Jogadores insulares na selecção nacional desde 1926
O AVANÇADO açoriano Pauleta foi o último jogador insular a vestir a camisola das quinas (leva sete internacionalizações), mas não o primeiro. Esse foi José Ramos, o “Zé Pequeno”, que se estreou em 1926, com uma derrota contra a França. Até Pauleta contam-se dez jogadores de várias gerações a terem dado o seu contributo à mais representativa selecção de Portugal. A saber:
Artur de Sousa “Pinga” - Foi de todos eles o de melhor classe, podendo considerar-se o maior futebolista português da sua geração, nos anos de 30 e 40. Pouco depois da sua primeira internacionalização, em 1930, ainda com a camisola do clube madeirense, ingressou no FC Porto, onde permaneceu durante 15 épocas. Na sua carreira foi campeão 20 vezes (3 do Funchal, 13 do Porto, uma do antigo Campeonato de Portugal, uma do antigo Campeonato da Liga e duas do actual Campeonato Nacional - no qual disputou 109 jogos e marcou 36 golos). Uma classe à parte, na posição de interior-esquerdo, no antigo sistema do WM, indo abaixo e acima, na missão de condutor de jogo, com uma natural tendência para, nos momentos certos, alvejar as balizas contrárias. Figura inesquecível da Cidade Invicta até ao seu último dia de vida (12 de Julho de 1963) sempre amparado pelo FC Porto, que recebeu os restos mortais do saudoso desportista no mausoléu privativo do clube. Por último, já postumamente, o FC Porto prestou-lhe justa e merecida homenagem, dando o nome de Artur de Sousa “Pinga” à sua Sala Museu.
Manuel Passos - Antes de deixar o Machico, perto do Funchal, jogou pelo União da Madeira. Veio para Lisboa, para trabalhar na CUF. Duas épocas no clube da empresa -- o Unidos de Lisboa --, 17 jogos e depois adoeceu gravemente. Recolheu ao sanatório do Caramulo e esteve cinco anos afastado dos relvados, mas uma recuperação sensacional fê-lo ingressar num grande clube em 1949: o Sporting. Nove épocas na equipa dos “violinos”, 198 jogos e um golo, conquistando 5 títulos nacionais (48/49, 50/51, 51/52, 52/53 e 53/54) e uma Taça de Portugal (53/54). Defesa-central de boa categoria, um dos primeiros líberos do nosso futebol, atrás do outro central (Juca).
Muita experiência e o melhor sentido de posição, uma segurança quase inultrapassável a par de outros predicados como o da superior influência sobre todos os companheiros com a braçadeira de capitão da equipa leonina e da selecção de Portugal.
Carlos Pereira - Depois de ter alinhado no Marítimo, seu clube de origem, tomou o rumo do Porto, com destino ao Boavista, pelo qual alinhou apenas uma época, pois logo o FC Porto chamou-o para as suas fileiras. E foi com a camisola azul e branca que granjeou nome e popularidade, sendo, então, considerado um dos melhores centro-campistas portugueses. Deixou o seu nome ligado a três importantes triunfos: no primeiro Campeonato da Liga (34/35) e nos dois primeiros Campeonatos Nacionais (38/39 e 39/40). Mário Jorge Fernandes -- Jogador de uma geração bem recente (75/76 a 91/92), iniciada nas camadas jovens do Sporting Clube de Portugal.
Prometedora ascendência até à sua promoção a sénior, com uma pequena dose de sorte, em 79/80 (um jogo apenas, mas o suficiente para lhe dar direito à conquista do seu primeiro título de campeão nacional). Dois anos depois, já com a titularidade assegurada (20 jogos e 2 golos) repetiu a dose - sendo bicampeão nacional na última vez que o clube arrebatou o ceptro. Na I Divisão, pelo Sporting (16 épocas, quatro das quais nas camadas jovens), fez 190 jogos e 16 golos. O que adicionado aos 23 jogos e 1 golo, numa época cedido ao Beira Mar, totaliza 213 jogos e 17 golos.
Mário Lino -- Outro açoriano - este com o privilégio de ter feito parte da equipa do Sporting que conquistou o seu maior êxito internacional - a Taça dos Vencedores de Taças (63/64). Veio do Lusitânia dos Açores para Alvalade e aqui viveu os anos da sua consagração de futebolista: em nove épocas, 119 jogos e 4 golos no Campeonato Nacional. Títulos arrecadados por este defesa-direito de bom nível: 2 Campeonatos Nacionais (61/62 e 65/66), uma Taça de Portugal (62/63) e 3 Taças de Honra (61/62, 63/64 e 65/66).
Nélson Fernandes - O que mais camisolas vestiu (5) na sua longa carreira no escalão principal, chegando ao fim com 284 jogos disputados e quase uma centena de golos, precisamente 98. Títulos: no Campeonato Nacional -- 4, dois pelo Benfica (66/67 e 67/68) e dois pelo Sporting (69/70 e 73/74). Taça de Portugal -- 4, uma pelo Benfica (63/64) e três pelo Sporting (70/71, 72/73 e 73/74).
