"Ouvi Dizer", "Chaga", "Capitão Romance" e "Dia Mau" são alguns dos muitos títulos que, invariavelmente, conduzem a mente de quem gosta de música para o nome dos Ornatos Violeta. A banda criou fama no final da década de 90, mas a reputação aí construída serviu de base para que, ainda hoje, seja aclamada e esgote salas um pouco por toda a parte. Quem gosta não esquece a voz mítica de Manuel Cruz, o som único saído das teclas de Elísio Donas, as notas cuspidas pelo baixo de Nuno Prata, as guitarradas épicas de Peixe ou o ritmo desconcertante e a camisola do Boavista que são sinónimos de Kinorm.
E foi precisamente no baterista que desaguou mais uma reportagem, ou não fosse este um boavisteiro dos sete costados que entra em palco vestido ao xadrez. "Comecei a usar a camisola do Boavista em palco numa tanga. Na altura íamos tocar à praça Sony e havia o Jumbotron, um ecrã nunca antes visto. Disse ao meu irmão: ‘Já imaginaste a camisola do Boavista ali?’. Ficou espectacular. Daí, foi até hoje. Agora, uso como homenagem ao clube e pelo meu pai, que já cá não está, é uma forma de o sentir presente", explicou a Record.
A prática começou a brincar, mas agora é levada a sério. A camisola nem sempre é a mesma, embora no passado recente tenha usado preferencialmente uma que lhe foi oferecida por "Francisco Moura, um grande boavisteiro". "Estava no Dubai e ia jantar a casa dele. Estava de camisa vermelha. Ele disse-me que assim não entrava e deu-me a camisola", conta. Agora, terá uma nova, a desta época, que lhe foi oferecida pelo Boavista.
Início de tudo e memória do tio
A vida de Kinorm está umbilicalmente ligada ao Boavista. Nascido no seio "de uma família de boavisteiros sérios", o músico diz que este é um amor que lhe foi passado desde criança. "Contavam-me histórias e já não sei quais são as minhas e quais são as deles. São nossas", partilhou.
O pai, por exemplo, foi "dirigente" na era "pré-Valentim Loureiro", integrando uma comissão de gestão que foi organizada para fazer frente a uma crise diretiva. O tio, por outro lado, era o sócio número 20 do clube e foi até recentemente homenageado pelo Boavista. "Tive o privilégio de ver o Boavista homenagear o meu tio Carlos Vieira, sócio número 20, com um minuto de silêncio antes do jogo. É a história mais fantástica que tenho com o Boavista recentemente", confidenciou.
Picardia sã com o amigo Peixe
Kinorm é boavisteiro e Peixe, guitarrista dos Ornatos, é portista. Por essa razão, a rivalidade às vezes faz-se sentir. "Eu e o Peixinho somos um bocadinho mais cáusticos na crítica. Ele acha que eu odeio o FC Porto e eu não acho que odeie o FC Porto, mas às vezes gosto de o fazer sentir i sso", disse, entre risos. Na prática, os dois vivem a rivalidade de forma sã, tanto que já viram dérbis juntos. "Já vi aqui um dérbi com ele. Vivemos com a ansiedade normal de um dérbi", apontou, desejoso de poder fazer o mesmo com amigos de outros clubes .
Por Pedro Morais