Um laço de sangue numa vida à xadrez

• Foto: José Gageiro/Movephoto

São 24 horas por dia, sete dias por semana e 365 dias por ano a respirar Boavista. É um amor sem igual, que vai dos pés à cabeça e que é de sempre e para sempre. Uma vida inteira a preto e branco e, ao mesmo tempo, cheia de cor.  Eis Manuel do Laço. Quando se pensa no Boavista e nos seus adeptos, este é um nome que nos sai quase instantaneamente. Assim, era inevitável fazer uma reportagem com um dos mais icónicos boavisteiros.

Quem é, afinal, Manuel do Laço? Como surgiu este amor pelo Boavista e pelo xadrez? “Eu comecei a usar laço aos 4 anos”, começa por contar o próprio, a Record, a quem deu o ‘sim’ imediato quando convidado a participar nesta reportagem.

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“A minha família era toda boavisteira”, prossegue. “Comecei a vir para aqui com 5 anos. Vinha e, depois de ajudar, ia a pé para o Campo Alegre. As pessoas da minha mocidade estavam na praia e eu aqui. Ajudava a marcar o campo, a tratar dos equipamentos. Enfim, ajudava os funcionários do Boavista. Vinha da escola para aqui”, recorda.

É, portanto, um amor de cerca de oito décadas aquele que liga Manuel do Laço ao Boavista. Uma ligação que faz questão de deixar clara através da indumentária diária, preta e branca há cerca de 20 anos. “Jurei que se o Boavista fosse campeão nunca mais tirava a roupa preta e branca. Até hoje. É dos pés à cabeça”, diz, sorridente, aproveitando o mote para lembrar um dos dias mais felizes da sua vida: o da conquista do título, em 2000/01. “Olhei para o céu e disse: ‘Vocês que trabalharam tanto para este clube, faço ideia da vossa alegria. Este campeonato é vosso’”.  

Descida tirou noites de sono

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Em praticamente oito décadas de ligação, Manuel do Laço viveu já muitos momentos felizes com o seu Boavista, mas houve um em específico que o marcou pela negativa: a descida por via judicial, que até o sono lhe tirou.

"Fui sozinho para a Federação, aquando da reunião em que se decidiu que o Boavista ia descer. Quando soube, até um murro dei no carro dos diretores. Foi das maiores injustiças do futebol português e mundial. Não dormia. E foi um milagre o Boavista não acabar", relembra, recordando também que fez "greve de fome" na altura.

Nessa fase, o clube passou por momentos difíceis, mas Manuel do Laço ajudou como pôde. "Os jogadores não tinham leite, pão. E eu, com os poucos tostões que tinha, ajudava", frisa. 

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Só um desejo para o futuro

Manuel do Laço teve a felicidade de ver o seu Boavista erguer vários troféus e ser feliz em vários momentos. O próprio recorda com saudade os tempos da Liga dos Campeões, das taças conquistadas e da presença constante nos momentos de decisão. Ainda assim, quando a conversa é o futuro, assegura que tem apenas um desejo: que o que sucedeu em 2008 não volte a repetir-se. "O que eu mais desejo e quero é que este grande clube, um dos mais antigos da cidade do Porto e de Portugal, não volte a passar por aquilo que passou", sublinha.

Por Pedro Morais
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