Fernando Brassard: «Não estava a cem por cento e só me restava o abandono»
Para o "keeper" de Portugal na vitória do Mundial de 91 "a fractura do escafóide e uma larga incerteza quanto ao futuro apressaram esta minha decisão. No entanto, penso manter-me no futebol como treinador de guarda-redes"
CONFIRMADO: Fernando Brassard, o guarda-redes da selecção lusa que, em 1991, venceu o Mundial de Sub-20, no Estádio da Luz, numa empolgante final com o Brasil, filho de António Brassard, também ele guardião de uma das melhores equipas de sempre da Académica de Coimbra, liderada pelo "capitão" Mário Wilson, com Vítor e Mário Campos, Artur Jorge, Crispim, Gervásio, Celestino, Ernesto e outros "capas negras", acaba de se decidir pelo abandono, divulgando a Record as razões que presidiram a esta sua opção.
"Verdade, resolvi mesmo colocar um ponto final na minha carreira de jogador de futebol. Uma decisão que me provoca, naturalmente, uma enorme amargura, mas que foi devidamente ponderada e que não poderia ser outra. No entanto, não a tomei de ânimo leve, nem ela surgiu de uma forma expontânea, bem antes pelo contrário. Falei com alguns dos meus amigos, escutei os meus familiares mais próximos, sobretudo, meu pai que também foi guarda-redes, tendo alinhado muitos anos na Académica de Coimbra, e a conclusão final foi mesmo esta: o abandono do futebol era a solução que melhor se ajustava à realidade."
– Uma realidade bem amarga, tal como, aliás, já o referiu?
– Acontece a quem anda no futebol e há que enfrentar a situação de uma forma absolutamente tranquila, sem dramas, nem nada que se lhe assemelhe. Costuma dizer-se que quem anda à chuva molha-se e, infelizmente para mim, acabei por ser eu a vítima. No entanto, há que tentar seguir em frente, pensando que haverá outras pessoas que enfrentam situações bem mais complicadas nas suas vidas.
– Já o sabemos, um grave problema no escafóide, osso do pulso, acaba por estar na origem desta sua inesperada decisão, a de deixar o futebol como jogador, quando ainda não tem 30 anos. Quer concretizar outros aspectos do problema?
– Confirmo-o, no decurso de uma sessão de treino do Vitória de Setúbal, no Estádio do Bonfim, ao tentar segurar um remate, lesionei-me com gravidade, o que obrigou a que me submetesse a uma intervenção cirúrgica, que se realizou em Janeiro, ante a responsabilidade do dr. Mota de Castro, uma personalidade bem conceituada em cirurgia plástica. Tratou-se de uma operação algo complicada, muito especialmente quando se trata de um jogador de futebol e, no caso específico, de um guarda-redes. Aliás, já em 1990, antes do Mundial de Sub-20, eu enfrentara um problema semelhante, dessa vez totalmente superado.
– O que não aconteceu agora, a avaliar pela sua súbita tomada de posição?
– Foi isso. Passados estes meses e depois de uma profunda reflexão, concluí que, como guarda-redes, já não voltaria a ser o mesmo, pois nada nem ninguém me garantia que ficaria a cem por cento para o futebol.
– Não admitiu sequer que a situação viesse a evoluir e que as perspectivas passassem a ser diferentes de molde a encarar o futuro de uma outra forma?
– Confesso que não. Depois da operação, seguiu-se uma fase de recuperação, que integrou intensos tratamentos, mas nunca senti que poderia ficar perfeitamente "au point". Aliás, nem o próprio médico me garantia os tais cem por cento, atendendo especialmente ao importante facto de se tratar de um jogador de futebol. Ante isso, optei, então, por abandonar, equacionando vários aspectos. Mesmo tendo, apenas, 29 anos, não estava a ver-me a arrastar por aí, sem conseguir exibir em pleno as minhas faculdades.
