José Rachão: «Merecia uma nova oportunidade»
O técnico vencedor da Taça de Portugal deixou o V. Setúbal três dias depois da conquista no Jamor, frente ao Benfica. Recusou um cargo atrás da secretária e muito dinheiro por querer provar que tem valor para treinar uma equipa da SuperLiga
RECORD – Consumada a saída do Vitória, qual o seu futuro imediato?
JOSÉ RACHÃO – O meu futuro passa por continuar a treinar. Foi essa a opção que escolhi e vou aguardar com serenidade. Já há alguns contactos e a perspectiva de algumas coisas.
RECORD – A vitória na Taça de Portugal dá-lhe um estatuto que ainda não havia usufruído na sua carreira de treinador.
JOSÉ RACHÃO – Quando cheguei ao Vitória houve um pouco de precipitação e algumas injustiças em relação ao meu nome. Quando se dizia que eu tinha treinado apenas segundas divisões é bom realçar que essas chamavam-se Académica de Coimbra, Rio Ave, Paços de Ferreira, Nacional da Madeira, Varzim, Leixões, etc., para além de Barreirense, Estoril, Torreense, clubes com muito prestígio e muito valor no futebol português. Estive várias vezes à beira da I Divisão e esta chegada à SuperLiga só veio provar que tenho carisma e valor para o escalão principal.
RECORD – É isso que está espera daqui para a frente?
JOSÉ RACHÃO – Sim. Repare, eu não ganhei apenas a Taça de Portugal. Ganhámos a Taça, um lugar na Taça UEFA, o Vitória vai disputar a Supertaça na próxima época. Enfim, muita coisa junta para agora as pessoas ignorarem.
RECORD – Saiu magoado?
JOSÉ RACHÃO – Saio sentido, magoado não. É verdade que já sabia que provavelmente não ia continuar, ainda para mais depois de tudo o que se disse no último mês e meio. Mas depois de tudo aquilo que conquistei e sabendo que os treinadores normalmente estão dependentes de resultados… Se eu os consegui, não fazia sentido que saísse. Daí ter alimentado a esperança que pudesse continuar como treinador do Vitória. Agora, dizer que estou magoado? Com o Vitória nunca. Só posso agradecer ao Vitória tudo o que me deu. Isto para mim é um até já, porque quando o clube voltar a precisar de mim volto a correr. Depois do que vivi no Estádio Nacional, na Praça do Bocage, o Vitória ficou para sempre gravado no meu coração.
RECORD – A despedida foi bastante emotiva?
JOSÉ RACHÃO – Compreendo que os sócios tenham posto algumas reticências em relação a mim, porque andei pelos segundos escalões, não me conheciam bem. Mas à medida que as pessoas me foram conhecendo, jogadores, dirigentes, adeptos, todos perceberam que servi o clube, sou competente, sério e honesto. Foi isso que me foi retribuído naqueles aplausos na hora da minha partida.
RECORD – Este processo deixou marcas? Sai mais zangado com o futebol?
JOSÉ RACHÃO – Não, pelo contrário. Cada vez tenho mais consciência daquilo que é o futebol. Hoje sei sentir, por exemplo, como o Toni saiu do Benfica depois de ter sido campeão.
RECORD – Continua amigo de Chumbita Nunes?
JOSÉ RACHÃO – Só tenho de dar valor ao Chumbita Nunes e ao Quinito por terem apostado em mim. Não sou mal agradecido. Agora, os que apostaram em mim têm de fazer às pessoas que me vão suceder, exactamente a mesma avaliação que fizeram comigo. E aí é que se vai ver a competência.
RECORD – Quando é que lhe propuseram a equipa B o futebol juvenil?
