«Stewarding» transformou a segurança nos estádios

Os conflitos sociais dos anos 80, época em que o "hooliganismo" se começou a afirmar como um sério problema social e que resultou em trágicos acidentes em vários estádios de futebol, envolvendo maioritariamente adeptos britânicos, forçaram os responsáveis do Reino Unido a tomar medidas concretas, cimentando-se então um novo conceito de segurança nos estádios, de filosofia neo-liberal, o qual visa reduzir o papel do Estado e das suas forças policiais, e ainda com maior eficiência

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PORTUGAL não tem tradição na "cultura" de segurança nos estádios, aquilo a que vulgarmente se chama pela Europa de «stewarding». Muito menos, a actividade tem acolhimento legal específico, desconhecendo-se, também, quaisquer estudos sobre esta matéria. Os únicos dados disponíveis foram agora compilados num estudo executado no seio da organização do Euro-2004, intitulado "Relatório preliminar sobre a implementação do «stewarding» em Portugal".

O conceito nasceu nos Estados Unidos, mas a implementação na Europa deve-se aos ingleses. Os conflitos sociais dos anos 80, época a partir da qual o "hooliganismo" se começou a afirmar como um sério problema social e que resultou em trágicos acidentes em campos de futebol, forçaram os responsáveis do Reino Unido a tomar medidas concretas no que concerne, em particular, à segurança nos estádios.

Na sequência das tragédias de Heysel (1985) e Hillsborough (1989) – nas quais morreram, respectivamente, 39 e 95 espectadores –, a justiça britânica entrou em campo, não só para punir mas também para estudar e aconselhar.

O juiz Taylor, encarregue pelo governo para lidar o inquérito à tragédia de Hillsborough, depois de concluído o processo, produziu dois dos mais importantes relatórios sobre segurança nos estádios, em toda a história do futebol mundial.

A lógica dos relatórios Taylor veio contrapor-se à concepção de segurança que deixava para as forças policiais o total controlo da multidão, sistematizando, por outro lado, os fundamentos do "conceito de segurança civilista". Há mesmo quem assegure que o grande incremento do «stewarding» no futebol britânico tem o seu ponto de partida nos relatórios Taylor.

No entanto, o «stewarding» no Reino Unido está metódica e detalhadamente caracterizado em quatro documentos de referência, o primeiro dos quais, o "Guide to Safety at Sports Grounds", mais conhecido por "Green Guide", que remonta, na sua primeira edição, a 1973.

Num nível mais global na Europa, o «stewarding» atingiu valores significativos na relação do seu número com o dos espectadores durante o último Campeonato da Europa, realizado o ano passado na Bélgica e na Holanda: 400 «stewards» para jogos com 30 mil espectadores (relação 1/75); e 500 «stewards» para jogos com 50 mil espectadores (1/100).

Refira-se, por exemplo, que dez por cento do contingente de «stewards» ficou reservado às mulheres. Os «stewards» estrangeiros que acompanharam as diversas equipas nacionais, embora essenciais ao dispositivo de segurança nos estádios do Europeu, não foram contudo contabilizados (por ser tido como desaconselhável) nos sistemas de «stewarding» mobilizados para os encontros.

A acção dos «stewards» estrangeiros foi complementada com a intervenção de «spotters» (polícias oriundos dos vários países participantes, cujo objectivo principal no terreno é identificar e localizar a eventual presença de desordeiros do seu próprio país e líder com situações de ameaça proveniente dos seus compatriotas), por parte da segurança institucional.

Ser «stewaerd» é influenciar o seu grupo

O «steward» é "um elemento civil que actua emergindo do grupo de adeptos com forte sentimento de pertença e que constitui o elemento chave na dissolução das tensões que no mesmo se fazem sentir". O seu papel é o de garantir a segurança, integridade e boa ordem das multidões de espectadores, cumprindo essa missão observando, dando assistência e, se necessário, admoestando, firmemente mas não de forma agressiva.

O termo "steward", de origem anglo-saxónica, é reconhecidamente de difícil tradução em português. Várias traduções, mais ou menos felizes, têm sido tendadas: hospedeiros, auxiliares de segurança, monitores, arrumadores, recepcionistas, ou ainda, "elementos [encarregados de facilitar o controlo e esclarecimento dos espectadores durante os jogos e de acompanhar os grupo de adeptos que vão assistir a jogos disputados fora]".

Os «stewards» possuem o estatuto de um empregado ou representante do organizador do jogo. No entanto, não estão autorizados a tomar partido durante os jogos, nem muito menos a festejar os golos.

FC Porto tem «stewards» designados supervisores

O FC Porto é o clube português que mais perto se encontra da nova realidade europeia no que concerne à segurança interna nos estádios de futebol. Em consequência da sua participação de sete anos na Champions League, o clube das Antas dispõe de um considerável património de conhecimentos e experiência na área da segurança, utilizando «stewards», cujo número chega a atingir os 250 elementos nos jogos de maior importância e risco.