O futebol vai continuar
Fernando Brassard e o adeus do guarda-redes como homem das balizas. No entanto, em relação ao futuro, o "keeper" dos campeões do Mundo de Sub-20, em 1991, faz questão em deixar bem acentuado:
– Já o disse, tratou-se de uma opção naturalmente complicada, pois desde os meus dez anos de idade que estou muito directamente ligado ao futebol. No entanto, jamais me passou pela cabeça que iria entrar numa curva descendente, pois, imodéstia à parte, julgo que realizei uma carreira com aspectos bem bonitos, com alguns pontos altos e outros menos bons, o que acontece a qualquer um.
– Em termos de futuro, já o deixou antever, não pretende divorciar-se do futebol. Confirma-o?
– Na realidade, penso tentar conseguir um lugar de treinador de guarda-redes, dispondo-me a amealhar conhecimentos que me possibilitem tal. Daí a minha decisão de, em breve, iniciar uma espécie de périplo junto de vários clubes de considerável projecção europeia, para "in loco" ampliar esses mesmos conhecimentos. Por outro lado, pretendo também deslocar-me aos Estados Unidos da América e aí, junto do nosso compatriota Daniel Gaspar, que dirige uma escola de guarda-redes, enriquecer-me com os seus ensinamentos. Falo em treinador de homens das balizas, pois julgo que, em Portugal, existe uma importante lacuna neste aspecto, ao contrário do que acontece noutros países, onde o treino dos "keepers" é verdadeiramente específico e da responsabilidade de quem sabe da função.
Ricardo, Quim e companhia...
Mostrando-se algo crítico pela forma como, entre nós, (não) se coordena o treino de guarda-redes, Fernando Brassard aponta, contudo, algumas excepções, ao afirmar:
"No Benfica, por exemplo, tive a felicidade de poder contar durante algum tempo com a excelente colaboração de José Henrique, um profissional perfeitamente identificado com as exigências do lugar. No entanto, outros não tiveram tal sorte."
– Mesmo assim, existem e sempre existiram excelentes guarda-redes no futebol português. Concorda?
– A prova disso está, por exemplo, na selecção nacional, onde, dado o impedimento do Vítor Baía, quer o Quim como o Ricardo justificaram perfeitamente a confiança neles depositada por António Oliveira. Para além destes dois, há o Nélson, do Sporting, também ele um jovem de grandes faculdades. No entanto, o recurso a alguns estrangeiros de qualidade algo duvidosa acaba por preocupar. Se vierem até ao futebol português guarda-redes da classe de Preud'homme ou de Schmeichel, tudo bem, mas, infelizmente, isso só muito excepcionalmente acontece.
– Entretanto, no Benfica, está a despontar o jovem Moreira, o guarda-redes de Portugal que acaba de vencer o Torneio de Toulon?
– Muito embora não o conheça suficientemente para expressar a minha opinião, disponho de boas referências acerca das suas capacidades. No entanto, se não jogar com regularidade, não poderá firmar-se nem confirmar-se, o que aconteceu com muito boa gente.
«Não saio do Vitória zangado com o Jesus»
Depois de ter alinhado no Louletano, Marítimo, Gil Vicente, V. Guimarães e Varzim, sempre cedido pelo Benfica, com os encarnados a fazerem "rodar" uma das suas esperanças nas balizas, Brassard vinculou-se ao V. Setúbal, acabando, agora, de concretizar a rescisão de contrato com os sadinos, protagonizando uma saída pacífica, ao contrário do que chegou a constar e que ele próprio confirma:
"Não saio do V. Setúbal zangado com quer que seja, muito menos com o treinador Jorge Jesus. Com a camisola do clube cumpri um ciclo onde existiu o oito e o oitenta, pois houve a subida de divisão, o regresso às provas europeias e a despromoção à II Liga. Esta época consumou-se o retorno à I Liga, o que constitui um justo prémio para todos, desde dirigentes, técnicos, jogadores e, acima de tudo, para a incomparável massa associativa do V. Setúbal, verdadeiramente exemplar na forma como apoia o clube."
– Nada de "guerras”, portanto, na hora do adeus ao Vitória e a Setúbal?
