Fernando Rocha: «A Europa daqui a quatro anos»

Fernando Rocha: «A Europa daqui a quatro anos»

RECORD –A completar quatro anos como presidente do Portimonense, está a meio ou fim do caminho?
FERNANDO ROCHA – Nunca podemos dizer que estamos no início, no meio ou no fim de um percurso. Personificamos um projeto concebido há perto de quatro anos e cujo sucesso está à vista. Felizmente as coisas correram bem porque, quando tomámos posse, em outubro de 2006, uma das promessas que fiz foi a de que, se o clube não descesse no primeiro ano, se houvesse estabilidade e as forças vivas da cidade nos ajudassem, o Portimonense teria condições para subir de divisão ao fim de três anos. Foi isso que aconteceu. Agora é outro ciclo que está a começar.

R – Assustou-se quando tomou conta dos destinos do clube?
FR –
A situação era muito complicada. Diria que era pior do que eu pensava e ao dizê-lo não estou a criticar o meu antecessor (João Sintra), que fez o melhor na defesa dos interesses do clube. As coisas não lhe correram bem e a gente sabe que ideias boas, por circunstâncias várias, podem terminar mal ou até mesmo numa desgraça. Quando chegámos o Portimonense vivia sem dignidade e muita gente admitia mesmo o seu fim. Aceitei o desafio, principalmente porque consegui formar uma equipa dirigente que acreditou ser possível dar a volta àquela situação. Começámos então uma luta da qual colhemos o fruto mais desejado ao fim de quatro anos.

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R – A salvação do clube é tanto mais meritória se atendermos ao facto de ter vivido na Liga de Honra...
FR – Trabalho desde os 17 anos e sei o que é dirigir empresas. E foi essa experiência que me orientou quando cheguei ao Portimonense. Quando tomei posse havia duas hipóteses: deixávamos o clube descer de divisão (o mais racional para criarmos alicerces e podermos depois iniciar uma nova caminhada) ou aceitávamos o desafio, andávamos para a frente e recusávamos ser a comissão liquidatária. Acreditámos na segunda possibilidade.

R – Era difícil fazê-lo naquela altura?
FR – Sem dúvida. Quando tentei convencer os meus companheiros de direção de que era possível ter êxito e de que o clube tinha futuro, fiz questão de acrescentar que isso só seria possível se todos remássemos para o mesmo lado e se a cidade cumprisse o que nos ia prometendo. Foi isso que aconteceu.

R – Chega à Liga principal com uma situação financeira estável?
FR – Não, de forma alguma. O Portimonense continua com muitos problemas. Há quatro anos a situação era muito má, hoje não é boa mas deixou de ser dramática. Depois de acabarmos este mandato, e já solicitei ao senhor presidente da AG para marcar eleições que deverão ter lugar no próximo mês de novembro, a vida do Portimonense será mais estável. Mesmo com dívidas, que hão-de ser pagas, a situação é totalmente diferente. Quando me falava há pouco da Liga de Honra, esse é o grande problema dos clubes portugueses.

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R – O seu otimismo resulta do facto de estar no primeiro escalão?
FR –
É muito por isso... Alguém terá de pensar nesta situação: a Liga de Honra não tem condições de sobreviver neste formato, porque os clubes não vão resistir. A nova direção da LPFP, presidida por Fernando Gomes, que é um dirigente experiente, terá de resolver esta situação. A Liga de Honra, tal como está organizada, não serve aos clubes.

R – Defende uma divisão Norte/Sul?
FR – Já refleti sobre isso e concluí que, apesar de tudo, deve ser uma competição nacional. Creio que deve ser repensada em relação aos apoios. É incrível a diferença das receitas garantidas entre a primeira e a segunda ligas. Os clubes da Honra não têm fontes de rendimento que lhes dê qualidade de vida. O mais importante para o Portimonense foi subir de divisão porque, caso contrário, seria muito complicado prosseguir o nosso trabalho.

