EXPOFUT: Maniche vê uma oportunidade para que os clubes se tornem "mais sustentáveis"

Evento decorre quarta e quinta-feira, na Arena Liga Portugal

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Maniche
Maniche • Foto: Jose Ribeiro
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Maniche, antigo internacional português que, em Portugal, se notabilizou sobretudo ao serviço do FC Porto, é um dos embaixadores da Liga Portugal a marcar presença na EXPOFUT, evento que irá realizar-se quarta e quinta-feira no Arena Liga Portugal. O antigo futebolista, que além de manter uma ligação próxima ao futebol também se aventurou no mundo dos negócios, valorizou, em declarações à Liga Portugal, a iniciativa que pretende criar novas ligações entre o futebol e o sector empresarial.

Liga Portugal - Chegou a dizer numa entrevista que, neste momento, podia estar parado e viver daquilo que tinha ganho no futebol. Por isso mesmo, o que o levou a querer fazer mais?

Maniche - O fim de carreira é uma mudança muito grande. Em alguns casos, é até dramática, pois o jogador deixa de ter as suas rotinas diárias, que se prolongaram durante muitos anos. Mas é precisamente nesse momento que também tem de se criar desafios e novos objetivos. No meu caso foi exatamente isso que aconteceu. Criar uma etapa nova na minha vida, uma nova carreira, e foi com os negócios que consegui.

LP - O jogador deve pensar no pós-carreira muito antes do final, que às vezes até chega inesperadamente?

M – Sim. O jogador tem tempo para se preparar. Se formos a pensar, o jogador tem três, quatro horas de trabalho. Tem muito tempo para se preparar, tem muito tempo para investir com alguma responsabilidade, tem muito tempo para criar os seus objetivos e ter foco em outras áreas. Tem é que, em muitas situações, deixar de ser preguiçoso e ter coragem também de se associar a projetos que sejam credíveis e que sejam rentáveis, porque o futebol não dura para sempre e o rendimento também não. Por isso, acho que o jogador tem de se focar muitas vezes naquilo que faz, é certo, mas preparar o futuro mentalmente, psicologicamente, e, acima de tudo, com objetivos e com propostas que sejam credíveis.

LP – Há um momento em que um jogador percebe que a carreira pode estar a acabar, isto é, se não for algo inesperadamente. No caso do Maniche, como é que foi esse processo de perceber que realmente tinha de começar a pensar no “e depois”?

M – Sempre pensei criar projetos fora do futebol, não queria depender do futebol. Já tinha isso bem vincado. Nós, jogadores, dizemos sempre que nunca estamos preparados para o termo de carreira, é um facto. Mas começamos a perceber que a idade já não é a mesma, que correr os 14 ou 15 quilómetros já começa a cansar. Então temos de ser nós a deixar de ser egoístas, perceber que já não dá para tudo e começar a preparar e a mudar o foco. A carreira acaba, mas a vida continua, por isso é preciso pensar no que vou fazer e em que área é que me posso preparar para ter benefícios. Acredito plenamente que nada se faz sem preparação. Todas as áreas em que estou inserido, tive de me preparar.

LP – O que mais assustava nessa nova fase, nessa mudança do final de carreira? Disse que é uma decisão difícil. Havia algo mais assustador?

M – O futebol ensinou-nos a competir, crescer e a aprender. Temos a perceção que muitas vezes podemos errar e não atirar a toalha ao chão. E isso pode acontecer tanto num jogo, como nos negócios. Acima de tudo, temos de ter confiança e temos de ter a noção e a responsabilidade de que muitas vezes as coisas podem não acontecer da forma que queremos naquele momento. Muitas vezes, nos negócios, a rentabilidade não é imediata. Em muitos negócios, a rentabilidade começa a surgir passados quatro ou cinco anos e temos de ter paciência e ter a noção de que temos um ‘pé-de-meia’ capaz. Se o negócio não surgir da forma como estamos à espera, temos capacidade de investir ou reinvestir, de uma forma mais contundente e mais persistente. Porque, se acreditamos naquilo que estamos a construir, muitas vezes o melhor é mudar de equipa e acrescentar valor e pessoas, que nos abram outros horizontes para que esse negócio flua.

LP – Sabemos que, infelizmente, nem todos têm a possibilidade de terminar a carreira com uma segurança financeira tão estável. Que conselho é que daria a quem está no futebol e sabe que um dia vai ter de construir uma vida para lá do futebol?

M – Há muitos jogadores que não chegam a ter uma rentabilidade no futebol que lhes permita, após a carreira de futebolista, ficar bem na vida. É um facto e isso é assustador. As pessoas pensam que todos os jogadores ficam ricos quando terminam a carreira de futebol e isso não acontece. Não é verdade. Por isso, tem de haver também outras dinâmicas, outras formas da preparação mental do próprio jogador. Muitos entram em depressão, porque não sabem o que podem fazer além do futebol, e por isso tem de haver outros mecanismos, outras ajudas, de várias instituições, para incorporarem os jogadores, porque lá está, nem todos os jogadores ficam ricos ou milionários quando acabam de jogar. Mas também há a preparação através da formação do próprio jogador. A Liga Portugal, por exemplo, tem formações, em várias vertentes, que dão a possibilidade aos jogadores ou ex-jogadores de incorporarem algumas áreas que não conhecem, mas que lhes dá algum apoio no futuro. Quer seja em comunicação, em gestão, organização ou outras áreas. Agora, também têm de estar presentes. Muitas vezes a culpa também é dos próprios jogadores, que não têm essa iniciativa, ou então falta de coragem, porque parece que é tudo fácil. Falando pela minha experiência, enquanto jogador, não precisava de fazer rigorosamente nada, porque me davam tudo aquilo que precisava enquanto jogador de futebol. Mas depois há outra parte, outra parte obscura que muita gente não conhece. Temos de estar com pessoas certas, no momento certo e na área certa.

