Adeus a Artur Correia: o comando ruço da direita recuada

Perfil de um jogador que fica para a história do futebol português

O estilo era empolgante, vigoroso e emotivo; parecia impulsionado por um fôlego sobrenatural que o levava a correr, acima e abaixo pelo flanco, durante hora e meia, sempre com a mesma intensidade; era contundente sobre os adversários mas tinha sentido posicional e tempo de entrada aos lances. Artur foi o comando ruço da direita recuada das equipas que representou mas foi, também, um futebolista da cabeça aos pés. Mesmo quando exagerava nos ímpetos e parecia desviar-se da estrada, falava mais alto a alma de jogador inteiro para retomar o caminho mais adequado. Artur era um defesa indomável perante os extremos contrários. Não só os travava como era capaz de obrigá-los a correr atrás dele para evitarem desequilíbrios no lado oposto do campo. Protagonista de uma história iniciada em miúdo como ponta-de-lança temível, combateu até poder o recuo que foi obrigado a fazer; mas, quando percebeu que o futuro passava pela parte de trás do palco, resignou-se e assumiu o desígnio de dignificar uma função nem sempre respeitada. Pelo que representa para o futebol português, será sempre reconhecido como Ruço e fará parte da família a que, afinal, sempre soube pertencer: a dos verdadeiros jogadores de futebol.

Benfica
Foi Guilherme Espírito Santo, então dirigente benfiquista, e Ângelo Martins, responsável técnico do departamento de futebol juvenil, que promoveram e concluíram a transferência do Futebol Benfica para a Luz. Em 1967/68 foi campeão nacional de juniores, ao lado de Humberto Coelho, Vítor Martins e Nené. O desejo de tirar o curso de medicina levou-o até Coimbra. Representou a Académica em três épocas (a primeira nas reservas), ao fim das quais percebeu que tinha de optar entre estudos e futebol. Escolheu a bola e, em 1971, regressou ao Benfica, clube do qual é sócio desde um ano de idade e onde permaneceu até 1977.

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Sporting
Em 1976/77 foi vítima de uma pleurisia, que o afastou dos relvados durante meses. Estava em fim de contrato e iniciou fragilizado as negociações para a renovação. O processo foi longo, com propostas e contrapropostas sucessivas – começou a duvidar se o clube queria mantê-lo no plantel. Farto de esperar estabeleceu o dia 10 de junho como data limite para ouvir a última palavra do Benfica. Não recebeu resposta. Nessa data estava em digressão pela Europa e, no dia 11, jogou em Paris com o Sporting, travando duelo espectacular com Salif Keita. Sentiu-se desobrigado de mais conversas com os encarnados e, com o coração destroçado, aceitou a proposta do presidente João Rocha para representar o Sporting.

Acidente
Em Alvalade foi um profissional intocável, prolongando o estatuto de defesa-direito da Seleção na década de 70 – titular absoluto na Minicopa em 1972, prolongou a carreira na equipa nacional até 1979. Nessa altura acumulou a presença no Sporting com alguns meses a jogar nos Estados Unidos, ao serviço dos New England Tea Men. A 24 de setembro de 1980 sofreu um acidente cardiovascular que o levou para os cuidados intensivos do hospital da Cruz Vermelha. Travou dura batalha pela vida e, ao cabo de várias semanas de luta, ficou livre de perigo. O clube americano responsabilizou- se pelas despesas e ofereceu uma das melhores clínicas americanas para recuperar. A 3 de junho de 1981 foi alvo de homenagem nacional, culminada com um jogo entre Sporting e Benfica, na qual recebeu o calor de quem jamais o esquecerá: os adeptos do futebol.

Há pouco mais de um ano, foi-lhe amputada a perna esquerda. Partiu hoje, na sequência de um AVC que o deixou em coma na última semana.

Por Rui Dias
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