''Apito Dourado'': Ataque ao sistema
O caso está longe do fim e as consequências são imprevisíveis. Os investigadores da PJ acreditam que há árbitros comprados com apitos em ouro, materiais de construção, promessas de boas classificações e orgias com "garotas de programa". Tudo para favorecer FC Porto e Gondomar. O escândalo já chegou a uma presidente de câmara. E não vai ficar por aqui
Foi há dois anos: um telefonema anónimo para a PJ do Porto alertava para a corrupção que alastrava no campeonato de futebol da II Divisão B e dava o exemplo concreto de um jogo que ia disputar-se entre o Sp. Braga B e o Gondomar e que estava viciado à partida.
O caso foi levado a sério pela PJ que, durante um ano, seguiu os jogos daquela competição, fez escutas telefónicas e vigiou de perto as grandes figuras de Gondomar, com Valentim Loureiro à cabeça. O que parecia ser um fenómeno regional, típico de pequenas cidades dominadas por caciques, rapidamente alastrou-se ao resto do País e à SuperLiga.
Os investigadores da Polícia descobriram uma teia de interesses engendrada para manipular jogos e árbitros. O presidente do FC Porto, Pinto da Costa, foi detido e acusado de cinco crimes de corrupção e falsificação. Isabel Damasceno, presidente da Câmara de Leiria, foi envolvida.
O árbitro internacional Lucílio Baptista foi interrogado.
Por agora, só foram envolvidos clubes e dirigentes do Norte. Mas a investigação está longe de terminar. “Todos os dias ouvimos alguém nalgum sítio”, diz uma fonte próxima da investigação. “Estamos na fase do aconchego da prova”. Quer dizer: confirmar o que já foi recolhido. É que as primeiras detenções ocorreram há quase um ano e a acusação tem de ser deduzida até Abril. A partir daí é a doer.
O major Valentim Loureiro foi o primeiro a cair e arrastou com ele amigos do peito. Ele próprio admite que adora falar. Ao vivo, na TV e ao telefone. A PJ escutou-lhe mais de mil conversas ao telemóvel, que constituem o grosso da prova recolhida até agora. A 20 de Abril de 2004, quando ainda não eram 8 da manhã, três inspectores da PJ batiam-lhe à porta de casa e levavam-no sob detenção para o tribunal de Gondomar.
Foram detidas mais 15 pessoas na operação Apito Dourado, preparada com tanto sigilo que até o director da PJ, Adelino Salvado, foi apanhado de surpresa. A Polícia fez mais de 60 buscas domiciliárias, mas não terá encontrado qualquer prova.
Foram conduzidos a interrogatório os principais dirigentes do Gondomar e ainda Pinto de Sousa, presidente do Conselho de Arbitragem da federação, uma espécie de eminência parda com grande poder entre os homens do apito. Valentim foi o último a ser interrogado depois de duas noites detido nos calabouços da PJ. Saiu após pagar 250 mil euros e teve de se afastar da presidência da Liga. Depois de uma noite no conforto do lar veio à rua de chinelos, robe e pijama aos ursinhos para dizer que não podia falar. Queria mas não podia.
Apitos de ouro
A montanha parecia ter parido um rato: em causa estavam jogos da II Divisão B, onde o Gondomar disputou e ganhou a subida palmo a palmo com o Dragões Sandinenses. Valentim intercedia junto de Pinto de Sousa para arranjar árbitros pedidos pelo presidente do Gondomar, José Luís Oliveira.
O prémio eram apitos de ouro e boas classificações para os árbitros e votos para Pinto de Sousa. Uma ninharia, muito longe do “sistema” tantas vezes denunciado por Dias da Cunha, o presidente do Sporting.
Mas não. No final do ano, em Dezembro, quando parecia tudo parado, o apito soou mais alto. São detidos os árbitros Jacinto Paixão e Augusto Duarte. O empresário António Araújo, em alta no FC Porto, também foi presente à juíza Ana Cláudia Nogueira.
E faltava o ás do baralho: Pinto da Costa, que só não foi detido porque estaria na Galiza às compras e os inspectores que o foram buscar a casa bateram com o nariz na porta. A Torre das Antas, o centro de estágios do Olival e a residência do presidente foram alvo de buscas. Correram rumores que o presidente do FC Porto tinha sido avisado e que já não voltava a pôr os pés na Invicta.
Vitórias
Mas ao fim da tarde daquela sexta-feira Pinto da Costa chegou, escoltado pelos superdragões que o protegeram não se sabe bem de quê. Entrou no tribunal onde esteve quatro horas e saiu a tempo de ver o FC Porto perder em casa com o Beira-Mar. No fim-de-semana lançou a autobiografia "Largos Dias Têm Cem Anos" no Estádio do Dragão e na segunda-feira apresentou-se, pontual, para o interrogatório.
Ao fim de 14 horas saiu em liberdade, indiciado por cinco crimes e 125 mil euros mais pobre. Três minutos depois McCarthy marcava no Dragão o golo da vitória contra o Chelsea de José Mourinho. Duas vitórias numa noite.
No dia seguinte, os pormenores sórdidos da investigação transpiraram para a rua: segundo a PJ, Pinto da Costa sugeria a Valentim Loureiro e a Pinto de Sousa os árbitros que queria.
Tentava influenciar os castigos aplicados aos jogadores a braços com a justiça da Liga, exercia influência sobre tudo e todos. António Araújo, o empresário sem licença que trouxe para as Antas brasileiros às carradas, era o homem encarregado de organizar orgias para os árbitros que colaboravam com o sistema.
