Teresa Ribeiro: «Vilanovense não fecha a porta a ninguém»

Teresa Ribeiro: «Vilanovense não fecha a porta a ninguém»

O futebol feminino no Vilanovense ainda é prematuro, mas a resiliência adquirida com as dores de parto está a ser o suporte de vida que sustenta a esperança da treinadora Teresa Ribeiro em garantir a viabilidade deste projeto.

Aproveitar o vasto programa das comemorações do 100º aniversário do emblemático clube de VN Gaia é uma das ideias da responsável técnica para promover e dar expressão à secção, mas, principalmente, para criar raízes numa instituição onde não há a tradição de ver mulheres a jogar futebol.

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Um projeto que ainda não dispõe de muitos apoios, mas que Teresa Ribeiro, ex-jogadora do Boavista e que aos 40 anos também é soldadora certificada pelo Instituto de Soldadura e Qualidade, acredita ter condições para promover. Para já a ideia é de sustentabilidade, apesar da ambição de subir o Vilanovense do Campeonato Promoção para a 1ª Divisão do futebol feminino. Depois, o horizonte passa por arranjar condições para criar camadas de formação.

Record- Como é que surgiu a ideia de implementar o futebol feminino no Vilanovense?

Teresa Ribeiro- A minha vida girou sempre à volta do futebol. Comecei a jogar nas ruas da freguesia da Foz aos cinco anos, até que aos 13 anos acabei por chegar ao Boavista. Entretanto tive a oportunidade de ir para Itália, mas o profissionalismo não avançou, apesar de que nunca deixei o meio. Quando chegou a altura de pendurar as botas a transição acabou por ser natural por força da necessidade em liderar a juventude. Estive à frente de um projeto semelhante durante oito anos e aponderei muito bem em fechar o meu ciclo definitivamente quando essa oportunidade se esgotou, mas aquilo era uma família e senti-me culpada por a maioria das raparigas terem ficado sem um lugar para jogar futebol. Neste contexto vim ao Vilanovense apresentar a minha ideia.

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R- Porquê o Vilanovense?

TR- Foi uma conjugação de fatores. Primeiro pelo reconhecido historial do clube, depois porque nunca tiveram futebol feminino em 100 anos de existência e, finalmente, porque há infra-estruturas adequadas e estão localizadas numa zona central da cidade de Gaia que permitem congregar uma vasta comunidade de pessoas.

R- Foi fácil convencer os responsáveis do clube a avançar com o projeto?

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TR- Não encontrei resistências nesse sentido, mas avisaram-me logo que o clube não tinha disponibilidade para assumir os custos, pelo que tínhamos de ser nós a angariar as receitas necessárias. Foi preciso fazer um esforço suplementar e no primeiro anos cada jogadora teve de pagar do seu bolso. Esta época as coisas estão diferentes. O Vilanovense também fez um esforço para divulgar a modalidade e estamos a conseguir arranjar patrocinadores, pelo que as jogadoras já não vão ter de pagar uma mensalidade.

R- Qual é o orçamento do futebol feminino?

TR- Para se realizar uma época descansada precisamos de 4 mil euros, aproximadamente, o que no meu ponto de vista não é nenhum um exagero para tudo o que proporciona. É uma verba que contempla todas as despesas. Desde deslocações a equipamentos e todos os gastos inerentes com um grupo de futebol que anda sempre na casa das 30 pessoas.

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R- Como é que se processou o recrutamento das jogadoras?

TR- Andar no meio há 35 anos facilita. Conhecemos muita gente, que por sua vez conhece ainda mais gente. Quando acaba uma época palavra passa palavra e há sempre quem esteja interessado em trocar de clube. Acabámos sempre por convidar pessoas que já estão no futebol, mas muitas vezes sucede que quem joga tem amigas ou conhece alguém que gostava de tentar uma nova experiência.

R- É fácil convencer as raparigas a trocar os saltos altos pelas botas de futebol?

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TR- Na grande maioria dos casos isso nem se coloca porque elas têm o bichinho há muito tempo. Nos outros casos também não é difícil convencer, mas reconheço que a adaptação aos treinos e ao esforço físico não é fácil e é aí que começam os problemas.

R- É frequente aparecerem raparigas que querem jogar futebol, mas que nunca jogaram?

