_
Cresceu em exércitos de luxo até assumir funções como imperador do futebol mundial. Um dos melhores defesas da história do jogo enche de classe os relvados europeus desde 2002. Um dia, sentiu-se desrespeitado e abandonou o estágio em vésperas de um Chipre-Portugal. E só reencontrou a felicidade plena quando viu abertas as portas do regresso.
1 – O maior prémio
RECORD – O que significa para si integrar o onze do século?
RICARDO CARVALHO – É o maior troféu que poderia receber. Sinto que tenho um percurso longo e bem recheado mas o futebol não costuma ser generoso com os defesas, razão pela qual valorizamos muito estas distinções. Não me queixo, mas os avançados têm mais visibilidade, marcam golos, expressam o talento de modo eloquente e são mais reconhecidos. Se estava à espera de ser distinguido? Sinceramente não estava. A maior parte do meu percurso foi feita fora de Portugal, pelo que admitia ser preterido por quem fosse mais próximo das pessoas. Isto sabendo que na Seleção fiz um bom percurso desde 2003, com o ponto alto do Euro’2004. É bom vermos o trabalho reconhecido. Quando dás conta de que estás entre os melhores de sempre, é inevitável refletir sobre o que se passou em cada momento. Volto atrás e penso nas conquistas europeias do FC Porto e, principalmente, na fase final do Euro’2004.
2 – Adeus Amarante, olá Porto
R – Como viveu a transferência para o FC Porto, há mais de 20 anos?
RC – Os meus sonhos começaram cedo. Joguei no Amarante até aos 16 anos e imaginava-me num grande clube; fui para o FC Porto e queria impor-me. Aos 17 anos atingi a Seleção e isso teve um impacto enorme em mim: não pensava chegar tão longe em tão pouco tempo. Depois disso fui emprestado ao Leça e regressei ao FC Porto na época do penta. Como a dupla de centrais era Aloísio-Jorge Costa e sabia que não ia jogar, pedi para ser emprestado outra vez. Precisava de me entregar dia a dia aos treinos sabendo que iria jogar ao domingo. Preferi sair da minha zona de conforto, tal como fizera quando troquei Amarante pelo Porto. Tive de crescer rápido, porque é complicado um miúdo de 16 anos mudar de vida tão bruscamente, afastar-se dos pais, da restante família e dos amigos. Mas a vontade de evoluir, melhorar o meu futebol e jogar no FC Porto superou tudo.
3 – Feliz em Alverca e Setúbal
R – Como foram os anos que passou em Alverca e Setúbal?
RC – Foram dois anos muito fáceis em termos de adaptação, até porque já vivia sozinho no Porto. Fui eu quem pediu para sair, de preferência para um clube do Norte. Mas quando apareceu o V. Setúbal nem olhei para trás: vim com toda a disponibilidade e convicção. Gostei de viver em Setúbal, recordo muito o clube e a cidade. Na época seguinte fui para o Alverca, porque não tinha lugar no plantel portista e precisava de jogar. Também guardo excelentes recordações desse tempo, das viagens quase diárias à Expo com a minha namorada, dos passeios, das idas ao cinema… Foi um tempo feliz. Consolidei-me em termos desportivos e senti que estava preparado para regressar ao FC Porto. Fazia parte do plantel para a temporada seguinte e acreditei que a minha hora podia chegar a qualquer instante.
4 – No lugar de Fernando Couto
R – Recorda a estreia por Portugal?
RC – Perfeitamente: foi no Restelo, numa noite de chuva, com a Albânia. Ganhámos 5-3 e eu entrei na segunda parte – o Fernando Couto celebrou a centésima internacionalização. A chamada correspondeu às minhas expectativas: estava a jogar no FC Porto e esse passo fazia sentido. Se foi uma passagem de testemunho? O Fernando era o capitão e um jogador tão respeitado que era quase impossível raciocinar nesses termos. Mas isso aconteceu mais cedo do que eu pensava. Como titular de um grande FC Porto, bicampeão nacional, vencedor da Taça UEFA e da Liga dos Campeões, a minha presença tornou-se mais assídua e acabei por garantir a titularidade depois do primeiro jogo do Euro’2004, perdido para a Grécia. O Fernando não teve culpas mas, a partir desse jogo, Scolari mudou alguns jogadores: eu, Miguel, Nuno Valente, Deco e Cristiano fomos promovidos a titulares. A partir de então passei a jogar regularmente.
