Pedro Lomba e o desafio no Praiense: «Poder viver só do futebol... nem sentes que trabalhas»

• Foto: Facebook Pedro Lomba

RECORD - Como está, pessoalmente, a correr a primeira experiência fora do distrito de Viana do Castelo. Acredito que estando tão afastado do ambiente de sempre possa não ser fácil.

PL – É o aspeto mais difícil. Fui pai há cinco meses. Tenho um outro filho com dois anos e essa tem sido a parte mais difícil. De resto, não só pela ambição desportiva mas por aquela que é a minha forma de estar, facilmente me adapto às realidades. Já tinha vivido fora do país, na Holanda, cerca de dois anos, mas não em algo relacionado com o futebol. Já tinha alguma noção a esse nível mas custa sempre estar fora, até por motivos familiares. Poder viver só do futebol… não sentes que trabalhas. Estás bem disposto todos os dias. Às vezes estás horas e horas de volta de um treino, a olhar para o adversário e nem  percebeste que estás a trabalhar. Estás a fazer isto como se fosse um dia de lazer. Só tem custado mesmo a separação em relação aos filhos. É algo que valorizo muito. A adaptação tem sido fácil. A ilha é um local bom para se viver. As pessoas são muito afáveis.

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R - Como é que surgiu o convite para treinar o Praiense?

PL – O convite surge por intermédio de um ex-jogador meu, por parte da SAD do Praiense que estava para entrar em funções. Numa assembleia-geral do clube, o presidente foi destituído e estavam a tentar que vendessem a SAD a um investidor. Relativamente a esse investidor, quem se encarregou da parte desportiva foi um ex-jogador meu, o Hélder Oliveira. Até a SAD sair, em agosto e setembro, foi o nosso diretor-desportivo. Sempre me disse quando ainda era meu jogador, e ele tinha passado por bons clubes, que eu tinha um grande potencial. Tinha tido muitos treinadores mas achava que a minha forma de liderar era diferente. Disse-me que quando pudesse me iria ajudar. O que é certo é que quando surgiu a oportunidade... A história é muito maluca mas o futebol tem destas coisas.

R – Nesta estreia no Campeonato de Portugal, está surpreendido com alguma coisa na prova?

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PL – Vou ser sincero. Não vou dizer que tivesse receio mas estava ansioso ou tinha até alguma tensão em relação ao que seria o Campeonato de Portugal. Há jogadores ali que rapidamente chegam à 1ª Liga. Na Série onde estou, mesmo aqueles que não sendo profissionais e tendo os seus trabalhos têm de ter uma estrutura profissional senão não conseguem acompanhar o campeonato. Senti alguma tensão. Também era uma forma de me comprovar a mim se tenho capacidade ou não. Estou muito contente por estar neste campeonato mas confirmei aqui aquilo que achava em relação ao meu potencial. Senti que tinha potencial para cá estar. O que achava do futebol e da ideia de jogo e também por comparação aos jogadores do distrital em que há vezes basta uma pequena mudança de atitude para chegar ao Campeonato de Portugal. A grande diferença que encontrei no Campeonato de Portugal não foi nos jogadores. A qualidade técnica e às vezes a do conhecimento do jogo ela também existe nos campeonatos distritais. O Praiense, no onze habitual, tem quatro ou cinco jogadores que vieram dos distritais, o que prova que eles têm valor para jogar na competição. Onde senti diferença foi ao nível da estrutura do Campeonato de Portugal e em relação às equipas, que são mais profissionais. A competição entre treinadores está a fazer-me crescer muito. Acredito que tenho o potencial e as competências para estar num nível destes. O que senti é que o que diz respeito ao que é a análise de jogo, mesmo no decorrer do mesmo, há muito mais qualidade, pelo menos na série onde estou, relativamente aos treinadores. Cresci muito com isso nos primeiros 10 jogos. Continuo com a minha ideia de jogo, ela prevalece e procura ainda níveis mais acima, tal como continuo com a minha forma de trabalhar e liderar. Percebi que se enquadra e encaixa, é mais do que suficiente para estar neste nível. A preparação e leitura de jogo tal como a análise do adversário, assim como o adversário te analisa a ti e os problemas que te vai colocando são as maiores diferenças que senti em relação ao nível distrital.

R – Como é que carateriza o plantel do Praiense, que conta com vários jovens nas fileiras?

