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Carla Couto atira: «O futebol não era para mulheres, mas a Kika ou Ana Borges são ídolos»

Carla Couto atira: «O futebol não era para mulheres, mas a Kika ou Ana Borges são ídolos»

É já dia 27 de novembro que se realiza a Gala da Campeãs, organizada por Record, no Casino Estoril. Carla Couto, ex-internacional portuguesa por 145 ocasiões, distinguida como jogadora do século pela FPF e delegada e embaixadora do futebol feminino do Sindicato dos Jogadores - que se associa ao evento - deu conta da importância da cerimónia  e da evolução que se tem verificado na área no nosso país.

RECORD - Como encara e que importância tem a realização da primeira Gala das Campeãs, criada pelo Record e a que o Sindicato dos Jogadores se associa?

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CARLA COUTO - É uma excelente iniciativa. Todas as ações que sirvam para promover o futebol feminino, promover a jogadora portuguesa, são sempre eventos de grande importância para quem está envolvido com a modalidade. É de louvar. É de extrema importância e estou muito feliz por o Sindicato ter-se associado a esta gala. Como é lógico, vamos fazendo tudo o que é possível para promover a modalidade, promover as nossas atletas e, logicamente, premiar quem se vai destacando semanalmente e durante a época é positivo. Mesmo tratando-se de um desporto coletivo, podendo distinguir algumas jogadoras, é sempre de enaltecer. Estão de parabéns, o Record e o Sindicato, por terem criado esta gala e darem mais visibilidade ao futebol feminino.

R - Uma visibilidade crescente, com impacto sobretudo por via da Seleção, com a sua primeira participação num Mundial e, agora, na Liga das Nações, por exemplo. Como é que tem visto este desenvolvimento no futebol feminino?

CC - Tem sido um crescimento gradual, temos vindo a crescer ano após ano. O facto de terem sido criadas equipas profissionais veio dar outra qualidade e competitividade ao nosso campeonato e depois, logicamente, a nível internacional, a Seleção obter resultados é muito importante. Este apuramento para a fase final do Mundial foi a cereja no topo do bolo. Acho que teve um excelente desempenho e, agora, com a criação da Liga das Nações vem ainda valorizar mais o futebol a nível de Seleção. Para nós, é sempre muito bom, porque nos dá mais competição, com equipas de grande qualidade, o que nos leva a crescer ainda mais jogo após jogo, ano após ano. Já demonstrámos a toda a gente que temos qualidade para nos batermos com qualquer seleção. Acredito que, mais cedo ou mais tarde, os resultados vão aparecer e nós vamos surgir no topo do ranking e a lutar sempre para estarmos nas fases finais quer do Campeonato do Mundo como do Campeonato da Europa.

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R - Conheceu uma realidade bastante distinta. Jogou ao longo de 24 anos, a maior parte da carreira não foi como profissional. Como era nessa altura, Carla?

CC - (Risos) Era amador, completamente amador. Todas nós tínhamos o nosso trabalho, treinávamos à noite, são realidades completamente distintas. Era o que nós tínhamos na nossa altura, foi com isso que vivemos, foi com isso que crescemos e foi por isto que lutámos. Há que olhar para trás e ter orgulho no que fizemos. Ainda bem que as coisas mudaram, têm vindo a mudar e que a mulher, no desporto, hoje, já seja uma coisa normal. Uma menina jogar futebol já é uma coisa normal. Naquela altura, não era muito bem visto. É com muito agrado que tenho visto o futebol feminino evoluir, assim como as mentalidades, e as condições que agora são dadas à prática da modalidade deixam-me muito satisfeita.

R - Havia muita discriminação por raparigas, mulheres, jogarem futebol, nessa altura?

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CC - Havia aquele estigma que o futebol não era para mulheres. Mas, sim, havia discriminação, foram épocas difíceis, momentos que não foram muito agradáveis, mas fez parte também do nosso crescimento. Como disse, há que olhar para trás e orgulharmo-nos daquilo que fizemos. Vivemos numa época um pouco mais difícil. Como se diz, foi a minha geração e as gerações anteriores que levaram o futebol feminino para a frente, só podemos estar orgulhosas daquilo que fizemos. Não fomos umas coitadinhas, vivemos numa era um pouco mais difícil, tivemos os nossos momentos de alegria, a rir, outros nem tanto, mas o que importa é olhar para o futuro e acredito que o futuro do futebol feminino em Portugal tem muito para evoluir, para crescer e vamos ter muitas alegrias, com a qualidade de jogadoras que temos.

