José Peseiro: «Sou treinador de ataque e gosto de espectáculo»

RECOLOCOU MADEIRENSES NA I LIGA

Rosto de uma nova geração de treinadores, José Peseiro conseguiu o seu grande objectivo de chegar à I Liga. Recorda com orgulho o percurso da equipa e acredita que, na próxima, vai manter a identidade ofensiva, embora tudo dependa dos recursos que lhe forem dados. É que, como dizia o seu avô, numa quinta de lobos não se pode ser cordeiro
José Peseiro: «Sou treinador de ataque e gosto de espectáculo» • Foto: Ilhapress/Hélder Santos

JOSÉ Peseiro vai ficar na história do Nacional como o técnico que reconduziu o emblema madeirense à I Liga, dez anos depois da sua última participação.

Foi o culminar de um trabalho que começou há três anos, a partir da II Divisão B, confirmando a competência de um entusiasta pelo futebol, que foi subindo passo a passo até atingir o topo da carreira. E, para o ano, quer fazer boa figura na sua estreia entre os maiores do futebol português.

– Quando, há cinco anos, falhou a subida à II Liga com o Oriental na última jornada, precisamente na Madeira, estava longe de imaginar que passado esse tempo estaria na I Liga?
– Nas horas antes deste último jogo lembrei-me disso, mas acreditei no critério da compensação. Nem sempre o azar está de um lado e a felicidade do outro. Mas o sonho da I Liga é uma coisa muito mais antiga. Quando entrei para o curso e iniciei a actividade como treinador perspectivei esse desejo e as coisas foram-se aproximando com o passar dos anos. Nesse ano com o Oriental senti um passo atrás, mas depois vim para o Nacional e no primeiro dia em que falei com o presidente vi que esse sonho era possível. Percebi que era um clube com dimensão histórica, com passado de I Liga, e encontrei uma vontade enorme de subir até chegar ao topo.

– Numa época marcada pela extrema competitividade, o Nacional andou sempre lá em cima, mas no mês de Março tremeu. Nunca lhe passou pela cabeça que se repetisse o filme da época passada?
– A história deste campeonato é um pouco diferente, pois no ano passado chegámos aos primeiros lugares na 14ª jornada e agora só estivemos fora deles à 6ª e 7ª jornadas. Mas também sabia que esta equipa era mais forte que a anterior, em aspectos que achávamos importantes quanto ao nosso modelo de jogo. Em Março nunca senti que íamos falhar a subida, mas houve alturas de alguma apreensão. Não teve a ver com as condições internas, ou seja a qualidade do nosso jogo e dos jogadores, pois ninguém pode colocar em causa a qualidade das nossas exibições nesse mês. Não tiveram foi correspondência em termos de resultado. Lembro-me que maus jogos fizemos na Naval, em Moreira de Cónegos e em Espinho na segunda parte. Os resultados é que não foram bons, por três razões: porque é futebol e nem sempre quem joga ou remata mais ganha, porque houve um défice de finalização – precisávamos, às vezes, de seis a nove remates para fazer um golo – e devido aos erros dos árbitros.

– O Nacional queixou-se muito das arbitragens...
– É um dado indesmentível, pois houve erros profundamente marcados contra a nossa equipa. Digo isto sem penalizar a honestidade ou a dignidade desses árbitros, pois assumo que isto é um jogo e há erros de todas as partes. Mas há um dado essencial: fomos a equipa com mais caudal ofensivo, fora e em casa, e basta ver como jogaram aqui a Académica, o Amadora, o Campomaiorense e o Moreirense. Ou seja, quando o Nacional joga mais perto da área contrária e tem só três "penalties" a favor, enquanto a Académica tem 18 e o Moreirense 14, algo não bate certo...

– Deduz-se que, para ser coerente, vai voltar a jogar um futebol de ataque na I Liga. Será assim?
– Neste momento, há duas situações que se podem contrapor. Primeiro, a identidade deste clube e a atitude do presidente é de ataque, pois quer ser o melhor da Madeira, não tem rodeios e arrisca – e por isso, se calhar, escolheu este treinador, pois sabe que joga ao ataque, apesar de às vezes expor-se demasiado e perder por 1--0, o que é uma "barraca". É por isso que estou aqui, pois sou um treinador de ataque, gosto de defender longe da minha baliza, de ter mais cantos, mais livres e remates. Mas aqui há outra coisa, que são os recursos disponíveis para o ano. Podem não permitir isto. Não estou a ver na I Liga, a não ser no Benfica, Sporting e FC Porto, recursos humanos disponíveis para um treinador assumir as despesas de um jogo como nós fizemos na II Liga. Aliás, fomos a única equipa a jogar assim, pois nem a Académica ou o Moreirense o faziam. Por isso, temos de equacionar se em certos jogos esse é, ou não, o modelo ideal. Queremos que as pessoas vão ao estádio para ver espectáculo, mas, como gostava de dizer o meu avô, numa quinta de lobos não se pode ser cordeiro.

