A batalha dos golos
O Benfica beneficiou de três penáltis (7-1) mas o FC Porto (3-0) foi campeão nacional...
FC Porto e Sporting jogam o acesso às meias-finais da Taça da Liga, dependentes de vencerem os respetivos jogos mas, pormenorizando ainda mais, dos golos que marcarem a Marítimo e Penafiel, respetivamente. Numa luta direta assumida à distância, a única vantagem prévia pertence aos dragões, porque entram em campo com mais um golo do que os rivais verdes e brancos. A situação remete para outros tempos. A mais famosa aconteceu a 22 de março de 1959 e seria eternizada como “caso Calabote”. Uma história que podia ser argumento de um filme policial e que oscila entre suspeitas (não confirmadas) de favorecimento arbitral e toda uma série de peripécias à volta de um célebre jogo na Luz.
FC Porto (jogava com o Torreense) e Benfica (recebia a CUF) entraram para a última jornada em igualdade pontual mas com vantagem azul e branca de quatro golos. A lenda sugere manobras que passaram pela interferência do árbitro na Luz (três penáltis assinalados a favor do Benfica e cerca de sete minutos de compensação concedidos na fase final do encontro) e pressões encarnadas sobre a equipa da CUF (tendo como alvo o guarda-redes Gama, que seria substituído depois do 5-0). A imprensa da época refere apenas dúvidas sobre alguns lances, mas em momento nenhum sugere a hipótese de escândalo.
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Três penáltis
Sobre as grandes penalidades, só uma suscita dúvidas (a segunda), embora Manuel de Oliveira, que havia de tornar-se um dos melhores treinadores portugueses, então jogador da CUF, garanta que nenhum teve razão de existir. Quanto ao tempo de compensação, um facto não suscita discussão: o Benfica atrasou propositadamente a entrada em campo (sete/oito minutos), cavando assim um fosso (aumentado pelos quatro/cinco minutos dados pelo árbitro) entre o final dos jogos em Torres Vedras e na Luz – os portistas estiveram quase um quarto de hora em campo só à espera de saber se eram ou não campeões. Resulta desta viagem ao passado que não existe sintonia entre a nuvem de suspeita que subsistiu até hoje e os relatos da imprensa da época. Para todos os efeitos, não deixam de ser intrigantes as palavras de Manuel de Oliveira, bem como a decisão da Comissão Central de Árbitros (CCA) relativamente ao juiz.
Irradiação
Apesar de nunca ter sido feita prova das suspeições alimentadas desde então, Inocêncio Calabote acabaria por ser irradiado pela CCA com base no seu relatório desse jogo. Em entrevista concedida a Record de 8 de março de 1991, explicou a punição: “Tinha o hábito de acertar o relógio para a hora certa, razão pela qual, para mim, o jogo começou às 3 horas, mesmo que, noutros relógios, tenha começado atrasado”. Calabote reconheceu então que foi “casmurro” na elaboração do relatório: “Devia ter escrito que o jogo começou tantos minutos atrasado devido à entrada tardia da equipa do Benfica. Mas não: escrevi que tinha começado dois minutos atrasado e a Comissão, dizendo que tinham sido quatro, levantou-me um processo e irradiou-me”. O árbitro alentejano recorreu, alegando não ter havido prova de suborno. A resposta da Comissão foi negativa. E enigmática: “A alusão ao facto de o senhor Calabote não ter sido subornado é despropositada e infeliz, porquanto do respetivo processo nada consta a tal respeito.”