Morreu Anselmo Fernandez, o arquitecto da Taça de Taças

Morreu Anselmo Fernandez, o arquitecto da Taça de Taças
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ANSELMO Fernandez morreu na madrugada de quarta para quinta-feira em Madrid aos 81 anos de idade. Quitna-feira, durante todo o dia, a bandeira do Estádio José Alvalade esteve a meia haste.

O sócio número 52 do Sporting Clube de Portugal não era um sócio qualquer. Anselmo Fernandez, enquanto líder de uma equipa técnica de que faziam parte também Reis Pinto e Francisco Reboredo, levou o Sporting à conquista do maior feito internacional da sua história futebolística: a conquista da Taça dos Vencedores das Taças. Enquanto arquitecto, a profissão que escolheu, foi um dos responsáveis pelos projectos de construção do Estádio José Alvalade. Tanto num como noutro caso, Anselmo Fernandez recusou qualquer tipo de remuneração do Sporting.

Nascido a 21 de Agosto de 1918 em Lisboa, mas filho de espanhóis de Zamora, o treinador/arquitecto iniciou a carreira de futebolista em 1933 no Sporting. Viria a terminá-la, ainda em Alvalade, em 1944, aos 27 anos. Do futebol passou para o râguebi e pelo meio conclui a licenciatura em Arquitectura. Como arquitecto, e para além do estádio, projectou também o Hotel Tivoli e as Faculdades de Letras e de Direito de Lisboa. Teve ainda tempo para se dedicar à arbitragem e ganhar um prémio incluído na equipa do juiz internacional Joaquim Campos.

Estreou-se como técnico em 1962 substituindo o treinador húngaro Szabo, em situação difícil da equipa de Alvalade. Viria a acudir os leões em mais três ocasiões. Desde cedo demonstrou ter um estilo próprio, unanimemente considerado avançado para a época, com recurso a vídeos (filmes) de jogos dos adversários. Foi conhecido também por algumas excentricidades. Como num dia de um FC Porto-Sporting em que festejou o golo inaugural dos portistas à beira do intervalo. Porque sentia que, assim, na segunda parte a sua equipa iria virar o resultado com mais facilidade. E virou: o Sporting ganhou 3-1.

Em 1964 voltou a ser o bombeiro de serviço. Substituiu o brasileiro Gentil Cardoso a meio da eliminatória frente ao Manchester United. Em Old Trafford, os portugueses tinham perdido por 4-1; com Anselmo Fernandez viraram a eliminatória, vencendo por 5-0. A odisseia que terminou com a conquista da Taça das Taças durou 12 jogos, com três eliminatórias a necessitarem de desempate.

Anselmo Fernandez saiu pouco depois de Alvalade incompatibilizado com um dirigente que interferiu na formação da equipa. Foi treinar a CUF e num dia teve a infelicidade de sofrer um acidente de viação que lhe acabou com a carreira.

Depois de uma vida inteira a recusar prémios e homenagens, Anselmo Fernandez morreu a poucos dias de receber uma do grupo "Os Cinquentenários" (ver caixa). O corpo do antigo técnico foi cremado e a missa do sétimo dia realiza-se em Lisboa, em local ainda a designar.

UM PRÉMIO ETERNO

O grupo sportinguista "Os Cinquentenários" vai promover no próximo dia 29 de Janeiro o seu almoço número 221, que coincide com as comemorações do 30º aniversário da associação. Na ocasião, o ponto alto, como de costume, será a entrega dos prémios "Visconde de Alvalade" e entre os distinguidos está o nome de Anselmo Fernandez, aliás nome escolhido há já alguns dias.

Para além do treinador-arquitecto do clube, os outros premiados são Jaime Gomes Duarte, sócio número 100 do Sporting, e Fernando Mamede, antigo atleta e recordista mundial dos 10 mil metros. Também Octávio Ribeiro, dirigente mais antigo de "Os Cinquentenários", será nomeado sócio honorário do grupo.

AUGUSTO INÁCIO: "ERA UM GRANDE SPORTINGUISTA"

Augusto Inácio não conhecia bem Anselmo Fernandez mas está a par da grandeza da sua obra como técnico e também arquitecto ao serviço do Sporting. Afinal, Inácio exerce hoje em dia as funções que Fernandez desempenhou nos anos 60 e que culminaram com a conquista da Taça das Taças, o título internacional mais importante da história do clube.

"Não o conhecia bem, mas sei que era um grande sportinguista. Lamento muito a sua morte", afirmou ontem o actual treinador da equipa leonina durante a conferência de Imprensa que precede o jogo de sábado frente ao Santa Clara.