TR- A falta de experiência é recorrente. O nosso princípio é o de nunca fechar a porta a ninguém. Depois de avaliarmos as capacidades pode acontecer uma de duas coisas. Ou começa logo a trabalhar com as seniores ou, para não perdermos a atleta, que poderá vir a ser uma boa jogadora, nem acabarmos com o sonho das miúdas, acabámos por dar formação.

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R- Quantas jogadoras tem à sua disposição?

TR- O grupo das pioneiras do Vilanovense é composto 25 raparigas com idades compreendidas entre os 14 e os 37 anos.

R- Pode dar uma ideia de como é constituído o plantel?

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TR- É exatamente igual a uma equipa masculina. Temos de tudo. Somos um grupo muito diversificado. Aqui há desde professoras, enfermeiras a estudantes e desempregadas. Temos até mãe e filha na mesma equipa.

R- Sendo as pernas uma das partes do corpo que as mulheres expõem como é que elas encaram os traumatismos e chamadas as negras?

TR- Realmente a vaidade é um assunto com o qual temos de nos habituar. Demoram duas horas a tomar banho e a pintarem-se, mas as negras não incomodam nada. Até são medalhas para exibir, apesar de que quando dói não param de se queixar.

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R- As raparigas aguentam 90 minutos a jogar futebol?

TR- Até muito mais do que isso e sem qualquer tipo de problema. Os nossos organismos são muito resistentes.

R- É fácil gerir um balneário feminino?

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TR- Há de tudo e cada vez mais um técnico também é um pouco como um psicólogo. Temos miúdas muito novas e outras que já sabem qual é a exigência da vida. A crise financeira é transversal a toda a sociedade. É preciso conversar, mas muitas vezes é mais necessário saber escutar do que dar um conselho.

R- Jogar futebol é um escape?

TR- Para algumas sim. Nesse aspeto não há diferenças para o que se passa num balneário masculino. O futebol serve para as miúdas fugirem a alguns comportamentos desviantes, como muitas vezes também é a válvula que liberta a pressão acumulada no quotidiano seja por um problema no trabalho, na escola, com os pais ou o marido.

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R- O gosto pelo futebol resume-se à prática ou elas têm o hábito de acompanhar o futebol profissional masculino?

TR- Acompanham a par e passo tudo o que diz respeito ao futebol profissional e até, quando têm oportunidade, costumam assistir aos jogos da equipa masculina do Vilanovense. Já o inverso não acontece.

R- O público tem interesse pelo futebol feminino?

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TR- Quando é fora de casa o nosso apoio limita-se aos amigos e familiares. Quando jogamos no Parque Soares dos Reis é que já começa a ser habitual ver mais alguns adeptos na bancada.

R- Ficou contente com o desempenho no ano de estreia?

TR- Começámos a época a pensar que era possível terminar nos primeiros três lugares para dar acesso à subida de divisão, mas acabámos por ficar em 4º lugar. Tenho de fazer um balanço positivo, apesar de que tínhamos equipa para mais. Atendendo às circunstâncias o importante é que o nosso desempenho trouxe alguma visibilidade.

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R- Qual foi o principal problema que enfrentou na época passada?

TR- O desempenho nos primeiros jogos da época foi um desastre e isso acabou por ter um peso crucial nas nossas aspirações.

R- O Vilanovense vai ser uma equipa competitiva no Campeonato Promoção?

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TR- Este projeto só assim é que faz sentido, até porque este ano há mais qualidade. Como entrou muita gente nova e com capacidade não foi preciso aquela fase de dar formação e integrar. Como a preparação tem sido mais fácil temos de exigir mais uns dos outros. Um dos objetivos é subir à 1ª divisão. Jogar por jogar não é o nosso interesse.

R- O nascimento do futebol feminino no Vilanovense é uma prova que a modalidade está em expansão?

TR- De certa maneira sim. Tenho a ideia de que ano após ano o nosso universo está a aumentar, o que acaba por ser muito bom porque é isso que permite subir o nível de exigência e fazer com que as praticantes sejam mais evoluídas.

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R- Uma jogadora do Vilanovense pode acalentar a esperança de representar a Seleção Nacional?

TR- Isso depende de uma conjugação de fatores. A minha perspetiva é que, se este ano o Vilanovense conseguir concretizar a aspiração de subir à 1ª Divisão ou ficar nos primeiros três lugares da fase regular, acredito que algumas miúdas vão ter argumentos para representar uma seleção, mas para isso também preciso que a Federação também nos venha ver jogar. Muitas vezes a questão está aí. Espero ter gente a observar porque há aqui recursos com potencial para chegar a esse nível.

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