R - Havia esse preconceito, vocês abriram as portas para esta atualidade. Acha que o profissionalismo e aceitação crescente, mesmo a nível da sociedade, vão continuar a evoluir no futebol feminino?

CC - Sim, como é lógico. E isso nota-se. Ainda agora, no Sporting-Torreense, estiveram cinco mil pessoas no Estádio de Alvalade a assistir ao jogo. Isso denota bem como as coisas têm vindo a evoluir e como a aceitação do futebol feminino tem sido crescente, tanto a nível nacional como a nível internacional. As assistências que se têm verificado, tanto a nível da Seleção, como a nível de clubes, confirmam que as pessoas cada vez mais são adeptas do futebol feminino e que temos vindo a fazer o nosso trajeto, a ganhar o nosso espaço.

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R - É possível haver uma equiparação, num futuro próximo, ao futebol masculino ou isso é ainda uma utopia?

CC - O futebol masculino e feminino são realidades e têm particularidades diferentes. Temos que olhar para nós, ver o que de bom se vai fazendo noutros países, tentar replicar essas experiências, mas não nos vamos equiparar a uma coisa que não tem comparação. Temos vindo a crescer dentro do nosso contexto, e é isso que temos de continuar a fazer.

R - Há exemplos que importa seguir, como Espanha, Inglaterra, França, Alemanha?

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CC - Sim, são países como uma evolução grande e podemos tentar replicar algumas das coisas que têm sido lá feitas. Mas olhar para nós próprias e não para o futebol masculino. Não faz sentido.

R - O profissionalismo é um passo irreversível, é o futuro?

CC - Eu gostaria que fosse, se vai ser, não sei. Desde que foram criadas as equipas profissionais e ter sido dada a oportunidade às atletas, melhorou o campeonato, a prestação da nossa Seleção porque as nossas jogadoras estão muito melhor preparadas, vivem só disto. Se é irreversível, não sei, mas gostava que esta realidade se expandisse e houvesse mais equipas que pudessem dar essas condições às nossas atletas.

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R - Neste momento, são mais de 15 mil as jogadoras federadas, mais 2500 do que na época anterior. Este crescimento é sustentado e vai continuar, mesmo ao nível da formação?

CC - Sim, acho que sim. Tem havido uma grande aposta dos clubes, da Federação, das associações em promover o futebol de formação. Inclusivamente, a nível internacional, temos já as nossas meninas a terem grandes prestações, por isso creio que estamos no bom caminho. Mas há muito a fazer. Teríamos que começar mais cedo, a trabalhar com o Desporto Escolar, mas isso leva o seu tempo. Acredito que a formação tem vindo, ao longo dos anos, a ser levada em conta. Inclusivamente, o Sindicato já organiza pelo segundo ano um torneio sub-17, no qual tivemos oito equipas. Portanto, todos os agentes desportivos olham para a formação com muito rigor e muito cuidado, porque é de lá que vem a base para o futuro.

R - Passa também por uma evolução de mentalidade que se está a verificar, é isso?

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CC - Sim, antigamente as pessoas olhavam só para o cume, esqueciam-se da base, e com toda a experiência que fomos acumulando ao longo destes anos, percebemos que temos de começar pela base para sustentar o topo. Temos uma base de recrutamento muito grande, os clubes têm vindo a trabalhar muito bem ao criar vários escalões na própria estrutura e isso, para nós, é enriquecedor, porque todos os anos temos vindo a aumentar o número de praticantes e é isso que nós queremos.

R - E olhando para o topo: há jogadoras que possam inspirar meninas a seguir o seu exemplo e jogar futebol?

CC - Sim, claro que sim. Neste momento, já há jogadoras que são ídolos. Tenho a certeza que as adeptas do Benfica têm uma Kika, uma Catarina Amado, uma Jéssica Silva como referências; as do Sporting, uma Ana Borges, uma Cláudia Neto; como do Sp. Braga, têm uma Dolores; como do Famalicão, têm uma Regina… Neste momento, já começam as nossas jogadoras a serem referências das nossas meninas. Isso é um passo importantíssimo da mudança que se está a verificar. Eu não tive isso, a minha referência, ou o exemplo que procurava seguir, era um homem. Neste momento, se formos perguntar a uma menina do Sporting, por exemplo, ela se calhar conhece mais de metade da equipa sénior feminina e tem lá a sua referência e isso é importantíssimo.

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R - Quem era a referência da Carla, já agora?

CC - Era o Figo e, para mim, o meu jogador de eleição sempre foi o Quaresma.

Por Mário Duarte
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