R – A adesão dos sócios é a esperada?
FR –
Portimão é uma cidade única. Vim para aqui há 20 anos, pelo que me considero tão ou mais portimonense como os que cá nasceram. E digo que é o melhor sítio do Mundo para viver. Mas também tem alguns inconvenientes. Os cidadãos e adeptos devem pensar que o clube resolveu todos os seus problemas porque, mesmo reconhecendo a euforia que marcou a subida e a campanha posterior que levámos a cabo para aumentar a família, só entraram 615 novos sócios, o que é muito pouco para as nossas expectativas.

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R – Podemos concluir que o Portimonense veio para ficar na Liga?
FR –
Se fosse eu a decidir, não tenha dúvidas, ficaria já com um lugar cativo. Mas o futebol tem o encanto da incerteza e por isso não podemos, a esta distância, traçar definitivamente o nosso destino.

R – Que objetivos para esta época?
FR – O Portimonense é candidato à descida, tal como o Beira-Mar, porque ambos subiram na época passada. Vamos lutar contra a história e a estatística, repetindo no fundo o que já fizemos em 2009/10, quando contrariámos as previsões e acabámos por subir.

R – Nunca assumiu ser candidato...
FR –
Não tínhamos condições para assumir a candidatura. Agora o futebol não é uma ciência exata e o dinheiro não é tudo na construção de uma equipa. O futebol também é a solidez do grupo e, nesse capítulo, éramos dos mais fortes. Ao fim de quatro jornadas na frente fizemos passar a mensagem para o interior da equipa que, a partir desse momento, era “só” manter. Deixaram-nos habituar àquela posição, de tal forma que, no fim, era um crime não estarmos lá.

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R – Que desafio coloca ao Portimonense para os próximos anos?
FR –
Coloco um desafio igual ao de há quatro anos, quando tomei posse. Se o Portimonense não descer de divisão nesta época, e penso que não vai descer, teremos condições para nos mantermos na Liga principal durante muitos anos. E mais: dentro de quatro anos, o mesmo tempo que demorámos a concluir o ciclo que nos trouxe ao primeiro escalão, acredito que lutaremos pelas competições europeias.

R – E se descer já nesta temporada?
FR – Isso é a última coisa que me passa pela cabeça. Nesse caso, o Portimonense iria passar por dificuldades muito grandes, agravadas pelos problemas que já referi na Liga de Honra. Queremos salvar-nos agora e queremos a Europa dentro de quatro anos

R – Acredita mesmo que pode lutar pela Europa?
FR – Não é utópico pensar nisso. O António Salvador também disse em 2003 que o Sp. Braga chegaria à Liga dos Campeões em sete anos. E chegou. Entre amigos costumo dizer que “quando for grande quero ser como o Sp. Braga”. É um exemplo perfeito de boa gestão em Portugal e no Mundo. É a prova de grande liderança do presidente, da direção que trabalha com ele e do entendimento conseguido com a câmara e com todas as forças da cidade. Se me perguntasse agora o que gostaria de alcançar, responder-lhe-ia que desejava que o Portimonense fosse um segundo Sp. Braga. Temos condições para ser um médio clube e, mais tarde, transformarmo-nos mesmo num grande clube.

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R – Falou do apoio da câmara como uma das razões do sucesso do Sp. Braga. E a câmara de Portimão?
FR – Temos excelentes relações com a CM de Portimão, que nos tem apoiado bastante. Mas também costumo dizer que não fazem mais do que a obrigação, porque é uma relação recíproca e nós também andamos a servir a cidade. Prova de que não somos apenas futebol sénior, temos cerca de 800 miúdos a praticar desporto, e só não temos mais porque faltam-nos condições – se tivéssemos mais um relvado ou sintético chegaríamos aos mil praticantes. Isto prova que desempenhamos um papel na vida da cidade.