5 – Aquele FC Porto de ouro
R – Como viveu o período entre 2002 e 2004?
RC – Foi uma fase de ouro. Sempre que entrávamos em campo fazíamo-lo com confiança, conscientes de que tínhamos uma boa equipa, harmoniosa, com ideias claras e muito bons jogadores. Fosse qual fosse o adversário, sabíamos que era possível ganhar. O domínio interno foi um primeiro sinal de superioridade, acentuado pela vitória na Taça UEFA e, mais ainda, pela conquista da Champions. A equipa de 2002/03 foi esmagadora, porque a época anterior tinha sido uma desgraça e, com a integração de alguns jogadores contratados, sob a liderança de José Mourinho, tudo mudou para melhor. Fomos aprendendo a jogar em conjunto, até sabermos de cor o que cada um fazia em campo. Começámos a ganhar e aproveitámos o sucesso para crescer e atingir nível elevadíssimo. A intimidação que provocávamos nos adversários era muita. Nesse período tivemos jogos tremendos, como as finais da Taça UEFA e da Champions.
6 – "Seremos capazes?"
R – Que relevância teve o Euro’2004 na sua carreira?
RC – O Euro’2004, que veio na sequência das grandes conquistas do FC Porto, foi extraordinário. Não me esquecerei do ambiente, das vibrações que sentimos, do afeto que recebemos… É o momento da carreira que guardo com mais carinho e um dos mais importantes da minha própria vida. Não esqueço o início sofrido da campanha, marcado pela gigantesca dúvida se estaríamos à altura de jogar um Europeu, em casa, pressionados pelos nossos adeptos – muitas vezes nos perguntámos "seremos capazes?"… Os dias seguintes à estreia foram complicados. Demos, a seguir, uma boa resposta com a Rússia [2-0] e, depois, vencemos a Espanha por 1-0. Daí até à final foi tudo sublime. As emoções do Euro’2004 foram únicas.
7 – UM GRANDE Chelsea
R – Como enquadra a transferência para o Chelsea no verão de 2004?
RC – Foi a sequência lógica da minha afirmação no FC Porto. Eu pensava que o conceito de felicidade passava por ficar no FC Porto toda a vida. Mas surgiu a possibilidade de ir para o Chelsea e foi muito importante ter saído. Dei continuidade à evolução e mostrei que era capaz de ser igual a mim próprio jogando numa liga mais competitiva. No primeiro ano tive dificuldades, por causa da língua e pelo tipo de futebol. Porém, e porque em termos desportivos a época foi muito boa para nós, acabei por adaptar-me. Teria sido mais fácil adaptar-me ao futebol espanhol mas fiz bem em ir para o Chelsea. Consolidei competências e melhorei em tudo. Era rápido, lia bem o jogo, percebia a ideia do treinador, integrei-me bem e depressa me senti em casa.
8 – Madrid à segunda
R – Pode dizer-se que viveu no Chelsea os melhores anos da sua carreira?
RC – Cheguei a Inglaterra com 26 anos, caminhava para o auge das minhas potencialidades e transbordava confiança. Sim, é verdade, vivi no Chelsea os melhores anos da carreira. Foi a opção perfeita para mim. Na altura tive o Real Madrid como alternativa. A escolha não foi minha, porque não houve entendimento entre os clubes, mas os espanhóis foram os primeiros interessados nos meus serviços. Ao fim de seis anos em Inglaterra fui mesmo para o Real. Assinei por dois anos e a primeira temporada foi tão boa, tão boa, que o clube renovou o contrato. No segundo ano lesionei-me – e esse foi, ciclicamente, o meu maior problema. A vida complicou-se no segundo ano: estive muito tempo parado e foi aí que comecei a perder lugar e espaço. Depois a idade também não ajudou, pois já estava com 33-34 anos… Já na altura as pessoas pensaram que eu estava acabado e já não valia a pena esperarem por mim. Incluindo o próprio José Mourinho, a quem tanto devo, o melhor treinador com quem trabalhei na vida, não teve dúvidas em dizer-me: "Ricardo, o teu momento já passou." Repliquei-lhe: "Míster, vai ver que esse momento ainda não chegou." Já estava no Monaco e trocámos mensagens; disse-me que, afinal, a razão estava mesmo do meu lado: "Continuas em grande."
