O Boavista do bairrismo, da capacidade de sofrimento e do orgulho viverá enquanto houver adeptos que o sintam dessa mesma forma. Jorge Lopes é um de variadíssimos exemplos de quem sente, sofre e vive intensamente o emblema axadrezado e fá-lo há mais de 50 anos. Tudo começou por influência do avô e, hoje em dia, nem uma insuficiência visual o impede de ser presença assídua não só no Bessa como nos jogos fora.
"Esse meu avô fez com que a família vivesse o Boavista no dia a dia. Fosse onde fosse, chegava o fim-de-semana e nós acompanhávamos o Boavista para todo o lado. Aliás, é algo que ainda faço hoje ao fim de mais de 50 anos", começou por contar Jorge Lopes, de 58 anos, completando: "Recentemente houve um problema de saúde que, curiosamente para alguém do Boavista, está relacionado com uma má visão. Mas mesmo com esta dificuldade visual eu não consigo viver sem vir ao Estádio do Bessa, sentir e viver o ambiente que aqui existe. E também nos jogos fora faço questão de estar com outros associados, com os Panteras Negras, a apoiar a equipa. Ainda nas últimas semanas estive no Jamor, no jogo com o Casa Pia."
E se hoje em dia é Jorge Lopes quem lida com um problema no seu dia-a-dia, há uns anos foi o clube que ama que passou por uma longa e difícil travessia no deserto, fruto da descida administrativa em 2007/08. Viveram-se tempos negros e onde toda a ajuda era pouca. "Há um conjunto de associados que se junta, a pedido da direção, e criámos a associação ‘Amigos do Boavista’. Fazia a ponte entre as necessidades do clube e a sociedade. Pediámos contribuiçõe a boavisteiros, pessoas de outros clubes, empresas para ajudar em necessidades básicas para a sobrevivência do clube. Porque nessa altura simplesmente não havia dinheiro", contou Jorge Lopes sobre um projeto que liderou em conjunto com outros sócios do clube e que hoje se encontra desativado: "Funcionou muito bem e funcionou no tempo em que tinha de funcionar."
Viveu o apogeu e o pesadeloQuando se acompanha um clube ao longo de 50 anos é natural que se crie um conjunto de memórias onde existe de tudo um pouco. Jorge Lopes não foge a essa regra, até porque o Boavista é um clube com uma história dividida entre conquistas e desilusões.
"Em 2000/01 tivemos o nosso apogeu ao sermos campeões. Foi fantástico e foi uma oportunidade gigante de nos tornarmos ainda maiores, porque já somos, em termos desportivos, a quarta força do país", frisou Jorge Lopes, recordando depois o período mais negro que se seguiu: "O Boavista não teve os apoios que outros clubes tiveram para construir o estádio, foi atirado para 2ª Liga porque era preciso encontrar um bode expiatório... Podia ter sido a machadada fatal. Felizmente houve força para dar a volta."
É a Europa que ainda faz sonharPouco a pouco, o Boavista vai-se reerguendo depois da queda e Jorge Lopes tem um desejo para o futuro que gostava de ver concretizado no seu tempo. O regresso do Boavista europeu.
"Gostava de ver aquilo que se calhar que já não será para os meus dias, espero que sim mas não sei... Recordo-me do Boavista jogar com o Bayern Munique, de termos ido empatar a Liverpool, de jogarmos com o Celtic, de irmos a Dortmund... Éramos o Boavista FC na Europa do futebol e gostava muito de poder regressar a esses tempos", desejou.
Por José Miguel Machado