JOSÉ RACHÃO – Há dois anos que o Vitória estava interessado em mim, porque via em mim carácter, dignidade, conhecimentos e valor para abraçar o projecto do clube, provavelmente como chefe da formação. Depois optaram por me dar uma oportunidade como técnico da equipa principal, correndo os riscos inerentes. Isto é um jogo. Ganhámos todos, mas eu era o líder do grupo de trabalho e, se ganhámos, as perspectivas podem ter de ser diferentes. Muito me honra o convite que me fizeram, mas quero frisar que recusei muito dinheiro, um contrato de quatro anos… Só que não quero ir já para trás da secretária. Ainda tenho valor para treinar uma equipa de futebol e não podia trair a família e os meus amigos. É uma questão de orgulho. Não fazia sentido abdicar de tudo e ir para a formação depois de ter alcançado tudo o que alcancei. Acho que merecia uma nova oportunidade.
RECORD – Fez as pazes com os adeptos?
JOSÉ RACHÃO – Há uma solidariedade entre mim, o Vitória e a sua massa associativa. O Vitória e a cidade de Setúbal são coisas muito grandes. Os setubalenses têm sofrido muito e esta festa disfarçou alguns dos problemas que existem no distrito.
RECORD – Uma carreira de 37/38 anos que teve o seu ponto alto no domingo.
JOSÉ RACHÃO – É o ponto marcante na carreira de um treinador. Principalmente porque em 2004/05 fui o único treinador português da SuperLiga a ter conseguido um título. Tenho muito orgulho nisso. Além disso, o Vitória ainda foi a equipa mais disciplinada, o terceiro melhor ataque da SuperLiga, o Jorginho foi o Melhor Jogador para o Record... Foi um ano de ouro. Os jogadores foram grandes.
RECORD – Giovanni Trapattoni e José Mourinho tecerem elogios ao seu trabalho na final.
JOSÉ RACHÃO – Duas pessoas que estão mais habituadas a receber elogios do que a elogiar. Deixam-me orgulhoso e agradeço-lhes… O sr. Trapattoni é a prova inequívoca que algo está a mudar aqui. Há gente que está há muitos anos no futebol que tem valor e o sr. Trapattoni veio dizer que, além de ser-se campeão, é preciso ser-se humilde. As vitórias do Benfica no campeonato e do V. Setúbal na Taça são também vitórias de dois homens do futebol.
«Couceiro sofreu como eu»
RECORD – Divide esta Taça de Portugal com o José Couceiro?
JOSÉ RACHÃO – Ninguém ganha nada sozinho. Enalteço o valor dos jogadores, a administração, os sócios – disse sempre que esta vitória era para os sócios do Vitória. Divido este êxito também com os jogadores que não subiram ao relvado no Jamor e também com o José Couceiro que fez três eliminatórias, pois bateu o Pedras Rubras, o Ac. Viseu e o V. Guimarães… Eu fiz os três melhores "B's" do campeonato: Braga, Boavista e Benfica.
R – José Couceiro saiu do FC Porto como você do Vitória.
JR – Ele sofreu na pele o que eu sofri. Não é fácil ver notícias com nomes de pessoas para os nossos lugares. Tomámos os dois a mesma decisão, porque também temos orgulho e dignidade.
«Carreira sem pisar ninguém»
RECORD – Foi natural a passagem de jogador para treinador?
JOSÉ RACHÃO – A minha vida é baseada na alegria, na raça, determinação e trabalho. É a minha personalidade. Quando deixei de jogar no Leixões, comecei logo aí a carreira de treinador, tinha 29 anos. Nessa altura os grandes treinadores eram José Maria Pedroto, Mário Wilson, Fernando Vaz, Juca, Manuel de Oliveira, António Medeiros. Sei o que é assumir a carreira de treinador quando se é jovem. Arrisquei logo, pendurei as botas e construí uma carreira sem ter pisado ninguém, sempre com grande respeito por esses nomes que acabei de mencionar. É claro que há lugar para todos, para a nova geração, a velha geração… O que tem de existir sempre é respeito e humildade.