– Ou seja, também não pode descurar a manutenção na I Liga para o ano...
– Exactamente. Temos de encontrar uma simbiose entre as duas coisas, atendendo às características dos jogadores que nós temos, que são de ataque continuado. Neste momento, queremos encontrar jogadores mais agressivos e competitivos, que consolidem os aspectos defensivos essenciais, mas sem perder os princípios.

– Considera-se um dos rostos de uma nova geração, com ideias mais abertas sobre o jogo?
– Nada é absoluto, tudo é relativo e tenho de relativizar as questões. Eu não posso criticar os treinadores defensivos, quando, se calhar, não têm os tais recursos humanos. Por outro lado, houve um 25 de Abril, uma abertura e os jovens deste tempo não são o que eram. Éramos um povo profundamente triste, mais defensivo e não podíamos ter tudo o que queríamos. Nesta altura, eu digo ao meu filho "não sais" e ele responde: "Vou sair, vou!" Eu não fazia isso ao meu pai. Hoje as actividades de risco são muitas e é com essa filosofia que vamos aprendendo e evoluindo. Não está em causa o valor dos treinadores que tivemos, pois se temos um futebol tão bom, vamos ao Mundial e temos tantos jogadores por aí fora, deve-se também a essas pessoas.

– No ano passado teve convites para sair e não quis. Agora, antes do fim da época, voltou a dizer não à União de Leiria...
– Recusei negociar com qualquer clube, numa fase que pensava ser determinante para o Nacional. Senti uma apreensão pela ansiedade criada pelos erros de arbitragem, havia jogadores meus a comentar que isto estava como no ano passado e que tinha voltado o "fantasma". Perante tudo isto, negociar um contrato era uma coisa absolutamente anormal naquela altura. Ia desestabilizar a minha equipa, começando a pensar em duas coisas, em vez de uma.

– Foi um risco para si, pois o Nacional podia não subir à I Liga, concorda?
– Mas eu sempre acreditei e tive a certeza da subida. Acho que todas as pessoas têm metas, mas pensar no futuro esquecendo o momento presente é algo que discordo. Mas imagine que não subia e o Nacional mandava-me embora. Entre o risco de acontecer isto e de não subir de divisão encetando negociações com outro clube, preferi assim.

Mestrado adiado pela carreira

– No meio deste frenesim, já concluiu o seu mestrado?
– Estou na Faculdade de Motricidade Humana a tirar o Mestrado de Alto Rendimento e, tal como há um mês e meio decidi não negociar com ninguém, há um mês e meio tenho as cadeiras todas feitas e faltam-me só três trabalhos e o projecto. Tinha datas para apresentar isso e falei com o director do mestrado nessa altura, dizendo-lhe que estava numa situação importantíssima da minha carreira e extremamente pressionado para a minha disponibilidade. Quis tempo e deram-me, até porque a Faculdade achou que era importante um seu "produto" subir de divisão. Já tive as aulas todas e aprendi o que tinha a aprender. Apresentei o projecto da tese, que tem a ver com a minha equipa, e espero que tudo se concretize em breve.

"É importante que haja rivalidade"

– Na I Liga acentua-se a questão da rivalidade com o Marítimo. Sente-a?
– Desde que cheguei. As rivalidades são sempre boas. Saudáveis? Só o vão ser quando vivermos num mundo mais justo. Como é que podemos querer que as rivalidades sejam coisas boas, quando noutras actividades da vida não o são? Como é que o micro-sistema que é o futebol pode ser melhor que o macro-sistema que é a nossa sociedade? Aqui sinto que há uma preferência evidente pelo Marítimo, que é normal por haver mais pessoas adeptas do clube. Mas ainda não vi ninguém a brigar ou a matar-se por causa do Nacional e do Marítimo...

– Os "derbies" vão ter um clima especial, não acha?
– Todos estamos a desejar isso. É importante que haja rivalidade. O próprio presidente do Sporting disse, há pouco tempo, que era bom que o Benfica fosse mais forte. Na defesa do espectáculo, acho que é importante que o Nacional se aproxime do Marítimo.

Trabalho a prazo dá resultados

– Esta estabilidade que conquistou no Nacional – vai para quatro épocas – é muito parecida com a do seu amigo Nelo Vingada no Marítimo. Acha que na Madeira dá-se um exemplo de viragem?
– Concordo com projectos a longo termo, mas ao mesmo tempo reconheço que, numa modalidade como esta, às vezes os treinadores têm de sair, quando não há uma empatia positiva. Agora, estão aí as provas do trabalho que o prof. Vingada está a fazer no Marítimo – vai para a sua quinta época. O trabalho que o prof. José Mota fez no Paços de Ferreira é outro exemplo. Estava para descer de divisão e o presidente, em vez de o mandar embora fez um estágio de cinco dias e deu resultado. A verdade é que todas as equipas que desceram de divisão mandaram o treinador embora. E ainda não houve quem mantivesse o treinador até final e descesse. A questão destes quatro anos no Nacional tem a ver com a empatia que tenho com este clube, pela forma como me tratam. Há uma relação não só profissional como sentimental. A Madeira em si dá-nos uma certa protecção, com um envolvimento muito próprio.

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