«Litos tem sido o melhor do Mundo»

R – Litos foi uma das suas melhores apostas?
FR – Para o Portimonense, o Litos tem sido o melhor treinador do Mundo. Fez trabalho, subiu de divisão e as coisas continuam a correr muito bem. Como pessoa é excelente, tem boa formação e é fácil tratar dos problemas com ele. Uma das mais-valias que trouxe foi uma imagem diferente para o clube, pautada pelo bom relacionamento com toda a gente, evitando guerras desnecessárias. Era isso mesmo que eu queria, porque o treinador orienta a equipa mas também é um rosto do clube. Espero que ele continue a ser muito feliz aqui.

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R – Como recorda o momento da chegada dele para render Lito Vidigal?
FR – Foi uma situação normal no futebol e que está resolvida. O Lito Vidigal quis sair mesmo depois de se provar que nada lhe devíamos. Nestas coisas é como as mulheres grávidas: estão ou não estão. Nós devíamos ou não devíamos um cêntimo ao Lito Vidigal? Não devíamos, ponto final parágrafo. Podíamos ter encontrado forma diferente para o divórcio, não foi possível, paciência, já lá vai...

R – Mas não é fácil mudar de treinador de forma tão abrupta numa fase tão prematura da época...
FR – A vida de um clube é assim mesmo e os dirigentes estão cá para isso, para resolver problemas. Às vezes as coisas parecem estar todas bem e, de repente, tudo nos corre mal; e, noutras, parece que o céu vai cair-nos em cima e conseguimos não só sobreviver como ser muito felizes.

R – Portimão foi trampolim para treinadores como Artur Jorge, Manuel José, Vítor Oliveira, Manuel Cajuda, entre outros. Vê em Litos talento para lhes seguir as pisadas?
FR – Se for feliz nesta época tem condições para sair fortalecido como treinador. Depois poderá ficar ou sair para outro clube com mais aspirações. Sabemos que é um profissional atualizado nos conhecimentos, que tem ideias próprias e sabe o que faz. Esperamos ser ainda mais felizes no futuro.

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«Estádio do Algarve é campo neutro para nós»

R – Que importância atribui ao facto de o Portimonense ter de jogar no Estádio do Algarve nestas primeiras jornadas?
FR – É muito relevante, como devem calcular.

R – Do ponto de vista desportivo o balanço é de fugir porque, em nove jogos, o saldo é de seis derrotas e três empates...
FR –
Pois, mas isso é estatística e espero contrariá-la já com o Rio Ave. Isso não impede que reconheçamos a diferença entre jogar no Estádio do Algarve e fazê-lo na nossa casa. Não há comparação. Costumo dizer que não há pior situação do que esta, porque não é carne nem peixe. Quando jogamos em casa assumimos a vantagem de termos o nosso público a apoiar-nos; quando vamos fora preparamo-nos para as dificuldades que vamos enfrentar e utilizamos outras armas que, espero, nos darão muitos pontos nesta temporada. Ora o Estádio do Algarve é campo neutro para nós.

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R – Admitiu que o primeiro jogo em casa seria com o Benfica. Essa hipótese é viável?
FR – Infelizmente não. Começámos as obras com uma remodelação que julgávamos ser suficiente para cumprir as obrigações impostas pela Liga. Só que, depois disso, verificámos que a bancada nascente, isto é, na dos não sócios estava cheia de problemas e incapaz de receber pessoas. A partir daí começou uma nova obra e, pelo facto de o recinto ser camarário, foi a CM de Portimão que assumiu a responsabilidade, tendo de cumprir todos os formalismos habituais e que são muito morosos. Por isso, penso que só lá para dezembro poderemos jogar na nossa casa.

R – O jogo com o Rio Ave é fundamental para o Portimonense?
FR – Todos os jogos são. Andámos três anos a olhar para cima, vivendo nos últimos lugares, a sofrer, e no fim conseguimos salvar-nos e resolver os nossos problemas. Este ano vai ser de sofrimento, claro, mas passámos a mensagem de responsabilidade aos jogadores: temos sempre de ganhar, mais ainda a adversários diretos.

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