PL – A qualidade não tem idade. É assim que penso. Havia uma proposta para o Praiense ser uma equipa com outro valor, pagando bons valores aos jogadores, mas de repente se percebe que não poderá ser. Por isso, temos de nos ficar pelos jogadores jovens e do distrital. Para convencer pessoas a vir para a ilha é normal que se tenha um plantel mais jovem porque quem tem uma família ou uma relação com a namorada muito forte, sair da zona de conforto para ir para os Açores não acontecerá a menos que compense financeiramente. Lidar com um plantel jovem tem dois lados. Aquilo que é a proposta de jogo, o treino e a mudança, há uma maior aceitação e recetividade. Ficas a perder no que é o controlo do jogo e emocional. Faz falta a malandragem no futebol de saber ganhar a falta, de saber pedir um cartão. É importante no controlo do jogo. Quando o digo é no bom sentido. Como são jovens, querem ficar com a bola, segurá-la e sair a jogar. Às vezes acabam por não retirar benefícios. A nível de liderança, já lidei com gente muito mais velha e dei-me bem. Com gente nova, também me estou a dar. Por vezes, há um conflito de valores ao qual eu tenho de me adaptar. O tempo em que nasci, a minha geração, é totalmente diferente da geração deles, assim como os valores. Tem de haver uma adaptação da minha parte. Temos um excelente grupo. A liderança com eles passa pela honestidade e pela sinceridade. O que tenho para lhes dizer, digo-lhes. Não minto. Foi o que disse no primeiro e vai ser até ao último dia. Prefiro dizer que aquele não vai jogar ou não fica nos convocados frontalmente do que dar o ‘banho da cobra’, como se costuma dizer no futebol. A fidelidade é dizer o que se sente, foi o que lhes prometi. Sendo novos, custa-lhes ouvir a verdade e a terem uma pessoa direta a dizer essas coisas. Passado uns dias, são os primeiros a reconhecerem essa frontalidade. Faço-o sempre sem gritos e com respeito. Às vezes eu sei que dói mas tem de ser dito até porque serve para o crescimento deles. Tem funcionado.

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R – O objetivo é a 3ª Liga?

PL – O Estrela e o Sporting B são de outro campeonato quer pela qualidade do plantel quer pelas estruturas. Notamos que quando jogamos contra eles estamos a jogar contra equipas de 1ª Liga. Só na estrutura já estão a ganhar 1-0. É uma realidade. Depois, há equipas que até não estão bem mas são históricas e nota-se, por exemplo, que o Real está a crescer mas passou mal. É outro clube com estrutura. Passámos um momento conturbado mas… continuamos a passá-lo. Nós não temos estrutura. Temos três pessoas que não são profissionais do ramo e que têm todo o trabalho que seria da SAD. Têm os seus trabalhos e dentro da sua possibilidade vão tentando a ajudar. Eu não consigo ter um diretor num treino. Nós é que temos de ajudar as senhoras da rouparia. A equipa técnica tem feito este tipo de trabalho quase todo. Quando tens uma saída, nós é que a organizamos. Falo de toda a logística. Isto tem também sido um crescimento para nós. O período é conturbado porque está vigente um processo em que se tenta reverter as ações da SAD para o clube. Tem-se conseguido com os patrocinadores da ilha e com o que poderá ser com os apoios governamentais para que as contas estejam todas certas. Há duas formas de estar na vida: ou nos fazemos vítimas da vida ou somos guerreiros, lutando pelo que queremos. Foi isso que fazemos dentro do objetivo do grupo. Os jogadores conhecem as limitações, sabemos que trabalhamos bem e já o demonstrámos em campo. Num bom dia podemos vencer qualquer adversário, mesmo o Estrela e o Sporting B. Já o demonstrámos. O objetivo desportivo é a 3ª Liga, sonhamos com isso. Depende de nós a trabalhar da forma possível mas estamos num desporto em que no fim é que fazemos as contas.

R – Já se viu numa situação em que a função vai bem para além de ser treinador?

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PL – Já tinha esta noção. Nos distritais, as estruturas também são difíceis porque as pessoas não vivem só daquilo. Subindo ao Campeonato de Portugal pensamos que subimos de nível. Depois, cheguei aqui, e posso dizer que foi a pior equipa quanto a estrutura que treinei. Na distrital, a equipa com pior currículo que treinei, se calhar, tem maior organização do que tem o Praiense. Foi a realidade que apanhei. Se calhar noutros anos não era assim. Foi um choque mas acabámos por pensar que era voltar um bocadinho ao que era a nossa realidade. Mais uma vez, em vez de colocarmos a cabeça no chão, pensámos em aproveitar a oportunidade. Tive a felicidade de ter um adjunto, o Pedro Caneco, que é alguém muito dinâmico, era da ilha. Já tinha trabalhado com equipas de ilha, conhecendo a dinâmica toda das viagens e todo o processo que acontece. As gentes são jovens e estão fora das famílias e não fazem mais nada a não ser treinar e viver para o clube. Espero, no futuro, só me poder dedicar aquilo que eu gosto, o futebol. Começo a ter outra sensibilidade para perceber o que é o futebol e a outra parte do futebol, o que é preciso. Ter esse conhecimento não ocupa espaço.

R – O facto de a Praia da Vitória não ter polos de distração como haveria noutros pontos do país ajuda a garantir um grupo mais uno?

PL – A crise económica não ajudou, mesmo antes de chegar a pandemia. Já foi uma zona de muito comércio. É uma zona muito calma que tem uma praia, podes passear pela marginal. O jogador tem acesso a tudo a pé. Temos a sede onde tomamos o pequeno-almoço, almoçamos e jantamos. Depois do pequeno-almoço, toma-se um cafezinho e vamos para o estádio. Há um ginásio no estádio que está cinco estrelas, que ainda melhorámos. Depois do treino vamos almoçar. À tarde podem dar um passeio ou voltam a ir ao ginásio. Não há outras preocupações. As atividades e convívio é sempre com as mesmas pessoas. Isso acaba uma união. Temos essa vantagem. A equipa é jovem. Para ter jogadores de renome, como o Praiense teve em anos anteriores, teriam de arranjar casas para famílias e algo adjancente.

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Por Flávio Miguel Silva
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