Pedro Duarte: «Já prometi ao meu filho: vamos voltar a jogar futebol na rua»

Treinador do Estoril revela como vive o período de isolamento social e o desejo do filho para que tudo volte ao normal

• Foto: Vítor Chi

Pedro Duarte, treinador do Estoril, revelou, em entrevista ao site oficial da Liga Portugal, como tem vivido o período de confinamento social, face à pandemia de Covid-19.

O técnico, natural de Braga, assume aproveitar o tempo que atualmente dispõe com o filho Diogo, que ‘desespera’ para que tudo volte à normalidade. Para Pedro Duarte, o segredo é só um: a paciência.

Como tem sido lidar com esta situação?


"É um momento que tem tanto de difícil como de inesperado para toda a sociedade a nível mundial. Não é uma situação normal e custou-me numa primeira fase adaptar-me a esta nova realidade. Tento, acima de tudo, cumprir com aquilo que são as normas, os conselhos da DGS e do próprio Governo. Este é o jogo da paciência. Estamos em casa, cumprimos com essas mesmas regras, temos paciência, tentamos ocupar o tempo o mais possível. Sobretudo, tentamos perceber que é uma situação nova para todos."

De que forma o treinador de futebol pode rentabilizar o tempo livre?

"Ora, a minha rotina… Acordo às 8h, o que é ligeiramente diferente daquilo que faço quando estou em atividade. Tomo o meu pequeno-almoço e às 10h tenho o treino do Estoril Praia, pois estamos a fazer um trabalho com os jogadores no qual utilizamos videoconferência para podermos estar todos em grupo, mais próximos uns dos outros. Tentamos proporcionar aquilo que é normalmente o dia-a-dia do balneário. Temos ali 10/15 minutos em que podemos conversar entre todos e às 10h30 começa o treino. Confesso que, nos últimos treinos, também tenho aproveitado para treinar (risos)."

"Neste momento, estou a analisar jogadores de outros mercados, não o mercado português, mas de outros mercados. Obviamente que também já vi os jogos da minha equipa desde que a assumi, tentando perceber aquilo que tem sido bem feito e aquilo em que podemos melhorar através do visionamento desses jogos, e até mesmo das unidades de treino. Também estou a aproveitar para ver outros campeonatos. Neste momento, estou a ver alguns jogos da Liga italiana, pois sempre gostei do futebol italiano, ainda que tenha passado por momentos diferentes do futebol espanhol e mesmo do alemão e do português. Estou a aproveitar também para ver as dinâmicas e aquilo que tem sido o futebol italiano. Tenho preenchido o meu dia-a-dia desta forma."

Qual é o maior desafio nesta fase?

"É ocupar o tempo. Habitualmente tenho um dia muito longo, pois às 6h45/7h já estou acordado e o dia fica extremamente longo. A minha maior dificuldade foi ter de arranjar soluções, estratégias, criar rotinas, de me motivar para me manter ocupado no dia-a-dia. É muito diferente daquilo a que estou habituado. Gerir tanto tempo livre não é normal na minha atividade e no meu dia-a-dia. Faço o meu trabalho como treinador na mesma, sem o trabalho de campo, com análise de jogos, com análise de adversários, com análise de diferentes equipas de outros campeonatos. Tudo isto para me valorizar, para poder estar dentro daquilo que é a realidade do futebol."

O que tem procurado dizer/transmitir aos jogadores do Estoril?

"Não só o treinador Pedro Duarte, mas também a própria estrutura. Desde o início que a nossa preocupação foi dar segurança aos atletas para que não corressem riscos de contágio e criar-lhes condições para que não corressem esses riscos. Porque estamos perante atletas profissionais, obviamente não queremos pôr em risco não só a parte profissional deles e o futuro em termos desportivos, mas também a parte familiar, daí eu referir que não queríamos correr riscos. Falo com os jogadores de várias formas, por WhatsApp, por chamada. Temos aquela tal fase inicial do treino em que aproveitamos para conversar em bocadinho e tentamos dar-lhes alguma segurança, algo que acho ser importante neste momento. Dentro deste mundo novo em que estamos a viver, dar-lhes algum foco no trabalho. Temos treinado diariamente, procurando minimizar aquilo que é a ausência do nosso dia-a-dia, do nosso treino normal. Há trabalho a fazer e os jogadores têm tido um comportamento fantástico naquilo que é o cumprimento do que lhes pedimos."

Como gostaria de ver o desfecho do campeonato?

"Penso que todos os profissionais gostariam que o campeonato terminasse. Mas antes do campeonato terminar, acho que é importante, primeiro, terminarmos de vez ou minimizarmos o risco de contágio. Primeiro está a saúde, não só do atleta, mas também do homem e de toda a sociedade. O primeiro passo que temos de dar é minimizar o risco de contágio. Se houver essas condições, e porque acho que é justo, um campeonato tem de ter as equipas que sobem, as equipas que descem e tem que ter o campeão. Isto é competição e é disto que nós gostamos, é o que nos alimenta. Quando houver a garantia dessas condições e quando o risco de contágio for mínimo, então partirmos para o término do campeonato. Obviamente que o queremos fazer, que gostávamos de terminar o campeonato e com o público nas bancadas, mas não sabemos se vai ser possível. Há um grande mar de incertezas e de perguntas que se fazem… Neste momento não temos resposta, só o tempo as dará."

Coisas boas desta quarentena?

"Esta não é fácil. Não é fácil e é muito fácil… É uma contradição! Estar mais tempo com o meu filho é, para mim, a parte mais positiva da minha quarentena. Normalmente, com o trabalho, tenho muito menos tempo disponível para o meu filho. Ele é o mais prejudicado com a minha ausência e procuro estar a maior parte do tempo com ele. Ajudo-o com os trabalhos de casa, temos as nossas brincadeiras, os jogos de futebol, construo legos (risos), fazemos desenhos. Como o Diogo diz: "Gostava de ir para o campo, gostava de ir jogar à bola". Mas também é importante explicar às crianças que não é tempo de andarmos na rua, que é tempo de estarmos em casa, de brincarmos em casa. A seu tempo, já lhe prometi, vamos voltar a jogar futebol na rua e a ir aos campos de futebol. Vamos voltar a ser felizes."

Sugestões do mister para esta quarentena?

"Naturalmente que pego no meu exemplo. É importante termos tempo para ler, ver algumas séries e alguns filmes que normalmente não podemos ver, porque não temos tanto tempo devido à nossa atividade. Neste momento, estou a rever a minha série preferida pela quarta ou quinta vez: Prison Break! É a série que eu mais gosto. Volta e meia revejo, e agora como tenho muito tempo, estou a rever novamente."

Dicas/conselhos para não deixarmos que a impaciência e a saudade do futebol se apoderem de nós?

"É importante criarmos rotinas para nos mantermos focados, porque é muito fácil estarmos em casa, deixarmo-nos levar pela preguiça, passarmos muito tempo no sofá… Até a própria alimentação sofre alterações. Acho que é fundamental criarmos rotinas, do acordar, tomar o pequeno-almoço, de fazermos o nosso treino, é importante criarmos rotinas. Depende da área de intervenção e do trabalho de cada um de nós, mas devemos aproveitar para fazer outras coisas que normalmente não fazemos. Dentro desta dificuldade, é essencial tentarmos aproveitar o tempo que estamos em casa da melhor forma."

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