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Vítor Paneira: «Saio como desejei, com toda a dignidade»

MÉDIO PÕE PONTO FINAL NUMA CARREIRA DE 18 ANOS

ESPERAVA-SE a decisão, muito embora, nestas coisas do futebol, neste “bichinho” que vai minando quem nele alguma vez entrou, nunca se possa garantir que o arrumar das botas acontece sempre que “se espera”. Porém, Vítor Manuel Costa Araújo, “registado” no desporto-rei como Vítor Paneira, nunca escondeu de ninguém que a sua “saída seria chancelada com a dignidade que a sua carreira sempre teve”. Por isso, nem ponta de admiração na decisão tomada do homem que por 44 vezes envergou a camisola da selecção nacional “A” e tem no seu “curriculum” títulos nacionais e, também, uma final da Taça dos Campeões, como se denominava na altura.

A Associação Académica de Coimbra OAF foi o último clube representado. Arribou a Coimbra como mais-valia para ajudar a Briosa a erguer-se da Liga secundária e subir ao topo do futebol português; não o conseguiu. A última desilusão de uma carreira que poucas conheceu, felizmente. Talvez por isso, uma partida marcada por alguma mágoa.

“Naturalmente que a despedida é sempre triste, mas sempre impus a mim próprio uma saída com a dignidade condizente à carreira que tive. Verdade que vim para Coimbra com o objectivo de ajudar a Académica a subir o degrau importante e merecido para a I Liga e parto sem ter concretizado esse desejo. É uma das maiores mágoas que me acompanha. Mas o futebol é assim, as coisas, esta época, não correram como todos queríamos e não poderia ficar consciente que a motivação para jogar já não tinha os níveis necessários a um rendimento pleno. A saudade mina a alma, mas é nestes momentos que temos de ser fortes e saber tomar as decisões que nos dignifiquem. Não posso esconder que algo de mim fica por aqui.”

– Uma carreira recheada de êxitos e algumas amarguras. Por exemplo, a saída do Benfica...
– E não só essa, confesso. Muito embora numa carreira de dezoito anos os momentos agradáveis hajam superado claramente os menos bons, não posso esquecer as situações desagradáveis que vivi e se uma delas foi essa, a minha saída do Benfica, a outra foi a saída do V. Guimarães. Se, no Benfica, fiquei marcado pela maneira como se deu e pelas consequências que teve, na do V. Guimarães também o inesperado da situação me marcou profundamente. Nunca me tinha passado pela cabeça sair, tanto mais que as quatro épocas realizadas tinham tido a qualidade mais do que suficiente para poder pensar na minha continuidade no clube. No entanto, quem anda no futebol deve estar preparado para tudo e não baixei os braços, procurando, em Coimbra, dar uma ajuda ao que todos sonhavam. Não conseguimos isso mas, no mínimo, fica a certeza de tudo termos feito para o conseguir.

– A mágoa do Benfica. Desde essa altura que não consegue um título...
– Julgo que o Benfica ainda está a sofrer, hoje, as consequências da política que traçou há sete anos, quando eu e outros jogadores fomos empurrados porta fora. Quando se destrói uma equipa campeã – já há exemplos mais recentes com o inêxito seguinte – e se procura, ano a ano, reconstruir esse passado, o resultado acaba sempre por ser um fracasso. Custa-me dizer isto mas é a realidade: desde essa altura o Benfica nunca mais se encontrou e toda a sua estrutura foi-se degradando progressivamente. E curiosamente ninguém refere quem deu o primeiro passo para o abismo. Recentemente o Toni disse uma grande verdade: o Benfica é um histórico mas não passa disso.

– Como a Académica...
– É um clube diferente, com uma mística própria, umas raízes que se alargam a todos os cantos do país. Não tem sido feliz nas últimas épocas, mau grado o excelente trabalho, por exemplo, do Carlos Garcia, a que só faltaram os resultados para ter o êxito merecido. Não subimos por pouco na época passada e, nesta que terminou, uma série de situações levou a que se mudasse de treinador por duas vezes: saiu o Carlos Garcia e entrou o Hassan que tentou dar a volta mas no seio da equipa havia reflexos negativos e nada conseguiu. Quando o João Alves chegou e assinou por uma época e meia, a intenção foi clara: tentar segurar a equipa na II Liga e, para a próxima temporada, apostar tudo na subida de divisão. E não tenho dúvidas que a Académica será um dos sérios candidatos a esse objectivo.

– Futuro: um Vítor Paneira treinador?
– É uma das possibilidades. Já estou credenciado para treinar qualquer equipa até à II Liga e ser adjunto na I Liga. Fiz essa preparação naturalmente e não vou forçar nada, fazer disto um cavalo de batalha. Se a oportunidade surgir, se as pessoas que me conhecem bem, como profissional e como homem, quiserem fazer essa aposta, estou preparado para isso. Será sempre uma possibilidade, acima de tudo porque quem andou tantos anos no futebol não consegue sair dele. Numa ou noutra função, o futebol faz parte da minha vida e não nego que quero continuar ligado a ele. De que maneira? Vamos ver. Ainda agora estou a dar as despedidas, não tenho pressa em pensar nessa nova vida a partir deste momento.

– Pelo que se ouve, a “escolinha” é agora que vai arrancar...
– Espero que esse sonho se realize rapidamente. É um projecto antigo, um sonho velho e se ainda não se concretizou foi porque surge sempre qualquer coisa a emperrá-lo.

– O quê?
– Quando as coisas não dependem só de quem idealiza o projecto, há sempre algo que trava o bom andamento. Espero, agora, que o bom senso impere, que olhem para esse projecto como algo diferente de uma escola de futebol e que pode contribuir, a muitos níveis, para um futuro diferente das crianças do Concelho de Famalicão. É que aquilo que está idealizado mexe com todas as áreas importantes para a educação das crianças. Daí o ter esperança que os “travões” deixem de existir.

Do Famalicão à Académica

Pinceladas breves de dúzia e meia de anos a respirar futebol. Vítor Paneira deita mão ao “filme” da vida e narra-o assim: “Comecei no Famalicão, fui para o Riopele, regressei a Famalicão, segui para o Vizela, depois Benfica, V. Guimarães e Académica. Uma curiosidade: com a excepção do Vizela, estive sempre mais do que uma época nos clubes por onde passei.

Entretanto, muitos momentos de alegria, muitas vitórias, muitas internacionalizações e, em termos de clubes, três títulos nacionais, uma Taça de Portugal, uma Supertaça e, claro, uma final na Taça dos Campeões. Quanto a golos marcados, não tenho contas feitas, mas seguramente dobraram a meia centena em mais de 300 jogos oficiais.

Foi uma carreira bonita e, por isso, o tal desejo de sair ‘pelo meu pé’, com a cara levantada e orgulhoso de tudo o que dei ao futebol!”

«Sofri muito pelo Vitória»

Nunca o escondeu: um dos seus amores chama-se Vitória de Guimarães. E nesta época, muito sofrimento lhe causou...

“Sofri e muito. O Vitória, ao longo destes anos, foi sempre uma equipa que lutou por objectivos bem definidos, bem traçados, de outra dimensão e, esta época, as coisas complicaram-se muito. Vi muitos jogos e senti que os níveis de ansiedade da equipa limitavam muito o seu rendimento. Felizmente que o final foi feliz e só resta tirar ilações de tudo quando foi vivido. Guimarães, como Coimbra, merece que a sua equipa mais representativa esteja nos patamares do topo e que as suas massas associativas tenham as alegrias que o seu apoio constante justifica.

É um desejo que expresso com votos que se concretize já na próxima temporada!”
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