José Mota - Mais um madeirense que “aterrou” num clube secundário, o Estoril Praia. Chegou a Lisboa e foi um verdadeiro e inesperado tesouro com o raro condão de goleador. Em apenas cinco épocas somou quase tantos golos marcados (80) como jogos disputados (87). Um avançado-centro à moda antiga mas eficaz: lutava, corria e rematava certeiro.
Joaquim Teixeira - Uns chamavam-lhe o “Semilhas”; outros, o “Gazogéneo”; outros, ainda, o “Marreco” - as duas últimas pela sua total entrega e combatividade até ao derradeiro minuto e pelo jeito desengonçado que dava ao corpo no seu característico estilo de jogar. Um precioso interior-esquerdo que o Benfica herdou do Angústias (estranho nome de um clube dos Açores). Deixou bem suada a camisola encarnada em sete épocas, 87 jogos e 63 golos - o que, juntando aos números das suas últimas três temporadas no Vitória de Guimarães (54 jogos e 18 golos) - totalizam: 141 jogos e 81 golos. Títulos: 3 Campeonatos Nacionais (41/42, 42/43 e 44/45) e 3 Taças de Portugal (39/40, 42/43 e 43/44).
António Teixeira - Conhecido pela alcunha de “Camarão” marcou boa presença - como avançado-centro ou extremo - com características puramente ofensivas, no seu único clube de sempre: o Marítimo. Além disso, fez parte da equipa do Marítimo que, em 1926, conquistou o Campeonato de Portugal, vencendo o Belenenses, na final, por 2-0.
José Ramos - Uma carreira muito semelhante à de António Teixeira. Chamavam-lhe o “Zé Pequeno” por ser de baixa estatura. Extremo-direito, muito veloz. Também campeão de Portugal, em 1926 - deixando o seu nome na história como o primeiro futebolista nascido na ilha da Madeira a vestir a camisola das quinas, em 18 de Abril de 1926, frente à França. Foi o sétimo jogo da “equipa de todos nós”, disputou-se em Toulouse e... perdemos (2-4).
MARCO FREITAS ESTRELA NA LUZ
Ainda longe da projecção de "Pinga", Passos ou Carlos Pereira, os futebolistas oriundos das ilhas a militar em clubes da I Divisão continuam à procura de um lugar de destaque no futebol português. Marco Freitas, o médio que o Benfica emprestou a época passada ao Alverca, é o caso mais mediático dos actuais craques insulares, mas curiosamente, não nasceu em nenhuma ilha.
Filho de emigrantes madeirenses, Marco Freitas nasceu em Benguela (Angola) e ainda jovem andou pelo Panamá, onde se iniciou no futebol. As raízes madeirenses, todavia, falaram mais alto e o jogador regressou à Madeira ainda jovem, construindo uma carreira -- pelas camadas jovens do Machico e mais tarde no Nacional da Madeira (na Honra), até à "explosão" no V. Guimarães entre 95/96 e 97/98 -- que o levou para o Benfica, onde promete ser uma das opções mais válidas do técnico Jupp Heynckes.
Marco Freitas sucede na Luz a outro médio madeirense de grandes potencialidades, mas cuja aventura lisboeta não correu da melhor maneira: Paiva. Coincidência: Paiva e Marco Freitas actuaram na equipa vimaranense que alcançou o 3º lugar na época de 97/98.
Produto das escolas jovens do Marítimo, Paiva foi uma das peças nucleares dos verde-rubros nas espectaculares épocas de 92/93 e 93/94, sob a batuta do brasileiro Paulo Autuori, que garantiram aos madeirenses duas presenças consecutivas na Taça UEFA.
De resto, tem sido o Marítimo, o clube que mais jogadores insulares tem lançado no galarim nacional. O lateral-esquerdo Eusébio, e os médios Zeca e Bruno (todos naturais do Funchal) são os craques que se seguem, porventura a sonharem um dia vestir a camisola de um dos grandes, como aconteceu com o actual capitão maritimista Carlos Jorge nas épocas de 92/93 e 93/94.
OS INTERNACIONAIS DAS ILHAS
Jogador - Clubes - Internacionalizações
"PINGA" - Marítimo e FC Porto - 21
PASSOS - Unidos Lisboa e Sporting - 17
CARLOS PEREIRA - FC Porto e Unidos Lisboa - 13
MÁRIO JORGE Sporting, Beira Mar e E. Amadora - 9
PAULETA - Estoril, Salamanca (Esp.) e D. Coruña (Esp.) - 7
MÁRIO LINO - Sporting - 6
NÉLSON FERNANDES - Benfica, Sporting, Varzim e Marítimo - 3
JOSÉ MOTA - Estoril - 2
JOAQUIM TEIXEIRA Benfica e V. Guimarães - 1
ANTÓNIO TEIXEIRA - Marítimo e FC Porto - 1
JOSÉ RAMOS - Marítimo - 1
HENRIQUE PARREIRÃO