Mauro: «Eu só queria o Belenenses»

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Bruno nunca viu o pai jogar à bola, mas as botas tamanho 44 penduradas na porta do quarto davam-lhe asas à imaginação. As fotografias guardadas religiosamente ajudavam-no a formar a imagem de Laurindo enquanto jogador que vestiu as camisolas do Belenenses (quase toda a carreira), FC Porto e Beira-Mar. A paixão pela equipa da cruz de Cristo passou de progenitor para filho e Bruno, que um dia viria a ser conhecido pelo segundo nome, Mauro, só pensava em crescer para encher aquelas botas e tomar o rumo do Restelo. "O Belenenses era e é o clube do meu coração e nunca pensei em jogar noutro", afirma, convicto, ao mesmo tempo que sorri ironicamente ao recordar as voltas que a carreira deu para o afastar mais e mais do sonho.

O jovem Bruno nasceu com o futebol na família, mas também com os estudos. "Tenho um tio com curso superior em Economia, uma tia que 'tirou' Medicina e o meu irmão foi a Londres acabar "marketing" e publicidade. Há muitos intelectuais entre os meus parentes, mas eu parei no 1º ano de electrotecnia. O futebol sempre foi mais importante, embora o meu pai nunca tenha pressionado os filhos a seguirem a profissão. Pelo contrário, dizia-nos para estudar." O bichinho dos livros ainda morde num desejo que apenas sussurra por agora: "Quero tirar o curso de Psicologia, quando terminar a carreira."

Nasceu em Lisboa em 1973, mas não se lembra da capital portuguesa nos tempos da Revolução dos Cravos. "Com quatro anos fui para Angola, pois o meu pai, imbuído de patriotismo e de vontade de colaborar na recuperação do país, vendeu tudo o que tinha para retomar a vida lá." Enquanto os pais fechavam as contas em Portugal, Bruno e o irmão Hélder, quatro anos mais velho, juntaram-se aos avós na cidade do Lobito e lá ficaram três anos.

Na baliza

A família reunida rumou a Luanda e a vida da capital alterou radicalmente os hábitos de Bruno. "Muita coisa aconteceu, desde a morte de um tio muito chegado, com leucemia, à separação dos meus pais. Aquele período, apesar da adversidade, moldou positivamente a minha personalidade." A bola foi um refúgio constante. Não a de trapos, mas daquelas a sério. "Era um privilegiado. Até tinha botas de verdade, algo que me diferenciava. Jogava com uma bota no pé esquerdo e uma sapatilha no direito e emprestava a bota direita a um amigo, o Irineu, que tinha um pontapé destro muito forte." Viveu na Rua Samba, no Bairro Azul.

Começou pela baliza porque detestava sofrer golos e tinha bons atacantes na frente mas a impaciência fê-lo desistir da ideia. Com a mãe Susana, hospedeira da TAG, a incitá-lo aos estudos, Bruno decidiu que o seu destino estava em Portugal. Foi treinar uma semana no ASA, a fim de provar à mãe que a ideia do futebol tinha pernas para andar. O treinador gostou, disse-o à mãe, e esta lá se convenceu em deixar o filho seguir para Lisboa, a fim de estudar e jogar futebol, na procura da sua verdadeira vocação. Mas a cabeça de Bruno, então com 16 anos, já estava no Estádio do Restelo.

Restelo sempre longe

Mal pousou as malas em casa de um primo, no Cacém, correu a agarrar o sonho. António Silva e Nuno Cristóvão, responsáveis pelos juniores do Belenenses, só souberam que Bruno era filho de Laurindo um ano após terem dado o aval para a sua contratação. "Não quis usar o nome do meu pai para ganhar favores. Sempre pensei numa carreira em que não fariam comparações."

Na equipa jogava Bruno Pereira e foi-lhe proposto ficar a chamar-se de Bruno II. Mas o bilhete de identidade tinha uma solução melhor e encontrou o nome de guerra: Mauro. A adaptação a Lisboa, "uma sociedade mais pressionante", não foi fácil, mas os dois anos que passou nos juniores serviram para alimentar o sonho.

Chegou então a hora porque sempre sonhou. As botas do pai estavam preparadas para voltar à actividade. Depois de algumas convocatórias animadoras à primeira equipa, depois das conversas positivas da mãe com o departamento de futebol, a assinatura do contrato de sénior seria apenas um pró-forma. Mauro esperou, esperou, até que o sonho lhe arrebentou na cara. "Não tinha empresário, não sabia o que era preciso para sobreviver no futebol português, era muito ingénuo nessas coisas e quando dei por mim, estava sem clube, à espera de um contrato que nunca veio. Fui para Almeirim."

