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Macau – Chegou a Macau em Setembro de 1982, há vinte anos, a convite de um colega de Coimbra, dr. Custódio Pais Rodrigues, que tinha vindo para o território dirigir um hospital e necessitava de um pediatra. "Foi uma surpresa", confessa, e depois de analisar os prós e os contras e discutido o assunto com a mulher e os filhos, com estes a terem muita influência, acabou por tomar a decisão e foram todos para Macau. A sogra também. Deixou para trás o cargo de chefe de serviço no Hospital Pediátrico de Coimbra, que ajudou a fundar.
Chama-se Jorge Humberto, é conhecido na história do futebol pelos golos que marcou na Académica nos anos 50 e 60 e, sobretudo, pela badalada transferência para o Inter de Milão, em 1961. O mais caricato desta reportagem é o facto de o termos encontrado de bata branca e estetoscópio pendurado nos ombros numa sala do departamento de Pediatria do Centro Hospitalar Conde São Januário, onde é consultor. Um exemplo perfeito de conjugação entre estudos e futebol.
"Sou de Cabo Verde, da ilha de São Vicente, onde vivi os meus primeiros 17 anos. Concluí o liceu e, em 1955, fui para Coimbra estudar e aí continuei a jogar futebol, como fazia na Associação Académica do Mindelo, sexta filial da Académica de Coimbra. Entrei nos juniores da Briosa, onde permaneci dois anos antes de saltar para os seniores", conta.
Tirou o curso de Medicina, especialidade de Pediatria, na Universidade de Coimbra. Concluiu-o em 1966, jogava ainda na Académica, mas só fez a especialidade dez anos depois, em 1976, pois meteu-se a guerra colonial pelo meio e teve de rumar até Angola.
É a "sua" Académica que lhe transmite pensamentos nostálgicos, de um tempo que não volta atrás: "Na altura a Académica era um grupo de estudantes, menos um ou dois vadios. Dali saíram fornadas de médicos, advogados e outras áreas. Jogando e estudando. Joguei com Artur Jorge, Manuel António, os irmãos Mário e Vítor Campos, o Mário Wilson, primeiro como jogador e depois como treinador, Abreu, Malícia, Chipenda, Araújo... Uns continuaram no futebol, outros formaram-se e seguiram depois outros caminhos. O Vítor Campos é hoje um anestesista de primeira no hospital da Universidade de Coimbra. O irmão Mário é o director do serviço de urologia. O Manuel António é o director do Instituto de Oncologia da Região Centro. São exemplos entre tantos que jogaram à bola, estudaram e tiveram um rico futuro profissional". Hoje em dia, os doutores da bola quase que desapareceram.
Três temporadas a jogar em Itália
Nascido em Cabo Verde a 17 de Fevereiro de 1938, Jorge Humberto chegou à Académica em Outubro de 1955, onde encontrou Rocha, Manuel António, Mário Wilson, Chipenda ou Maló. Em 1961, por indicação do vice belenense Baptista da Silva, amigo do técnico Helenio Herrera, foi a Milão testar no Inter, orientado pelo "mago". Com três golos num jogo-treino a passes de Luis Suarez, o avançado, cujas características de velocidade, capacidade de desmarcação e forte remate causavam impressão positiva, chegou ao Inter em Agosto de 61 (6 jogos/0 golos). Depois foi cedido ao Vicenza (25/5) por duas épocas e jogou outras duas na Académica.
Conciliar medicina e futebol
"Sempre fiz as duas coisas e, mesmo nas três épocas em Itália, fiz uma cadeira por ano. Matriculei-me na Universidade de Milão onde fiz uma e, quando fui para o Vicenza matriculei-me na de Pádua, onde fiz mais duas. Sempre quis manter vivos os estudos porque a carreira de futebolista não dava para fazer o que fazia em Coimbra. Quando voltei à Académica, em 1964, completei o que deixara para trás, pois rumei a Itália com o quinto ano de Medicina incompleto. Fui conciliando Medicina e futebol. Só após a lesão que me matou a carreira me voltei para a outra via."
Conversa com Oliveira num grupo de desconhecidos
Aproveitando a estada da selecção em Macau, Jorge Humberto deu um pulo ao hotel da equipa lusa. Aí reencontrou António Oliveira, com quem já tinha convivido aquando de um estágio do FC Porto no território, em 1996. O seleccionador é a única figura da comitiva que Humberto conhece. No dia seguinte, voltou ao hotel, mas como não estava Oliveira, não teve ninguém com quem falar.
Médicos lusos escasseiam nos dois hospitais de Macau
Jorge Humberto é consultor do departamento de Pediatria do Centro Hospitalar Conde São Januário, um dos dois hospitais de Macau. O outro já não tem médicos portugueses e a tendência parece alastrar. A nova directora do São Januário é chinesa e são cada vez menos os lusos no quadro. Consequências da alteração da administração do território.
Segundo jogador português no campeonato italiano
Ao contrário do que muitas vezes é documentado, Jorge Humberto não foi o primeiro português a jogar em Itália, onde esteve de 1961 a 1964. A honra pertenceu a Dos Santos, que representou a Lazio em 1908. Mas Humberto abriu caminho à era moderna da emigração de jogadores lusos. Eusébio não o seguiu por ser património de Estado.