REIS PINTO: "É DIFÍCIL HAVER OUTRO IGUAL"

Henrique Reis Pinto conheceu Anselmo Fernandez como ninguém. O actual vogal da direcção do Sporting presidida por José Roquette era o preparador físico dos leões em 1963/64, integrando a equipa técnica de que fazia parte também Fernando Reboredo, treinador de campo. "Não digo que senti o mesmo de quando morreu o meu pai. Mas quase", desabafa o dirigente.

"Estive com Anselmo na grande conquista da Taça das Taças. Lidei com um homem com uma face humana que é difícil de encontrar outro igual", continua. De acordo com Henrique Reis Pinto, "ele era um líder em toda a acepção da palavra". "Não era treinador de campo, trabalhava com Fernando Reboredo nesse aspecto e comigo como preparador físico", prossegue.

E foi no facto de os três constituírem uma equipa que assentaram os triunfos: "Fizemos um trabalho global que nos levou àquela conquista. Havia uma equipa, cada um tinha a sua missão e o conjunto é que era importante." "Anselmo deu-me a liberdade máxima para a responsabilidade máxima", finaliza Reis Pinto.

OUTROS DEPOIMENTOS:

MASCARENHAS

"É uma perda importante de um homem que deu tudo ao futebol. Neste dia ingrato temos de pensar que a vida é mesmo assim. Era uma pessoa muito dada e muito aberta. Como técnico gostava de impor a disciplina e tinha um grande conhecimento de futebol, avançado para a época. Esteve à frente da conquista da Taça das Taças, em que sempre acreditou porque a palavra de ordem dele era 'vitória'. Nós seguimos a palavra dele"

OSVALDO SILVA

"Era uma pessoa extraordinária. Um grande professor nosso. Deu-nos força e confiança e ao mesmo tempo carinho. Teve influência no auge da carreira de muitos de nós. Ensinou-nos imenso, era muito avançado para a época. E sempre com uma grande humildade, o que o tornava uma pessoa extraordinária. Quando conquistámos a Taça de Portugal constituíamos uma família, da qual ele era o grande pilar. Nunca conheci ninguém que soubesse tirar tanto rendimento dos jogadores, sempre com uma palavra meiga. Estou comovido e chocado por saber disso"

FERNANDO MENDES

"Quem lidou com Anselmo Fernandez ficou sobretudo com a ideia clara de que se tratava de um homem muito avançado para a época. Não só em termos de conhecimentos de futebol como também no trato com os jogadores. Nas vésperas do Sporting-Manchester United, por exemplo, levou-nos a ver um vídeo do adversário na sede do clube na Rua do Passadiço, o que atesta bem do seu avanço. Foi alguém que fez tudo pelo Sporting e por nós também, incentivando-nos a ter um comportamento social compatível com a grandeza do Sporting"

PEDRO GOMES

"Foi o treinador que mais me marcou na minha carreira. Um homem culto, inteligente e humanista, um professor do futebol e um excelente psicólogo. Lembro-me de na eliminatória com o Manchester United ele me dizer que o extremo que eu tinha de marcar se chamava Best, mas que eu é que ia ganhar o confronto. Era um apaixonado do futebol que analisava minuciosamente a forma como os adversários actuavam. A maneira como nos explicava a estratégia antes dos jogos era meio caminho andado para a vitória. O futebol é um jogo de ideias e Anselmo Fernandez era um arquitecto do futebol. Para a posteridade fica a sua maior obra: a conquista da Taça das Taças"

MORAIS

"Era uma excelente pessoa, foi sempre meu amigo e eu dele. Compreendia muito bem os jogadores de futebol. Quando o Sporting parecia naufragar aparecia ele. Tenho muita pena de ouvir essa notícia. Tenho excelentes recordações daquele ano de 64 em que ganhámos a Taça das Taças. Para a qual contribuiu toda a equipa, principalmente Anselmo Fernandez, uma pessoa estupenda. De vez em quando, tinha discussões connosco mas não duravam mais de umas horas ou um dia. No dia seguinte, tinha sempre uma palavra amiga"

HILÁRIO

"Anselmo Fernandez foi das primeiras pessoas que fez com que uma equipa profissional de futebol utilizasse o vídeo para estudar os adversários. Quando defrontámos o Manchester United, vimos, através de cinema, o filme da final da Taça de Inglaterra que a equipa inglesa tinha disputado. Estava muito avançado em relação à época. Como pessoa era extraordinário e fez muito pelo Sporting. Fico muito sentido ao tomar conhecimento do seu desaparecimento"

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