Sílvia Domingos: «Tão bem ou melhor do que os homens»

No Dia Internacional da Mulher, pede igualdade de direitos entre os árbitros

Em casa de Sílvia Domingos sempre se falou, viveu e discutiu futebol. Com um curso na área do desporto, a jovem sentiu que lhe faltava qualquer coisa. Aos 16 anos teve a oportunidade de tirar um curso de arbitragem, e descobriu que era a ser juíza dentro das quatro linhas que atingia a felicidade plena. A família acreditou que poderia ser uma coisa passageira, mas cedo perceberam que tirarem a arbitragem e o futebol a Sílvia seria como tirar as asas a uma andorinha. No entanto, há algo que não lhe permite voar mais alto: "Gostava muito, mas não consigo viver só da arbitragem, tenho de ter outro trabalho."

Hoje, com 35 anos, é árbitra no campeonato feminino e já esteve na final do Europeu de sub-19, mas quer mais. "O meu sonho é ser árbitra profissional e apitar jogos da Liga NOS", confessa. Um desejo que esbarra na regulamentação: as mulheres só podem dirigir encontros do futebol masculino no Campeonato de Portugal e na Taça de Portugal. Mesmo assim, Sílvia acredita que a mudança pode estar para breve: "É preciso alterar as normas e as mentalidades. Quando comecei, uma mulher a arbitrar era qualquer coisa impossível. Hoje em dia, já é mais aceite e os infantis, juvenis e juniores respeitam-nos." Acima de tudo, Sílvia defende a igualdade de géneros na arbitragem. "Sinto-me muito orgulhosa de ser mulher e poder exercer a mesma profissão que um homem com a mesma qualidade, ou até superior", estendendo o elogio às colegas da área. É por isso que pretende atingir a Elite da UEFA, apesar das diferenças monetárias existentes: os homens deste escalão recebem cerca de 5 mil euros por encontro europeu enquanto as mulheres auferem apenas 900. "Não é o dinheiro que me move. Seja infantis ou Liga dos Campeões, eu arbitro com a mesma paixão", garante.

Indiferente a insultos

Sílvia Domingos mantém a ambição e diz o que pensa mesmo quando ouve o que não gosta. "Aprende-se a filtrar os insultos com a experiência. E, como eu costumo dizer, é como se colocasse uns tampões nos ouvidos cada vez que se entra em campo para não se ouvir essas coisas. Os insultos surgem não por ser mulher mas por ser árbitra. Uma vez, num jogo entre Farense e Esperança de Lagos, em infantis, chamaram-me de tudo menos de mãe e santa", conta, bem-disposta.

Fã que acabou por tornar-se perseguidor

"Um momento muito marcante na minha carreira aconteceu num jogo no Algarve. Já estava alinhada para dar início à partida quando, de repente, vejo um rapaz a entrar em campo com um grande ramo de rosas para mo entregar. Fiquei completamente sem reação, não sabia o que fazer. Ele disse-me que era meu fã e eu pensei: ‘Tudo bem, é bom ter um fã’", começa por contar.

A história, no entanto, não ficou por aí. "Mais tarde, noutro jogo, o mesmo rapaz veio-me entregar outro ramo de rosas. Achei engraçado até perceber que o rapaz começou a esperar-me à porta do trabalho. Descobri que tínhamos um amigo em comum na arbitragem e, sem querer, esse meu colega disse-lhe onde eu trabalhava. O rapaz chegou ao ponto de esperar horas e horas por mim. O caso ficou tão grave que eu tive que bater o pé e dizer: ‘Ou acabas com isto ou vou ter de colocar a polícia ao barulho’", remata.

Pulso partido  e o médico benfiquista

"Um célebre dia em que estava a arbitrar um jogo e assinalei pontapé de baliza. Enquanto recuava de costas, devo ter tropeçado e caí. Parti o pulso. Interromperam o jogo e o massagista, quando se aproximou de mim, até pensou que eu estava a ter problemas de coração. Para o jogo continuar e eu poder ir para o hospital, tínhamos de encontrar alguém para completar a equipa de arbitragem", Nesse momento, Sílvia chegou a ponderar continuar em campo, mas o massagista disse que era impossível.

"Acabou por ser um adepto do clube visitante, que por acaso já tinha sido árbitro, a fazer de assistente. Eu lá entrei na ambulância e fui para o hospital ainda com o equipamento vestido. Perguntaram-me qual era a minha equipa e eu disse ‘não, sou mesmo árbitra’. O médico que me viu perguntou-me ‘Não apita o Benfica, pois não?’ Respondi-lhe que não e ele disse-me ‘Ah pronto, então ainda bem", recorda a sorrir. 

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