Record

Rui Águas: «Sou treinador»

EX-INTERNACIONAL LUSO ASSUME-SE DE CORPO E ALMA

RUI Águas continua a sentir-se um treinador de futebol no desemprego. Apesar da actividade como comentador televisivo e da gestão da escola de futebol com o seu nome, o antigo ponta-de-lança da selecção nacional está, como tantos outros técnicos, à espera da melhor opção, alguns meses depois de ter abandonado o V. Setúbal à 6ª jornada da II Liga.

– Depois de sair do V. Setúbal recebi uma série de convites, todos provenientes de equipas em dificuldades, como é comum nestas circunstâncias. Não quis então correr o risco de, duas vezes seguidas, poder vir a pagar por aquilo que não era da minha responsabilidade total. E sendo assim decidi esperar por outra altura e por outros convites.

– Ao cabo desta experiência sente-se mais treinador?
– Gostei, sinto-me treinador e vou continuar a exercer. Não tenho grande experiência? Quando me dizem isso lembro-me logo do José Mota, que é um bom exemplo. Como jogador passei pelos três escalões do futebol português; tenho formação enquanto praticante com alguns dos mais conceituados treinadores nacionais e internacionais; fiz os quatro níveis exigidos curricularmente; joguei e estagiei por várias vezes no estrangeiro e possuo formação académica do ISEF – hoje FMH. Depois, face aos ecos da relação que mantive com os jogadores, penso estar no bom caminho. De resto, e sem falsas modéstias, tive a felicidade de viver experiências que não são fáceis de reunir numa só pessoa, pelo que sinto que tenho condições de seguir esta carreira.

– Admitia no início da época abandonar o clube tão cedo?
– A vida para quem vive no futebol é assim mesmo: não é possível fazer planos a longo prazo. Quando fui para o V. Setúbal pensei, como qualquer treinador, em cumprir o contrato até ao fim. Infelizmente isso não aconteceu, embora entenda que existem boas razões para explicar o desenlace.

– Que razões foram essas?
– Pegámos numa equipa quase despromovida e levámo-la a sonhar com a salvação. Depois de um percurso acidentado, o Vitória ficou a um golo da I Liga, fruto de 2ª volta em que fez 20 pontos, número que equivaleria a um 12º lugar na tabela. A verdade é esta: acabámos vítimas da recuperação que fizemos.

– Como assim?
– As pessoas acreditaram na manutenção até à última jornada e a amargura final condicionou o ambiente para a época seguinte. Estranhamente também, antes mesmo do início do campeonato, era perceptível alguma movimentação e uma desconfiança nada propícia a uma equipa que tinha sido reconstruída. Situação que inviabilizou, por exemplo, a fácil integração dos elementos novos.

Nervosismo e inexperiência

– Isso notou-se no mau arranque do V. Setúbal...
– O começo não foi de facto convincente. Mas à partida para a 4ª jornada, em Chaves, então um assumido candidato à subida, percebemos que a pressão era enorme: exigiam-nos a vitória. Uma angústia prematura reacendida logo a seguir, antes da 6ª jornada, quando fomos a Vila do Conde para defrontar o igualmente candidato Rio Ave. Fizemos então o melhor jogo da época e ainda que derrotados demos a entender que as coisas estavam a evoluir.

– Foi uma surpresa para si a decisão do afastamento?
– Não fui apanhado de surpresa, porque as pessoas andavam muito nervosas. Talvez pensassem que à 6ª jornada o V. Setúbal já devia ter garantido a subida. Ora, as coisas não são assim, muito menos na II Liga, cujo campeonato é extremamente equilibrado e no qual existem sempre muitas equipas a investir para subir, a maior parte oriundas do Norte do País, onde o poder económico é maior.

– O balneário sentiu o nervosismo e a desconfiança que ditaram a sua saída?
– Claro que o nervosismo foi transmitido à equipa. Mas depois desse jogo de Vila do Conde, ainda por cima estando no início da época, os jogadores ficaram surpreendidos com a saída. Eu não tanto, porque fui percebendo o que estava a suceder e sabia que mais tarde ou mais cedo esse poderia ser o desenlace.

– Sabia, então, que tinha os dias contados...
– Já lhe disse que não fui apanhado de surpresa... Antes do campeonato começar o presidente disse-me que “o ambiente estava esquisito” – são palavras dele. Visto a esta distância é incompreensível como se sustenta a rotura com o treinador só porque à 6ª jornada a equipa estava a três pontos da subida, patamar só muito recentemente ultrapassado.

Objectivo era a subida

– Alguma vez o objectivo deixou de ser a subida?
– O objectivo não podia ser outro. Quando um clube com o prestígio, a tradição e o passado glorioso do V. Setúbal tem a infelicidade de descer de escalão, a meta só pode ser devolvê-lo ao seu lugar o mais depressa possível. O clima entre adeptos é de saudosismo, mas os tempos são outros e o presente não se alimenta de recordações. Depois o Vitória tem uma ligação muito forte à cidade, ao meio em que está inserido e se as conquistas provocam a euforia, as derrotas causam traumas difíceis de ultrapassar.

– Que diagnóstico fez para o início da temporada?
– Sabia que era fundamental começar bem. Os tais 20 pontos conseguidos na 2ª volta do campeonato passado e a curta distância que nos separou da salvação eram e são factores importantes para mim, treinador, bem como para os meus colaboradores e que mereciam outro crédito. Mas a verdade é que, assim ou assado, a equipa tinha descido à II Liga e essa era a realidade para a qual os adeptos reagiram, naturalmente, sem contemplações.