– Claro que não houve nada disso, nem nada que se pareça. Tinha, realmente, mais um ano de contrato, foi-me comunicado que não estava nos planos dos responsáveis, tendo em vista o futuro próximo, dispondo-nos a concretizar a respectiva rescisão do contrato que me ligava ao Vitória de Setúbal. Tive uma reunião com o presidente Jorge Goes e com Jorge Pereira, tendo definido as bases para tal, aguardando, então, que se passe das palavras aos actos. Aliás, estou firmemente convencido de que até ao fim tudo se irá processar da melhor forma. Globalmente, direi ainda que tive o maior prazer em ter envergado a camisola de um clube como o V. Setúbal, onde a paixão pelo futebol se acentua como uma agradável constante.
– Mesmo assim, depois do problema do escafóide, ainda voltou a jogar pelo V. Setúbal?
– Sim, fiz alguns jogos, mas já sentia que não era o mesmo, com as minhas faculdades a ficarem consideravelmente reduzidas. Logo nessa altura, admiti que teria de pensar muito seriamente em tomar uma importante decisão e foi o que fiz.
«Tapado no Benfica pelo senhor Michel»
Largos anos no Benfica, onde teve pela frente guarda-redes que fizeram história no futebol português, casos de Silvino e de Neno, Fernando Brassard, ao mesmo tempo que elogia ambos, tem sobretudo palavras de grande apreço por Preud'homme, tal como salienta:
"No Benfica, muito especialmente nos últimos tempos, estive sempre tapado pelo senhor Michel Preud'homme, o que, aliás, era perfeitamente natural, pois tratava-se do melhor guarda-redes do Mundo e, perante tal, nada haveria a fazer. Mas, para além disso, Preud'homme foi sempre um excelente companheiro, um ‘gentleman’ na verdadeira acepção do termo e um homem de uma grande formação moral, que me ajudou deveras em múltiplas situações. Com o Michel no Benfica, era impossível qualquer um outro defender a baliza e foi o que aconteceu comigo. Ainda joguei umas três vezes na melhor equipa do Benfica, mas isso só aconteceu por total impedimento do Michel."
Decidido que em breve viajará até Liège, para junto de Michel Preud’homme ampliar os seus conhecimentos, Fernando Brassard acentua: "Com ele, irei mesmo aprender muita coisa, pois, para além do seu passado brilhante, o Michel gosta mesmo de colaborar com os mais jovens, não olhando a nomes nem a situações."
«Alinhei com gente da geração dourada»
Ao mesmo tempo que afirma que "ao fim e ao cabo, mesmo deixando o futebol de uma forma algo inesperada, pois contava jogar mais uns anitos" , Brassard acrescenta:
"Mesmo assim, no Benfica, ainda fui vice-campeão nacional e ajudei a ganhar uma Taça de Portugal, aquela frente ao Sporting, onde acontecimentos bem tristes enlutaram muita gente que estava no Estádio Nacional. Também integrei a selecção de Portugal que pela primeira vez venceu o importante Torneio Internacional de Toulon, para além de ter estado presente em duas fases finais do Mundial de sub-20, ambas ganhas por Portugal. Em Riade, fui suplente do Bizarro e, em Lisboa, o guarda-redes titular."
Em jeito de balanço, expressa o seu justo orgulho, afirmando: "Alinhei ao lado de gente da chamada geração dourada do futebol português, casos de Fernando Couto, Paulo Sousa, Jorge Costa, Figo, Rui Costa, Peixe, Capucho e João Pinto, este na altura do Mundial da Arábia Saudita, ainda juvenil, o que também acontecia comigo. Ainda hoje recordo com saudade aquela final do Mundial de 91, com 120 mil pessoas, no Estádio da Luz, tal como lamento que, no ano seguinte, no Campeonato da Europa de Esperanças, tivesse perdido a final, com a Itália, por morte súbita."
Enquanto enaltece a acção de Carlos Queiroz, classificando-o "como o treinador que revolucionou todo o jovem futebol português, contando com a preciosa colaboração de Nelo Vingada", Brassard refere:
"Durante estes anos, nos escalões jovens e em esperanças tive a honra de envergar a camisola da selecção nacional em 75 jogos, apenas me faltando a principal equipa das quinas, o que lamento. No entanto, todo o resto do meu percurso acabou por ser positivo, tal como me orgulho de grandes amizades nos clubes por onde passei, deixando sempre abertas as respectivas portas."