9 – PRECIPITAÇÃO FATAL
R – Como explica o que sucedeu na tarde em que virou costas à Seleção?
RC – Sempre orientei o comportamento pela necessidade de me treinar para estar em condições de jogar no domingo. Não entrando nas contas, o melhor seria ir para onde pudesse fazer as duas coisas – aconteceu isso no FC Porto, treinado por Fernando Santos. A base do sucedido na Seleção foi essa. Estava a jogar no Real Madrid, tinha um percurso consolidado e reagi a uma situação penalizante. Claro que me precipitei. Por mim voltaria no dia a seguir, mas as coisas são como são. Imagine que, depois de tudo isso, comecei a ter lesões e perdi o lugar no clube. Desde o dia em que parti a minha vontade foi a de regressar à Seleção e ajudar o meu país. O instinto conduziu-me à precipitação. Bastava ter pensado mais uns segundos e não teria tomado aquela atitude. Já o admiti e volto a fazê-lo. Mas esta maneira de pensar, esta relação entre o treino e o jogo, também serviu para me conduzir onde cheguei. Respeito toda a gente mas também gosto ser respeitado. Tudo se resolveu e estou muito grato por isso.
10 – O sonho concretizado
R – Alguma vez pensou que o afastamento era irreversível?
RC – Sempre disse que estaria disponível para voltar, mesmo sabendo que muita gente pensava que o regresso me devia estar vedado. Percebia as reservas e até o entendimento de que é preciso fazer uma renovação. Mas tinha uma vontade enorme de mostrar que ainda podia ajudar o meu país. Aquele primeiro jogo depois do afastamento foi tremendo. Sabia que estava bem mas não podia falhar, pressionado pelos olhares que estavam concentrados na minha exibição – "se falho, ainda me matam", cheguei a pensar em voz alta. Tive o prémio de concretizar o sonho de voltar a vestir a camisola de Portugal, embora umas vezes tivesse mais esperança do que outras. Nada suportava a convicção, antes pelo contrário, mas sempre pensei que ia voltar. De resto, cheguei a dizer isso mesmo ao presidente da Federação. Fiz a minha parte para cumprir esse desejo e só tenho de agradecer a quem me abriu as portas. Deus ajudou-me a voltar à Seleção.
11 – Monaco é última etapa?
R – O Monaco é a etapa final da carreira?
RC – Não sei. Escolhi o Monaco porque a liga francesa é competitiva e o projeto do clube me seduziu. Jogámos a Champions nesta época e o percurso dos últimos dois anos foi muito bom. Vejo-me ainda a jogar a bom nível mas sei que, pela idade, tenho luta enorme pela frente. Acabarei por perdê-la mas, enquanto isso não acontece, tudo farei para continuar a ganhá-la. Por enquanto estou satisfeito com o resultado. Cabe-me prolongar essa guerra, mesmo sabendo que acabarei por sair derrotado, mantendo um bom nível, de olhos postos na Seleção Nacional. É isso que me move. Espero ajudar Portugal a qualificar-se para o Europeu, mais ainda sendo em França, onde há tantos portugueses; quanto a mim, não posso antecipar a condição em junho de 2016, mas tudo farei para lá estar.
MAIS
Um ano de ouro
"O ano de 2004 ficará na minha memória, porque foi o melhor da carreira: pelo culminar do sucesso com o FC Porto (uma equipa impressionante…), pela presença na fase final do Europeu e pelo que se seguiu no Chelsea. Depois de ter ganho a Champions, foi uma sensação tremenda pisar um grande palco como o Euro – extraordinário estar ali a representar o país, mais ainda jogando em casa. Seguiu-se a afirmação no Chelsea e a conquista do título ao fim de 50 anos de jejum, mas a passagem pelo Real Madrid e, agora, esta distinção: estar no onze do século, reconhecido pelos portugueses, é um prémio que eu nunca pensei conquistar."
MENOS
Muitas lesões
"Os piores momentos estão relacionados com as lesões – e foram muitas. Só consigo jogar ao meu nível se estiver bem fisicamente e fui muito prejudicado por lesões. E isso aconteceu não apenas na curva descendente como também em fases nas quais estava no topo – em 2009, no Chelsea, tive muitos problemas musculares. A esse nível basta um afastamento breve (e no meu caso foi longo) para perdermos o lugar. O Euro’2004 só não foi perfeito porque perdemos a final. Nunca me conformei com essa derrota."