entre nós, pois todos querem fazer a final. Uma experiência que não vou esquecer."

Todos os dias de manhã, às 9 horas, estávamos no centro de treinos de Miami para treinar, aproveitando o máximo de fresco pois o calor foi sempre muito
João Pinheiro

Em entrevista ao 'Canal 11'

Recordando um dia-a-dia sempre "muito intenso", o árbitro revelou: "Todos os dias de manhã, às 9 horas, estávamos no centro de treinos de Miami para treinar, aproveitando o máximo de fresco pois o calor foi sempre muito. Às 11 horas fazíamos uma sessão formativa, às vezes à tarde também. Com o começo da competição, o principal foco era ver os jogos e no dia a seguir tínhamos o briefing dos mesmos. Tive jogos em Los Angeles, outro em Atlanta e outro em Kansas. Para Los Angeles, tendo em conta a diferença horária, ia dois dias antes, o que provocava alguns distúrbios a nível de... sono. Sabíamos 3 dias antes a nomeação e fazíamos a viagem dois dias antes", disse, pormenorizando. "Na preparação tínhamos também um treinador que falava dos aspetos táticos das equipas, algo muito interessante e fundamental para os árbitros nos dias de hoje. Não vi os 104 jogos, mas faltou pouco. Vi a esmagadora maioria!"

Pinheiro falou ainda da gestão de emoções. "Primeiro é receber a primeira nomeação, pois ver os colegas a receberem e nós não... começa a ser difícil aguentar essa ansiedade. Depois, há um trabalho com pessoas que nos ajudam, as tais pessoas 'invisíveis', como dois psicólogos e preparadores físicos. Os dois psicólogos ajudaram-me a ser o mais tranquilo possível, o que é muito difícil numa estreia no Mundial, com algumas ferramentas úteis para gerir as emoções."

Três jogos exigentes

Dos três jogos que apitou, não houve um mais especial que os outros. "Claro que fazer um jogo dos quartos-de-final de um Campeonato do Mundo é algo difícil de conquistar e claramente tem algum impacto na minha carreira e nunca me irei esquecer. Mas foram três jogos exigentes, com situações complicadas de gerir. Não foram jogos fáceis, mas saí satisfeito", adiantou, recordando o episódio da expulsão (segundo amarelo) de Embolo no Argentina-Suíça. "Este Mundial teve várias novidades, uma delas a contagem de segundos para lançamentos, que veio trazer mais rapidez ao jogo, e esse 'erro de identidade', que foi o caso. Na altura, a perceção que tivemos era que o jogador da Argentina (Paredes) tinha feito falta para cartão amarelo. Entretanto, o videoárbitro diz que não, que o jogador adversário simulou, eu vou analisar a situação e confirmo. Aconteceu ser o segundo amarelo, mas se fosse o primeiro a decisão era a mesma. Por isso, estas alterações que a FIFA introduziu ajudam a que haja um melhor jogo e acho que teve um excelente impacto em nós, árbitros, na verdade do jogo. Foram alterações muito, muito positivas."

Messi como os outros

E Léo Messi deu-lhe trabalho nesse jogo? João Pinheiro respondeu assim: "Deu Messi e deram outros jogadores. São situações que acontecem com os jogadores. O futebol tem destas conversas, os capitães das equipas normalmente falam mais um bocado e as novas regras permitem-no. O que se passou com o Messi passou-se com outros jogadores. Claro que, por ser a figura do Messi, se calhar fez com que fosse mais vista, mas é algo que acontece naturalmente no futebol. Há uma relação normal entre nós, jogadores e árbitros, às vezes há diferentes opiniões sobre várias situações, mas nada que seja fora do normal." O árbitro considera que estes momentos não são diferentes do que acontece noutras provas. "Acontece no Mundial, Liga dos Campeões, Liga portuguesa, 2.ª Liga, na Liga 3... Claro que, sendo o Messi ou o Cristiano Ronaldo, são situações vistas de maneira diferente, mas perfeitamente normais, até saudáveis. Não temos de exibir cartões amarelos por tudo e por nada. A gente falando entende-se."

Ombrear com os melhores

Numa prova curta, a prestação no primeiro jogo foi decisiva. "Se chegarmos a um Campeonato do Mundo e não fizermos um bom primeiro jogo, fica difícil ter um segundo. A verdade é que o primeiro jogo correu muito bem, o segundo também foi muito elogiado e tivemos a sorte de apitar o terceiro. Acabámos por ficar na lista para a final e o 3.º e 4.º lugar", lembrou. João Pinheiro elogiou ainda os seus árbitros assistentes, que estiveram "muito bem", mostrou-se "muito orgulhoso" e destacou: "No nosso primeiro Mundial, atingimos coisas que não imaginávamos. Conseguimos demonstrar que podíamos ombrear com os melhores do mundo. Um momento importante para a arbitragem portuguesa e quero frisar que tivemos apoio de toda a gente. A preparação foi muito boa, chegámos a Miami muito bem preparados e o apoio do Conselho de Arbitragem da FPF foi importante para isso."

Doze anos depois de Pedro Proença, o agora presidente da FPF mereceu de Pinheiro muitos elogios. "O presidente, que foi melhor árbitro português de sempre e uma referência a todos os níveis, esteve sempre connosco do primeiro ao último minuto, acompanhou o nosso Mundial e esteve sempre preocupado em saber se as coisas estavam a correr bem. Um acompanhamento igual ao que Luciano (Gonçalves) nos fez ao longo deste campeonato, onde conseguiu ver um jogo nosso."

Os objetivos  para o futuro são claros: "Temos tanto para conquistar, ainda somos tão novos! Quem é competitivo quer sempre mais. Há um Europeu daqui a dois anos e queremos muito estar presentes, mas para isso temos de manter o nível. Não é por termos ido a uns 'quartos' do Mundial e termos tido uma época extraordinária que vamos pensar de outra maneira. Se agora pensarmos que somos os melhores, a queda poderá ser mais fácil...", concluiu.

Deixe o seu comentário

Últimas Notícias

Notícias
Newsletters RecordReceba gratuitamente no seu email a Newsletter Geral ver exemplo
Ultimas de Arbitragem
Notícias
Notícias Mais Vistas