LP – Sente que esses apoios e essa forma de ver o futuro deveriam ser mais incutidas nos jogadores?

M – Já o fazem, é certo. Já existem várias instituições, como a Liga Portugal, por exemplo, mas as próprias Sociedades Desportivas também já o fazem. No meu tempo não havia rigorosamente nada. Tínhamos de ser nós próprios a crescer e a descobrir.

LP – Sente que pode ser uma base, ou dar aqui alguma base, ou influenciar para construir um negócio? O futebol pode dar competências para criar um negócio no futuro.

M – Sim, acho que o negócio está relacionado com o futebol. Pela disciplina, pelo trabalho, pela liderança, pela capacidade de lidar com a pressão. É uma base que nós, futebolistas, já temos e acho que falta aproveitar isso e pôr em prática, sem receios. Temos uma percentagem muito alta de jogadores que não estavam preparados, que abriram os seus negócios, e muitos ou a maioria faliram. Porque não é só ter dinheiro para investir, tem de se ter a capacidade de estar com gente com quem se consegue aprender e evoluir. No negócio do vinho e do champanhe, por exemplo, estive dois anos e meio a estagiar para ter a perceção do que é fazer vinho, desde uma primeira fase até ao cliente final. No champanhe estive dois anos no mesmo processo.

LP – Chegou a tornar-se acionista maioritário duma Sociedade Anónima Desportiva (SAD) de um clube de futebol (AD Camacha). Isso acaba por dar uma perspetiva muito particular, porque passa de jogador a alguém que está do outro lado, ou a alguém que toma as decisões. O que descobriu sobre a gestão de um clube que não sabia antes e que não se vê, enquanto jogador?  

M – Excelente pergunta. A resposta é fácil e simples: não estava preparado. De facto, não estava preparado.

LP – O que mais o chocou?

M – Chocou-me perceber que o jogador só pensa em treinar e em jogar ao fim de semana. Não pensa em rigorosamente mais nada do que está por trás, além dos salários que tem para receber. Não pensa nas muitas decisões que são tomadas. Há uma logística muito grande e não estava preparado. Nesse caso em concreto não foi o clube certo, não estava com as pessoas certas, não pensei muito. Segui o meu sonho. Às vezes é bonito sonhar. Era um sonho que tinha: queria ser presidente de um clube. Aconteceu essa oportunidade, achei que era bom para mim, era bom também para crescer, começar de baixo e depois atingir outro patamar, enquanto presidente. Mas não estavam reunidas as condições e eu próprio também não estava preparado, confesso.

LP – Não há um negócio sem pessoas, com quem temos de criar relações e é um bocadinho isso que nos trouxe até esta conversa. Por isso, o que espera da EXPOFUT?

M – Em primeiro lugar, deixem-me dar os parabéns pela iniciativa. Vai ser um encontro de pessoas e, muitas vezes, numa pequena conversa surgem grandes negócios. A EXPOFUT traz essa possibilidade, juntamente com a inovação, a tecnologia, os parceiros, os patrocinadores e a capacidade para que várias oportunidades possam surgir, na área do futebol e no desporto. Por isso, é uma excelente iniciativa e revejo-me exatamente naquilo que vai acontecer na EXPOFUT.

LP – Se tivesse de identificar áreas onde um clube de futebol precisa de soluções para crescer, quais seriam?

M – Comunicação. Atualmente não se faz nada sem uma boa comunicação. E recursos humanos, com confiança e conhecimento para fazer acontecer. Como referi há pouco, o futebol e os negócios têm muita coisa em comum. Têm a disciplina, a liderança, e muitas vezes a liderança não é a que fala mais alto, mas sim a que sabe falar e guiar um grupo. Não é preciso andar ‘às barrigas’ numa sala para impor a sua liderança. Acho que atualmente ninguém aceita esse tipo de liderança. O respeito também. Tendo a consciência tranquila naquilo que se faz, o empenho, a disponibilidade e compromisso também.

LP – Já tendo estado dos dois lados, o que um clube pode encontrar numa feira como esta?

M – Acima de tudo oportunidades, inovação e networking. Acho que o futebol tem evoluído muito a nível de tecnologia. Tenho a perceção que, cada vez mais, tudo se faz a nível tecnológico, com novos parceiros. Pode também ter alguns possíveis patrocinadores. Acho que é uma excelente oportunidade para dialogar e conviver.

LP – Porque o futebol também se faz muito disso, não é? O networking, o contacto, as relações…

M – Exatamente, abre a possibilidade de encontrar soluções que permitam tornar os clubes mais sustentáveis. Com novas formas de encarar o futebol, com as novas tecnologias. É importantíssimo estar na primeira linha, na primeira fase para que isso aconteça. E a EXPOFUT é uma feira transversal a vários desportos, não é só ao futebol.

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