Os «stewards» ligados ao FC Porto, de acordo com os dados colhidos e apresentados no estudo elaborado pela comissão do Euro-2004, são recrutados por uma entidade privada e são perfeitamente identificáveis pelos espectadores que se deslocam ao Estádio das Antas por um colete, geralmente de cor amarela, com a inscrição "Supervisão" no dorso. Não são, todavia, explicados os critérios da selecção nem é identificada a empresa privada à qual foi entregue esta actividade.

No entanto, parece existir alguma ligação directa ao clube, já que o estudo refere que os dirigentes portistas "reconhecem que, apesar de já terem sido levadas a cabo algumas acções de formação, as mesmas não poderão ser consideradas satisfatórias, não obstante o esforço desenvolvido pelo clube".

Há, ainda assim, a clara consciência de que "o «stewarding» é a peça-chave dos modernos sistemas de segurança em campos de futebol e que a formação de «stewards» faz sentido num quadro mais alargado do que o dos próprios clubes, visto que estes, no quadro estrito da sua actividade, não se podem assumir, em pleno, como garantes de uma componente importante do «stewarding», que é a da garantia de consolidação de uma carreira ou de actividade profissional continuada para os «stewards»".

Da mesma forma, os responsáveis azuis-e-brancos sabem da necessidade de "garantir a formação e treino dos «stewards» de acordo com padrões aceitáveis de qualidade" e que a "implementação do «stewarding» pressupõe a disponibilização de massa crítica, fora das rotinas e em torno de conceitos de segurança actualizados, e em certa medida inovadores no panorama nacional, bem como de trabalho organizado, sistematizado e continuado nessa direcção".

Os mesmos dirigentes admitem, por outro lado, e ainda segundo o estudo feito no seio da organização do Euro-2004, que "o FC Porto beneficiará com as iniciativas que neste âmbito possam vir a ser desenvolvidas na perspectiva do Euro-2004, já que, no geral, os clubes não têm internamente massa crítica para desenvolverem sozinhos o «stewarding»".

Concluindo, o estudo adianta que os dirigentes do FC Porto admitem que "o sucesso da implementação do «stewarding» não dependerá exclusivamente de si mas também da tomada de outras medidas complementares".

Sporting quer maior definição

Também devido à sua participação em provas europeias, o Sporting CP utiliza já um número considerável de «stewards», estimado entre os 180 e 200 nos jogos de maior relevância. Os responsáveis leoninos admitem que a "aceitação dos «stewards» por parte do público tem sido boa", mas, ao invés, "não existe no clube formação para os «stewards» conformada a qualquer padrão específico".

Os dirigentes do clube de Alvalade dizem existir "interrogações em aberto relativamente à aplicação do conceito «civilista» de segurança, sobre onde começa e onde acaba a acção dos «stewards». Em simultâneo, acreditam na "necessidade de o «stewarding» ser complementado com as ferramentas tecnológicas hoje disponíveis no âmbito da segurança e com a melhoria das estruturas funcionais e organizativas no estádio".

Segundo o estudo que temos vindo a citar, em 2002 e 2003 o Sporting prevê fazer "o trabalho de casa" relativamente ao «stewarding».

V. Guimarães usa «privados»

Diferente é a realidade no Vit. Guimarães que, não assumindo ainda o conceito do «stewarding», possue contrato com uma empresa de segurança privada, a qual, em dias de jogo, fornece seguranças para as portas de entrada e mais alguns para o interior do estádio.

De acordo com os dados disponíveis, o número dos elementos a mobilizar pela empresa, depende do risco do jogo. Por não serem «stewards», estes seguranças não são objecto de qualquer formação específica sujeita ao cumprimento de normas de qualidade.

Os restantes clubes, incluindo o SL Benfica – que já utilizou um sistema em tudo idêntico aos «stewarding» –, recorrem exclusivamente às forças policiais em matéria de segurança. A União de Leiria, tal como o proprietário do seu estádio, a Câmara local, não dispõem de «stewards» mas têm um responsável pela segurança (como muitos outros clubes) com carácter quase informal, acabando por ser as forças da ordem a garantir a segurança nos dias de jogo.

Europeu de 2000 usou «e abusou» dos «stewards»

O Campeonato da Europa de 2000, organizado pela Holanda e pela Bélgica, realçou o papel do «stewarding». Dados fornecidos pela Fundação Euro 2000 revelam a utilização de 422 «stewards» em Bruges, 498 em Arnheim, 620 em Amsterdão e um ainda mais elevado número em Bruxelas, um total de... 700.

Euro-2004 quer distinguir «stewards» de seguranças

A imagem do «steward» na opinião pública é decisiva para o êxito da sua implementação, pelo que, lembram os responsáveis do Euro-2004, haverá que distingui-lo, de forma clara e persistente, do segurança privado, a que a população associa ao «porteiro de discoteca» ou «seguranças da noite», conotados muitas vezes com actividades de índole ilegal.

Segurança privada «move» 50 milhões de contos/ano

O recurso a seguranças privados é um fenómeno recente em Portugal, mas em expansão. Um trabalho recente do "Público" falava da existência de 88 empresas do sector, duas delas detendo 50% do mercado, num negócio que movimenta anualmente 50 milhões de contos e emprega 30 mil pessoas, 10 mil clandestinos.

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