As dez vidas de um saltimbanco

92/93 U. ALMEIRIM (Reg.)

"Encontrei boa gente ali, como o treinador Jorge Coutinho. Recebi o meu primeiro salário sénior: 90 contos, mais prémio de jogo, mais alimentação, mais alojamento. Deu para juntar e ir a Angola de férias. Subimos de divisão e marquei 26 golos"

93/94 AC. VISEU (II)

"Foi um salto para a II Honra. Assinei por três anos, mas só cumpri um. Fiquei depois à espera de uma complicada rescisão para rumar ao D. Chaves, mas perdi parte da época e acabei na Naval"

94/95 NAVAL (II B)

"Casei-me na Figueira da Foz e conseguiu um bom ano desportivo. Subimos de divisão no campo mas perdemos na secretaria por utilização ilegal, disseram, de um jogador"

95/96 FARENSE (I)

"O clube parecia numa boa situação financeira – vendeu o Hassan e o King ao Benfica – e participou na Taça UEFA. Joguei apenas duas vezes e pedi para ser emprestado em Dezembro, uma decisão não compreendida pela minha mãe e padrasto"

95/96 SP. LAMEGO (II B)

"Fui bem tratado, mas se calhar deveria ter ficado em Faro e esperar por uma oportunidade. Conheci o guarda-redes Pinho, que reencontrei no Paços de Ferreira, e quase eliminámos o FC Porto da Taça"

96/97 SP. COVILHÃ (II)

"Um ano feliz, pelo nascimento da minha filha Jânia. Em termos desportivos, correu normalmente, pois joguei com regularidade"

97/98 e 98/99 TORREENSE (II e II B)

"Lesionei-me gravemente no final da primeira época, mas gostei do técnico António Medeiros, que me deu tranquilidade e ajudou-me com os seus conhecimentos do mundo do futebol. E fomos ganhar ao FC Porto, nas Antas, para a Taça"

99/00 LUSITÂNIA AÇORES (II B)

"Encontrei excelentes condições de trabalho na ilha Terceira e tinha o mar para me alegrar. Joguei bem e tive a sorte do Jaime Pacheco ter assistido a uma partida e gostado do que viu. Elogiou-me publicamente"

99/00 e 00/01 PENAFIEL (II)

"Em Março de 2000 deixei os Açores, pois o Boavista queria seguir as minhas exibições mais de perto. O técnico Luís Campos marcou-me. Acabei mesmo por assinar pelos axadrezados, mas não fiquei no plantel e voltei a Penafiel, emprestado"

01/02 PAÇOS DE FERREIRA (I)

"Fui incluído no negócio de Glauber e o Boavista cedeu-me definitivamente. Em Paços de Ferreira encontrei o meu equilíbrio. A época podia ter corrido melhor em termos individuais"

Ironia do destino

A carreira de Mauro, como pode ser visto na cronologia, abarcou já dez clubes, espalhados pelo país, incluindo ilhas. Nunca desanimou, dada a sua forma positiva e tranquila de encarar a vida e sempre manteve a esperança de, um dia, fazer algo de notável na profissão que escolheu. Marcou três golos ao Sporting.

"É engraçada esta vida. Andei a sonhar em jogar para sempre no Belenenses e acabei a trocar de clube ano após ano, pelo país inteiro. Mas o mais irónico foi a minha estreia na I Liga. Joguei pelo Farense no... Restelo, ante o meu Belenenses. E perdi." Como o sonho. Depois de amanhã, Mauro jogará no Restelo.

Pai estreou-se a ganhar 4-0 ao Sporting mas não marcou

Laurindo, pai de Mauro, estreou-se na I Divisão portuguesa a 12 de Maio de 1968, com a camisola do Belenenses. O adversário foi o Sporting e o resultado idêntico ao ocorrido em Paços de Ferreira: 4-0. Embora Laurindo não tenha marcado qualquer golo – ficaram a cargo de Sérgio, Ernesto (2) e Lua –, o angolano realizou uma boa exibição e prometeu qualidade para a época seguinte, já que a partida do Restelo foi disputada na última jornada da prova, ganha pelo Benfica.

"Nunca vi o meu pai jogar, mas as pessoas que o viram dizem-me que não tenho o mesmo estilo em campo." Laurindo foi um extremo veloz que jogou na selecção portuguesa, ganhou o seu espaço na história do Belenenses e incutiu a paixão pelo clube da cruz de Cristo no filho.

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