Brasileiras
As meninas, também brasileiras, foram interrogadas pelas autoridades. E tudo numa época, 2003/04, em que o domínio do FC Porto foi tão avassalador que nem sequer precisava de favores. Foi no ano em que ganhou a Liga dos campeões sem a mínima contestação. Custa a perceber. Pinto da Costa continuou a guerra surda com Rui Rio e jamais se referiu ao processo. Continua sem poder falar com Valentim Loureiro.
E quando se pensava que o caso ficava por ali, a brigada da PJ do Porto vem a Lisboa e a Setúbal para ouvir mais gente, sobretudo árbitros. Jorge Coroado e Vítor Pereira são nomeados peritos e passam horas a observar jogos. Juízes de primeira linha como Bruno Paixão e Pedro Proença são chamados como testemunhas.
Lucílio Baptista é interrogado e terá sido constituído arguido no processo. O ex-árbitro Azevedo Duarte também cai nas malhas da PJ. Isabel Damasceno fala bem de um árbitro ao telefone e é considerada suspeita. Dá para tudo: Alexandre Pinto da Costa, o filho que não se dá com o pai, é ouvido na PJ e tem de jurar a pés juntos “que não tem nada a ver com o Apito Dourado”.
Os intocáveis
A brigada da PJ do Porto que está a investigar em exclusivo o processo Apito Dourado já goza de uma reputação invejável nos corredores da casa. A brincar, os colegas chamam-lhes “Os Intocáveis", numa comparação elogiosa à brigada da Polícia de Chicago que nos anos 20 conseguiu prender Al Capone, o maior criminoso da época. Os nossos intocáveis só respondem perante o subdirector da PJ do Porto, Reis Martins e os seus nomes nem sequer saem cá para fora. Nenhum está ligado ao futebol seja de que maneira for.
Os polícias mais inspirados chamam-lhes "os introcáveis", porque escaparam ilesos à revolução promovida pelo antigo director da PJ, Adelino Salvado, que “despachou” os antigos subdirectores Teófilo Santiago e João Massano. A brigada do apito é chefiada por António Gomes e Edite Dias.
Jogos da suspeita
Os investigadores do processo observaram ao pormenor cassetes com 40 jogos da SuperLiga referentes à época 2003/04. Foram ajudados nesta missão pelos peritos Jorge Coroado e Vítor Pereira, antigos árbitros internacionais de reputação inatacável. Terão sido detectadas decisões passíveis de alterar a verdade desportiva em quatro jogos. Dois envolvem o FC Porto e outros dois rivais directos dos portistas na luta pelo título.
FC PORTO-ESTRELA DA AMADORA
Árbitro: Jacinto Paixão
Resultado: 2-0
Árbitro: Jacinto Paixão
Resultado: 2-0
Árbitro: Jacinto Paixão
Casos: O árbitro revelou ausência de critérios
disciplinares. Foras-de-jogo mal assinalados
Pontos Record ao árbitro: 1 (0 a 5)
NACIONAL-BENFICA
Árbitro: Augusto Duarte
Resultado: 3-2
Árbitro: Augusto Duarte
Resultado: 3-2
Árbitro: Augusto Duarte
Casos: Nada a assinalar que influenciasse o resultado
Pontos Record ao árbitro: 4
BEIRA MAR-FC PORTO
Árbitro: Augusto Duarte
Resultado: 0-0
Árbitro: Augusto Duarte
Resultado: 0-0
Árbitro: Augusto Duarte
Casos: Nada a assinalar que influenciasse o resultado
Pontos Record ao árbitro: 3
MOREIRENSE-SPORTING
Árbitro: Martins dos Santos
Resultado: 1-0
Árbitro: Martins dos Santos
Resultado: 1-0
Árbitro: Martins dos Santos
Casos: A segundos do fim da partida, Silva, do Sporting, é claramente carregado na área contrária e o árbitro nada assinala. No contra-ataque, Lito, do Moreirense, faz falta clara sobre Polga, isola-se e cruza para o golo da vitória obtido por Manoel
Pontos Record ao árbitro: 1
A Juíza azul
A jovem juíza de instrução Ana Cláudia Nogueira, 36 anos, adepta do FC Porto, tem na mão o destino próximo dos 29 arguidos do processo: julgamento ou não pronúncia. Aguentou dez horas de interrogatório com Valentim Loureiro, 13 com Pinto da Costa, quer levar os dois a julgamento e mesmo assim tem sido elogiada por todos os arguidos que lhe gabam o bom trato e a educação.
Sorri pouco ou nada, é meticulosa, não deixa uma única ponta solta e parece saber de cor todos os factos do processo. Aguenta sem pestanejar interrogatórios com mais de 12 horas o que a torna pouco popular, mas respeitada, entre advogados e funcionários judiciais. Já se mostrou inflexível quando manteve Valentim preso dois dias à espera para ser interrogado mas não repetiu o erro com Pinto da Costa e permitiu-lhe que fosse a casa e voltasse no dia seguinte. É filha de um militar e é casada com outro juiz.
O apito
Teófilo Santiago era o número 1 da PJ do Porto quando o processo rebentou. Como é da praxe, a operação tinha de ter um nome e o investigador lembrou-se dos pequenos apitos em ouro de filigrana feitos em Gondomar e oferecidos aos árbitros “amigos” do clube local. O nome Apito Dourado ficou. Mas Santiago não. “Esqueceu” de avisar o director Adelino Salvado e na primeira oportunidade foi corrido para Aveiro, sem direito a uma palmadinha nas costas. Salvado também já se demitiu da PJ depois de se envolver no caso das “cassetes da asa Pia”.