CIF: a riqueza do amadorismo

CLUBE COMEMORA CENTENÁRIO

No colóquio realizado há dias para assinalar a passagem do centenário do Club Internacional de Foot-ball, o escritor Manuel Sérgio encontrou a justa definição para quem está de parabéns. "O CIF é um contrapoder ao poder das taras dominantes." A frase arrebatou palmas à assistência e a partir daqui os dados estavam lançados para todos melhor compreenderem uma questão de filosofia ou de cultura, que é necessariamente diferente em relação a outros clubes.

De facto, o CIF, fundado a 8 de Dezembro de 1902, arrasta consigo um história rica em todos os detalhes ligados ao desporto português. Foi através do CIF que, directa ou indirectamente, nasceram as raízes para a criação de várias modalidades e foi com o CIF que o desporto português viveu horas de glória até meados dos anos 20, até, precisamente, se dar o corte com o profissionalismo.

Mesmo antes da criação do CIF, a família Pinto Basto – que mais tarde estaria ligada ao nascimento do clube – teve uma enorme preponderância no desenvolvimento do futebol em Portugal. Foram os irmãos Pinto Basto que mandaram vir de Inglaterra uma série de bolas de futebol, que seriam distribuídas por diversas unidades militares. Isto aconteceu pouco tempo depois de terem deixado de estudar em Inglaterra no S. George College, nos finais do século XIX e, segundo vários relatos da época, parece confirmar-se ter sido Eduardo Pinto Basto o portador da primeira bola de futebol, em 1888.

O gosto pelo futebol rapidamente ganhou força e mobilizou vontades e começaram a nascer clubes. O primeiro grupo português de futebol foi fundado em 1892 e denominou-se Club Lisbonense, que viria a estar nas raízes do CIF, tal como outras colectividades como o Grupo Estrela o "Grupo dos Pinto Basto" e o "Foot-Ball Club Swits". O objectivo desta aliança era terminar com o reinado do Carcavelos Club, de origem inglesa e que dominava as competições de futebol. E assim nasceu o Club Internacional de Foot-Ball. O nome "Internacional" foi posto para por termo à diversidade de nacionalidades dos primeiros componentes da Direcção. E a verdade é que a aceitação foi geral, até porque a sigla era pequena, sugestiva e simples de fixar "CIF".

Outros desportos

A seguir ao futebol vieram outros desportos e o atletismo esteve na primeira linha tal como a esgrima. Daqui resultou que o CIF levou uma boa representação nos Jogos Olímpicos de Estocolmo (1912). Durante anos, o clube criado pela família Pinto Basto teve vários campeões e recordistas nacionais no atletismo, situação que durou até ao corte com o profissionalismo em 1924. E outras modalidades que seriam criadas sensivelmente ao mesmo tempo ou mais tarde também tiveram proeminência no clube, como o basquetebol, voleibol, badminton, râguebi e o ténis.

A história do CIF também é acompanhada por várias mudanças de casa e até chegar às actuais instalações no Restelo, o clube passou por Campo de Ourique, Laranjeiras e Campo Grande.

Hoje, o CIF é um clube que tem a sua história, o seu espaço no desporto português e é talvez um clube "incómodo" pela riqueza do seu amadorismo, proporcionando aos seus 5500 sócios uma oferta que agrada e cativa qualquer um com os seus 6,6 hectares espalhados por um enorme espaço de lazer verdejante, onde se situam 19 campos de ténis (quatro dos quais cobertos), um campo de futebol com piso de relva sintética.

É por todas estas razões que o presidente do CIF, Ernesto Teixeira, gosta de fazer valer as diferenças para o desporto profissional e em respeito ao passado afirma que "queremos continuar a ser alheios às 'guerras' inevitáveis do desporto indústria, que tem palcos, protagonistas, paixões e interesses diferentes, mas em tudo também respeitáveis. Aí somos apenas espectadores, já que aqui, no CIF, somos actores, talvez menos qualificados, mas muito felizes por podermos actuar sem que ninguém nos cobre as falhas cometidas". Há cem 100 anos também era assim...

Profissionais têm bilhetes de eléctrico

A opção pelo estatuto de amador, desligando-se das competições oficiais, deu-se em 1924, dois anos depois de se ter iniciado a polémica sobre a existência de jogadores profissionais. O prenúncio de que já havia atletas com gratificações fez baixar o CIF à segunda divisão e em consequência disso o clube jamais voltou a entrar nos campeonatos de Lisboa, passando a organizar torneios inter-sócios que continuam a suscitar grande aderência com 16 equipas.

Uma das razões, se outras não houvesse, era o sentido de desequilíbrio que se fazia sentir e Alexandre Correia Leal, seccionista e treinador dos sports atléticos, comentou uma vez. "Consideremos um operário que quisesse representar o nosso Clube, teria de pagar jóia, quotas, compraria todo o seu equipamento de futebol, nunca receberia qualquer remuneração por dia de trabalho perdido em treino, pagaria os eléctricos à sua conta, etc, etc... Ora havendo clubes que não são tão exigentes, palerma seria ele, se viesse para o nosso, não lhe parece?"

À espera do pavilhão

O CIF espera receber hoje do secretário de Estado do Desporto uma "prenda": a luz verde para as obras do pavilhão onde possa dar cumprimento aos anseios de muitos sócios que querem praticar outras modalidades, sendo o basquetebol feminino aquela que mais precisa de uma casa própria para os treinos.

O basquetebol feminino no CIF foi uma das jóias de coroa do clube, sendo ainda hoje a colectividade com o maior número de títulos: 9 Campeonatos, 7 Taças de Portugal e 3 Supertaças. Por detrás destas vitórias está Vitor Hugo, que, além de treinador desde 1965, tem feito de tudo um pouco e a ele se deve a alma cifista, mesmo com o clube mergulhado na II divisão. "Com o novo pavilhão, que Deus me dê forças e saúde para construir uma equipa para andar na Liga", comentou o carismático técnico que endossa os elogios a muitas outras pessoas, como Ana Aguiar, onde em sua casa se lavavam os equipamentos dos treinos e dos jogos.

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