Tempo útil de jogo caiu até dois minutos após introdução do VAR na Liga Betclic
Estudo da NOVA IMS divulgado este sábado
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O tempo útil de jogo na Liga Betclic diminuiu até dois minutos após a introdução do videoárbitro (VAR), fixando-se em 46 minutos e 19 segundos nas épocas 2017/18 e 2018/19, segundo um estudo divulgado este sábado.
A introdução do videoárbitro na 1.ª Liga reduziu o tempo útil de jogo até dois minutos por partida e manteve-se inalterada nas épocas seguintes, conclui o estudo da NOVA IMS.
A investigação, desenvolvida por Luís Filipe Santos no âmbito do Mestrado em Data Science and Advanced Analytics da NOVA IMS e orientada pelo professor Bruno Damásio, analisou 1.616 partidas das Liga Betclic e da 2.ª Liga disputadas entre as épocas 2015/2016 e 2018/2019.
O estudo analisa o impacto da introdução do VAR na 1.ª Liga, comparando as duas últimas épocas antes da implementação da tecnologia (2015/16 e 2016/17) com as duas primeiras épocas em que esta passou a ser utilizada (2017/18 e 2018/19).
Bruno Damásio nota que, embora um minuto seja "imperpercetível para quem está na bancada", o acumulado de "10 horas por época, numa indústria que vende exatamente futebol jogado, tem um impacto grande"
De acordo com o trabalho académico defendido em outubro de 2025, a percentagem de tempo efetivo de jogo no principal escalão passou de 52,77% (47 minutos e 30 segundos) para 51,46% (46 minutos e 19 segundos) após a implementação da tecnologia na época 2017/2018.
A redução estimada situou-se entre um e dois minutos por partida - 1,13 e 2,17 pontos percentuais -, enquanto a II Liga - utilizada como grupo de controlo por só ter adotado o VAR em 2023/2024 - manteve valores estáveis.
Para isolar o efeito do VAR de outros fatores que alteram o ritmo dos encontros, a equipa recorreu à metodologia econométrica Difference-in-Differences, inspirada nos trabalhos do Prémio Nobel da Economia David Card.
"O que nós fizemos foi reconstruir uma Primeira Liga, digamos, fictícia, que é a Primeira Liga na ausência de vídeoárbitro. Tendo essa Primeira Liga com o vídeoárbitro e tendo esse contrafactual, conseguimos calcular essa diferença de forma credível", explicou à Lusa o professor e investigador Bruno Damásio.
A análise incidiu sobre 1.060 jogos da Liga Betclic (516 antes e 544 após a chegada do VAR) e conclui que a redução do tempo efetivo de jogo surge imediatamente após a introdução do videoárbitro e se mantém ao longo dos períodos seguintes analisados, sugerindo um efeito persistente da tecnologia na fluidez das partidas.
O tempo efetivo de jogo devia ser o indicador oficial de alguma competição, divulgado jornada por jornada, equipa por equipa. Neste momento discute-se isto em Portugal quase sem números, à base de impressões
"Dentro da janela que analisámos não parece ter havido qualquer habituação. Seria de esperar que este choque no primeiro ano se diluísse, mas não foi o que aconteceu. De facto, o efeito aparece logo na primeira meia época com o VAR e mantém-se inalterado", realçou Bruno Damásio.
Questionado sobre a dimensão do impacto no campeonato, o investigador salientou que a perda de um a dois minutos por jogo ganha relevância quando projetada para a totalidade da prova.
"Cada equipa faz 34 jogos. Um ou dois minutos por jogo dá entre meia hora e uma hora de bola perdida ao longo de uma temporada. Um jogo tem cerca de 45 minutos de bola viva, assim cada equipa perde entre três quartos de um jogo e um jogo e meio. Um clube que joga 34 jogos, no fundo, joga 33", defendeu Bruno Damásio, notando que, embora um minuto seja "imperpercetível para quem está na bancada", o acumulado de "10 horas por época, numa indústria que vende exatamente futebol jogado, tem um impacto grande".
Sobre eventuais caminhos para mitigar este impacto, Bruno Damásio defendeu, à margem das conclusões do estudo, a necessidade de transparência nos dados e de uma avaliação contínua sobre o impacto das regras.
"O tempo efetivo de jogo devia ser o indicador oficial de alguma competição, divulgado jornada por jornada, equipa por equipa. Neste momento discute-se isto em Portugal quase sem números, à base de impressões", defendeu, lembrando o princípio de que "o que não se mede, não se gere".
O docente apontou também como relevante a intervenção sobre a frequência das paragens, dando como exemplo os testes autorizados pela International Football Association Board (IFAB) no futebol inglês - como prazos estritos para reposições em jogo ou regras temporárias de menorização numérica durante a assistência a guarda-redes.
O investigador sugeriu também a distinção entre decisões puramente objetivas e as que exigem interpretação.
"Metemos dentro do mesmo sistema de decisão dois tipos que nada têm a ver um com o outro. Há decisões que são factuais e binárias - a bola entrou ou não, fora de jogo -, onde a resposta é verdadeira e verificável. Para estas, eu creio que o VAR é uma ferramenta errada. Não é preciso parar o jogo, chamar o árbitro ao monitor e esperar um minuto. Isso resolve-se com sensores, em segundos. Noutras decisões, de juízo - se foi penálti ou não -, a tecnologia não resolve da mesma forma", concluiu.
O videoárbitro (VAR) é a tecnologia de apoio à equipa de arbitragem destinada a rever lances através de imagens de vídeo para corrigir erros claros e manifestos ou omissões graves.
De acordo com o protocolo definido pela IFAB, a intervenção do VAR está limitada a quatro situações decisivas do jogo: validação de golos, assinalação de pontapés de penálti, exibição de cartões vermelhos diretos e erros na identificação de jogadores.