– Como pensava ultrapassar essa fase?
– A partir de certa altura contava com outro tipo de apoio que não existiu. Reconheço o trabalho, a gestão financeira e a educação dos directores do V. Setúbal, bem como a preocupação pelo futuro do clube, mas a equipa merecia um acompanhamento do qual sentiu falta. Desde a minha saída, felizmente, passou a ser apoiada de acordo com as exigências.

Tipos de treinador

– Que balanço faz da experiência do banco, algo que muitos consideram ser um factor de definição de um bom treinador?
– Para alguns adeptos o melhor treinador é aquele que mais grita e esbraceja no banco. Ao contrário, julgo que deve transmitir ideias com tranquilidade e ser frio na análise e nas decisões. Algo que me apontavam como defeito. A competência não se mede pela actividade física no banco, mas pela agilidade mental, a qualidade do treino e a capacidade de liderança.

– E no que diz respeito à escolha do plantel...
– Quando chegámos a Setúbal disseram-nos que era preciso reduzir o orçamento. Fizemos apenas duas aquisições, ambas a custo zero: o Meyong (campeão olímpico em Sydney pelos Camarões) e o Ricardo Esteves (que começa a ganhar o seu espaço do Benfica). Na época seguinte solicitaram-nos a redução dos custos do plantel, o que conseguimos através de equilíbrio nas aquisições, construindo uma equipa claramente superior à anterior.

– Acredita ainda que o V. Setúbal conseguirá subir?
– Acredito e desejo que o Vitória suba à I Liga.

«Benfica recupera da pior Direcção»

Uma opinião segura sobre o actual momento do clube encarnado:
– O Benfica está a tentar recuperar dos efeitos nefastos da pior Direcção da sua história. Os actuais dirigentes estão a juntar os cacos, o que não é fácil sobretudo por estarmos a falar de um clube no qual a exigência de resultados desportivos é sistemática, por muito que as condições sejam contrárias à obtenção das mesmas.

– O Benfica corre o risco de obter a pior classificação da sua história...
– Desde que tudo isso sirva para construir um futuro mais sólido, acho que é melhor nem sequer ir à Europa. Quantas vezes as equipas portuguesas chegam às provas da UEFA e não passam da 1ª eliminatória? Para o Benfica não ser campeão já é castigo suficiente. O importante mesmo é o que vem a seguir.

– Mas há ou não riscos de estar em jogo o futuro?
– Claro que sim. Para começar é preciso estar atento de forma a evitar que a desilusão actual não condicione o início da época seguinte.

«Mantorras é risco muito bem corrido»

Sobre a mais recente contratação encarnada:
– Para o Benfica, a contratação de Mantorras é um risco muito bem corrido. Há muitas contingências melindrosas, a começar na forma como o próprio jogador irá lidar com a mudança e com o estatuto entretanto adquirido, sem esquecer o acompanhamento familiar e institucional. Isto sem perder de vista, o tipo de equipa que irá encontrar.

– Acha, então, que o Benfica fez uma boa aquisição?
– De entre as melhores equipas portuguesas, o Benfica era, curiosamente, aquela que menos precisava, aparentemente, de um jogador com as suas características, bem servido que está por van Hooijdonk e João Tomás. Mas Mantorras tem potencial imenso e se tudo correr bem pode transformar-se numa aquisição excepcional.

«Selecção cresceu com ponta-de-lança»

Uma opinião interessante sobre o momento delicado da selecção nacional, após a derrota em Paris:
– Somos assim mesmo: convencidos nas vitórias e depressivos nas derrotas. Sempre em doses exageradas. O 4º lugar no “ranking” mundial moralizou a equipa mas em termos públicos tenho dúvidas de que tenha sido positivo, na medida em que atrapalhou as ideias dos adeptos. O último desaire pôs a nu as limitações que continuam a existir no acompanhamento e enquadramento da selecção, ao mesmo tempo que confirmou a superioridade da França. Quanto a Portugal, cresceu nos últimos tempos quando, finalmente, passou a jogar com um ponta-de-lança de raiz.

Da II B à I Liga no espaço de um ano

“Apesar do final atribulado e infeliz da passagem pelo V. Setúbal, não me posso queixar da experiência vivida ao longo de um ano complicado mas proveitoso. Não esquecer que trabalhei nos três escalões do futebol português, através do Estoril, onde comecei, e depois em Setúbal, num clube que pela sua especificidade será dos mais atractivos mas ao mesmo tempo dos mais difíceis que existem no futebol português.”

Os pontas-de-lança que o V. Setúbal tem

“Creio que não é fácil encontrar, mesmo nas equipas da I Liga, um lote de pontas-de-lança tão valioso como aquele que o V. Setúbal possui: Rui Miguel, João Paulo, Meyong e Maki dão soluções para todas as necessidades. O facto de haver elementos do plantel, em especial dois, que nem têm jogado regularmente, que são pretendidos por clubes de primeiro plano, prova o valor de um grupo que chegou a ser desconsiderado.”

Comentador televisivo é experiência gratificante

“A experiência como comentador na Sport TV está a ser gratificante. Gosto do que faço e procuro desempenhar a missão com seriedade e sentido de responsabilidade. Tento (e acho que consigo) ser imparcial, dentro de um estilo moderado, que não me impede de criticar quando é caso disso, deixando bem claras as minhas opiniões, procurando fazê-lo, no entanto, com a maior diplomacia possível.”
Deixe o seu comentário
SUBSCREVA A NEWSLETTER RECORD GERAL
e receba as notícias em primeira mão

Ultimas de Futebol

Notícias

Notícias Mais Vistas